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Reality é o show

Em 2001, a TV mostrou as cenas de destruição do 11/9. Dez anos depois, ela sai na frente com uma programação em torno da cidade que ainda não se livrou do trauma

Cristina Padiglione,

21 de agosto de 2011 | 06h00

Onde você estava quando soube que dois aviões atravessaram as Torres Gêmeas, no Marco Zero de Nova York, em 11 de Setembro de 2001? Quem tomou conhecimento do fato por terceiros ou pelo rádio, bingo, lá foi em busca de uma imagem de tela. E não havia uma, havia várias, uma sequência inteira de cenas ao vivo, todas prontas para nos fazer crer que estávamos diante de um filme de ficção científica.

 

No afã de explicar o que acontecia, analistas de toda espécie foram pipocando de canal em canal, cada um com sua tese, em transmissão direta, e o 11 de Setembro foi ganhando inevitáveis contornos de show.

 

O caso é que pelo caráter histórico, no quesito "imagens que chocaram o mundo", nada se compara ao 11/09, fato de uma era em que todo mundo tem uma mísera câmera no bolso e um telefone à mão para gritar por socorro à emissora mais próxima. Naquele dia, os poucos minutos que distanciam o primeiro do segundo avião já garantem à segunda torre um flagrante em mais de um ângulo.

 

O documentário inédito que o History Channel exibe dia 12, The Days After, lembra que a questão mereceu até paralelos com Pearl Harbor entre a opinião pública americana. Lá estão cenas de um radialista que cita o ataque japonês na 2ª Guerra para encontrar nos ouvintes o aval público para o início de uma guerra contra o mundo árabe.

 

O foco muçulmano há de surgir em todos os ditos especiais da efeméride pela TV, incluindo CNN e GloboNews, o canal brasileiro que mais horas dedicará ao assunto, iniciado já no último dia 11.

 

O que não está no script e vale a pena ser visto, até para quem busca um olhar de fato diferente sobre a questão, é a programação da Al Jazeera, e há uma versão do canal em inglês, pronto para ser acessado em english.aljazeera.net/.

 

Entre os pontos em comum na TV do mundo ocidental que revisita o 11 de Setembro, estão: a corrida pelas armas; a transformação do Marco Zero, ainda em plenas obras, no maior destino turístico da América; o patriotismo estampado na profusão (ainda maior que antes) de bandeiras americanas; a reação e a opressão árabe no mundo todo, e a devastação econômica da Baixa Manhattan, com o fechamento de restaurantes e outros estabelecimentos.

 

É também o momento em que todo canal tem lá sua imagem "exclusiva" e "inédita", fruto de material doméstico que vai surgindo após a superação do trauma para muitos nova-iorquinos. Para Nicole Rittenmeyer, que produziu o novo documentário do History e já tinha feito 102 Minutes That Changed America, há personagens que já recontam sua história dezenas de vezes e há aqueles que jamais a contarão diante das câmeras. Isso explica, por exemplo, por que pouco se conhece da história dos passageiros que estavam nos aviões sequestrados, arrisca ela ao Estado.

 

Flashback de imagens à parte, o material humano dará o tom no pacote dos 10 anos que mudaram o mundo.

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