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Realismo filtrado

Além de fumo, bebida, sexo e violência, ficção na TV também esbarra em menções à vida real

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2013 | 21h42

Autora do remake de Anjo Mau, exibido às 18 h em 1997, Maria Adelaide Amaral acredita que aquela novela, hoje, só seria exibida às 21h, “e olhe lá”. Para Silvio de Abreu, criador de A Próxima Vítima (1995), em reprise pelo canal Viva, o folhetim sofreria uma série de alterações se fosse produzido agora. O autor, no entanto, reconhece que, para além das restrições da Classificação Indicativa do Ministério da Justiça, há um público também mais conservador.

“Por isso é que a imprensa criticou tanto quando eu revelei que o segredo de Gerson (Marcello Anthony) em Passione (2010) era o vício de acessar sites pornográficos. Para os jornalistas, normalmente de hábitos mais liberais, isso pode não representar grande coisa, mas, para a moral média das pessoas, representava algo fora do comum”, cita o autor.

A moral média do público é também o que norteia Carlos Lombardi na narrativa dos costumes liberais dos anos 70 em seu novo folhetim, Pecado Mortal. E é em nome dessa mesma moral média que ele rechaça intervenção externa para balizar o que é ou não adequado. Sua história tem boate de strip tease, mas ele diz saber que está na TV aberta, não na HBO.

“A ideia da classificação é patética”, diz ao Estado. “Tanto a Globo quanto a Record têm o seu departamento de controle de qualidade. Nós trabalhamos no limite da TV aberta.” Ultrapassar esse limite, justifica o autor, prejudicaria só a própria emissora. “Se não representar a moral média do público, a novela não funciona. As empresas são muito responsáveis, não podem perder anunciante – se existe um autocontrole é esse: tem muito dinheiro em jogo. A tendência das emissoras serem mais conservadoras existe, é real, isso é TV aberta.”

Mas há os casos em que de fato o receio ao MJ se impôs. Em Cordel Encantado (2011), exibida às 18h na Globo, Thelma Guedes e Duca Rachid desarmaram seus cangaceiros. Como havia lá um tom farsesco, a omissão mal se fez sentir. Já em O Profeta (2006), Thelma lembra de uma perseguição policial onde não havia uma única arma em cena. “Eles só gritavam: ‘parem! parem!”, conta.

Atualmente no ar com Joia Rara, de novo às 18h, enredo que vai de 1934 a 1945, a dupla recebeu da direção da Globo a orientação para criar a história sem se tornar refém das restrições, mas pensando no público e no bom senso. “A gente não esbarra muito em restrições porque sempre fez novelas mais fantasiosas”, admite Thelma.

Merchandising social. A exemplo do cigarro, que nas novelas foi se resumindo apenas ao consumo dos vilões, se tanto, a bebida alcoólica também desfila cada vez menos em cena. Ou melhor, até desfila, mas não é consumida como antes. Há muitos copos em exposição e não é incomum ver gente fazendo espoucar a rolha do champagne para levar taças do mais fino cristal a transbordar, principalmente entre os ricos do Leblon de Manoel Carlos. As sequências mais comuns, no entanto, acabam no tilintar do brinde.

Mostrar personagem ingerindo a bebida já são outros quinhentos – a não ser quando a personagem sustenta uma causa social na luta contra o alcoolismo, como foi o caso de Santana, personagem de Vera Holtz em Mulheres Apaixonadas (2003).

Os personagens de Pecado Mortal vão beber moderadamente e não vão fumar, mas também não usarão cinto de segurança, o que seria falso para a época, quando os carros até dispunham do recurso, mas ninguém o utilizava. “Tem até uma história boa, lá pelo capítulo 19 ou 20, em que há um suposto acidente e, ao se saber que o sujeito usou cinto, verão que o negócio foi armado, e não acidental”, antecipa Lombardi.

O autor também não se renderá aos termos politicamente corretos vigentes para designar, por exemplo, uma favela, cenário central de sua história. “Não existia comunidade, era favela. Eu me irrito muito com isso. Se eu falar afrodescendente, isso não significa que estou sendo mais ou menos preconceituoso. Falar ‘comunidade’ não pinta a favela de rosa.”

Mundo real. As personagens falarão em drogas e política, mas não mencionarão personagens verdadeiros, o que demanda sempre autorização por escrito de quem é citado ou de seus herdeiros. Ao lembrar que em JK a coleta de autorização de todos os personagens reais – a grande maioria – consumiu um ano de trabalho –, Maria Adelaide Amaral ensina que o melhor meio de conquistar o aval de suas fontes inspiradoras é estabelecer uma relação de cumplicidade com o personagem real, dispensando a intermediação jurídica para tanto. “Aprendi que é mais fácil quando o autor mesmo faz isso. No caso das autorizações relativas às minisséries Um Só Coração, JK, Dalva e Herivelto e Dercy, eu mesma fiz questão de conversar com cada um dos familiares para obter sua assinatura e, assim, estabelecer uma relação pessoal e de confiança com eles”, ensina. “Ao longo dos anos, tive apenas três negativas. Em compensação, fiz muitos amigos com os quais mantenho contato até hoje.”

Uma das negativas veio da família de Walther Clark, que não permitiu que o ex-diretor-geral da Globo fosse mencionado como o responsável pela saída de Dercy Gonçalves da emissora.

Em uma novela, no entanto, de ritmo mais acelerado que uma minissérie, a dedicação a esse expediente nem sempre cabe na agenda do autor.

No caso de Lombardi, o estreante da semana na seara de novela de época quase contemporânea, houve ainda outro empecilho relacionado ao mundo real. Ao tentar obter imagens da final do campeonato carioca, entre Vasco e Flamengo de 1977, justamente num 25 de setembro, quando sua novela estreia, a Record mais uma vez bateu na trave. “Então, o Canal 100 tinha imagens, mas era uma fortuna, custava metade de um capítulo, e eu desisti.”

“Pra eu botar uma foto da Beija Flor campeã em cena, eu preciso da autorização da Beija Flor. É uma foto que saiu no jornal, não é uma foto de arquivo pessoal. Quer dizer, o nosso passado coletivo agora tem dono. Privatizaram o passado.”

 

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