Renato Rocha Miranda/TV Globo/Divulgação
Renato Rocha Miranda/TV Globo/Divulgação

'Quer dizer que sou uma ladra, é?'

O público não cansa de se surpreender com a delicadeza do trabalho de Lilia Cabral, a Teresa de Viver a Vida, mais uma vez arrasando em uma novela de Manoel Carlos

Patrícia Villalba, O Estado de S. Paulo

01 Fevereiro 2010 | 15h22

São Paulo - Ninguém nunca duvidou que Lilia Cabral é uma grande atriz. Mas, sabe-se lá por que, ela ganhou projeção de verdade na fase madura da carreira, quando Manoel Carlos lhe deu a Marta, de Páginas da Vida, em 2006, a mulher amarga e invejosa, incapaz de aceitar a neta com síndrome de Down.

 

Na mesma época, de transformação, ela decidiu ousar, quando produziu a peça Divã. Foi vista por quase 200 mil pessoas e, depois, foi parar no cinema, onde repetiu o sucesso, arrebatando uma bilheteria de mais de 2,5 milhões de ingressos.

 

Agora, ela dá sequência à maré - não de sorte, mas de reconhecimento - com a Teresa, de Viver a Vida, do mesmo Manoel Carlos. É uma personagem tão forte quanto a Marta de Páginas da Vida, mas com mais nuances, muito mais complexa e com maior potencial para conquistar o público - não pela vilania, mas pela força com que defende a filha. Com esses elementos, mais o talento, é inevitável que se diga por aí que a atriz "tem roubado a cena" - comentário que ela responde com um charme e bom humor nesta entrevista ao Estado.

 

De uns tempos para cá, quando você aparece numa novela a gente ouve comentários do tipo "Lilia Cabral rouba a cena". Afinal, existe o "roubo de cena"?

 

Ah, quer dizer que eu sou uma ladra, é isso? (risos) Não estou roubando a cena, gente! O que acontece é que a Teresa é uma personagem muito bem construída, uma mãe leoa que está passando por tudo aquilo ao lado da filha (Luciana, papel de Alinne Moraes, que ficou tetraplégica num acidente). Numa situação dessas e com um texto daqueles, que tipo de atriz eu seria se não fizesse direito? É claro que dizer isso, que a atriz roubou a cena, é um grande elogio, mas não é bem assim. Acontece quando o ator defende seu personagem com unhas e dentes. A Norminha da Dira Paes (de Caminho das Índias), por exemplo, era uma mulher que simplesmente traía o marido e, claro, seria descoberta um dia. E a Dira inventou um jeitinho para ela e acabou tendo toda aquela repercussão.

 

Talvez seja falta de memória minha, mas tenho a impressão de que suas personagens mais antigas não tiveram a mesma repercussão das personagens dos últimos anos. Você sente que tem agora um reconhecimento maior?

 

Com certeza. Trabalhei duro durante muito tempo, mas tudo aconteceu para mim depois dos 45 anos, e eu te digo isso sem nenhum problema. Hoje, posso dizer que não falta nada na minha carreira e que as coisas aconteceram quando chegou o tempo delas. Para algumas pessoas acontece antes, comigo foi depois - e tudo bem. Não é que não tive bons personagens, fiz Vale Tudo, Tieta, Anjo Mau, Chocolate com Pimenta... Mas depois que eu produzi uma peça (Divã), sei lá, tudo mudou. Durante muito tempo fui vista pelos autores como aquela atriz que poderia fazer "a pobre" ou "a engraçada". Foi o Maneco que teve coragem de me dar uma coisa diferente para fazer, uma mulher amarga como a Marta (de Páginas da Vida), porque antes eu era vista como uma atriz mais cômica e mais doce.

 

Meryl Streep foi apontada como uma das atrizes que mais levaram público ao cinema em 2009, justamente interpretando mulheres maduras e...

 

Quem me dera levar multidões ao cinema! Nós fizemos uma bilheteria expressiva para o cinema nacional com o Divã, fiquei muito feliz.

 

Mas você acha que hoje em dia há melhores papéis para mulheres da sua idade do havia em outras gerações?

 

Não sei se há melhores papéis para atores maduros. Numa novela do Manoel Carlos, por exemplo, há papéis excelentes para todas as idades. A Luciana (Alinne Moraes) e o Miguel (Mateus Solano) são personagens maravilhosos para menos de 30 anos. Mas me sinto privilegiada sim de poder viver uma mulher como a Teresa.

 

É a quarta novela do Manoel Carlos que você faz. Nunca quis ser uma "Helena do Manoel Carlos"?

 

Nunca pensei sobre isso, sabia? O Maneco sempre me deu personagens maravilhosas, que tiveram grande destaque. A Marta, por exemplo, mudou a minha carreira. Hoje posso dizer que me sinto realizada, que não faltou nada. Desta vez, ele precisava de uma Helena jovem, foi essa a história que ele imaginou. Então, nem me passou pela cabeça que pudesse interpretá-la.

 

No começo de Viver a Vida, a Teresa parecia a típica ex-mulher amarga, pura e simplesmente. Mas ela acabou se tornando uma das personagens mais queridas do público da novela. Por que isso aconteceu?

 

As pessoas perceberam que ela é mais do que a clássica ex-mulher amargurada. Houve uma inversão no jogo interessante. Quando ela disse para a Helena (Taís Araújo) "você não vai ser feliz", ela sabia o que estava falando, porque conhece o Marcos (José Mayer).

 

É impressão ou você está mais bonita?

 

E olha que eu nunca fiz plástica, hein! Não sei se você me viu em Tieta (de 1989, onde ela interpretava a carola Amorzinho) - eu tinha três roupas, estava sempre de marrom. E minha personagem anterior, a Catarina (de A Favorita), que usava chinelo e meia? Sempre ouvi as pessoas dizendo "nossa, como você é bonita pessoalmente". É que se eu vou fazer a pobre, faço a pobre mesmo, sem vaidade. Não vou ficar colocando cílios postiços e passando blush. Imagina se a Marta, de Páginas da Vida, tivesse boas roupas e um bom corte de cabelo? Quem iria acreditar que ela tinha inveja de metade das mulheres do Rio de Janeiro? Agora, com a Teresa, é diferente. Ela é uma ex-modelo, rica e elegante. Tenho a chance de aparecer bonita, por isso as pessoas notam. Antes, tinha até medo que as pessoas pensassem "A Lilia, ex-modelo? Até parece!". Por isso, ando caprichando.

 

Viver a Vida está apenas na metade, e você já protagonizou uma coleção de cenas memoráveis. Qual é a sua preferida e qual foi mais difícil de gravar?

 

A preferida é a do primeiro banho da Luciana. Foi muito emocionante fazer, e sei que é muito emocionante de assistir. E a cena mais difícil de fazer foi aquela em que a Teresa conversa com a Luciana pelo telefone pela primeira vez depois do acidente. Ela pergunta "onde dói?", e a Luciana diz "no pescoço". Ela entende tudo ali. Mas, para gravar, eu não estava conversando com a Alinne (Moraes). Quem me falava o texto da Luciana era o diretor de produção. E eu tinha de passar toda aquela emoção, praticamente sozinha.

 

Depois de tanto tempo como colega de elenco do José Mayer, você não acha que, desta vez, sua personagem merece ficar com o personagem dele no final da novela?

 

Ah, acho que a Teresa poderia terminar com o Marcos, sim! Adoro trabalhar com o Zé, ele é um parceiro maravilhoso. Mas quem decide é o Manoel Carlos. A Teresa merece ficar com ele, pelo menos - ela o conhece como nenhuma outra. Logo vai ao ar uma cena bem bacana. Quando ficar sabendo da Dora (Giovanna Antonelli), ela vai perguntar para ele: "Esse seu problema tem número ou tem nome?" E ele vai responder: "Tem nome, sobrenome, RG, CPF, tudo."

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