Quem quiser, que conte outra

Assassinar a lógica até que não é pecado quando a tal licença dramática pede passagem à ficção

Etienne Jacintho, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2008 | 23h04

Lara, a personagem de Mariana Ximenes em A Favorita, está terminando o curso de Geologia na USP, mas, segundo seus colegas estudantes, a patricinha deveria voltar para o 1º ano - quiçá para o vestibular. A Executiva Nacional dos Estudantes de Geologia (Enege) enviou carta ao Estado para contestar informações na novela, por vezes equivocadas. A atriz até conversou com estudantes do curso na USP para dar mais veracidade à personagem, mas a turma não perdoa. Porém, uma aluna da pós-graduação, que não quis se identificar, diz que os erros não estão somente na novela. "Jornais e revistas, em reportagens sobre a geologia e os geólogos, costumam confundir as especializações da profissão."Desde o início, A Favorita vem recebendo críticas sobre alguns fatos classificados como inverossímeis. Mas, afinal, novela não é ficção? O primeiro ataque que o folhetim de João Emanuel Carneiro sofreu foi em relação a Flora (Patrícia Pillar), já que seria impossível a moça ficar 18 anos na prisão. "Novela é entretenimento", fala o autor. "É lógico que, por entrar na casa de milhões de pessoas, os temas devem ser tratados com qualidade e respeito, mas, o ônibus que o personagem pega ou o tempo da prisão, enfim, essas licenças dramáticas, em uma novela como A Favorita que, mesmo sendo contemporânea, possui universos fictícios, são aceitáveis e, às vezes, até necessárias." Depois veio uma questão geográfica, quando Irene (Glória Menezes), que estava na cidade fictícia de Triunfo - supostamente no interior de São Paulo - alcançou Flora (Patrícia Pillar) no Parque do Ibirapuera, em pouquíssimo tempo. "A história é localizada numa cidade que não existe. Se Triunfo não existe, como você pode saber quanto tempo levaria desta cidade até o centro de São Paulo, por exemplo?", defende Carneiro. "Se fôssemos levar tudo ao pé da letra, estaríamos fazendo um documentário, e não uma novela."AO SOM DE JULIO IGLESIAS Colegas de Carneiro concordam com as licenças ficcionais. "A boa ficção é aquela que tem por base a vida real, mas não precisa ser igual, não é uma fotografia, é uma reprodução", fala Silvio de Abreu. "Pensando assim, nem tudo o que é possível na ficção será possível na vida real e, se fosse, não seria necessário se perder tempo inventando histórias."Para Abreu, é curioso ver como as tramas absurdas são menos criticadas que as mais realistas. "Veja A Viagem, de Ivani Ribeiro, por exemplo", cita o autor. "Na história, as pessoas morriam e iam para um campo de golfe e ficavam vagando por ali de camisola ao som de Julio Iglesias e a audiência acreditava que a eternidade era daquela jeito e, pior, gostariam mesmo que fosse assim."Para evitar erros, os autores contam com consultores. Silvio de Abreu sofreu críticas na época de Belíssima, por causa das armações jurídicas de André (Marcello Antony) contra Júlia (Glória Pires). O autor se defende: "As críticas eram infundadas. Trabalho com um escritório de advocacia internacional que monitora os procedimentos jurídicos dos personagens, por isso nem levei em conta o que foi dito." LIMITES DA FICÇÃOPara Marcílio Moraes, o limite da licença ficcional é a "verossimilhança". Foi ele quem levou ao ar - antes de Duas Caras -, uma favela quase real em Vidas Opostas, na Record. "Mais importante que ser fiel à realidade é criar um mundo ficcional que pareça ser verdadeiro. O escritor cria um mundo ficcional que tem regras próprias. Se tudo que houver dentro deste mundo for coerente, o público aceitará como possível."A equipe do TV&Lazer concorda e, por isso, esta reportagem vai seguir o conselho de Carneiro ("Acho que você podia fazer uma matéria menos chata sobre a novela", disse ele) e não vai clamar por um jornalista como Zé Bob (Carmo Dalla Vecchia) - lindo, que escreve, fotografa, cobre política e também festas de bacana - na redação. O que não pode é dar informação errada. De todas as reclamações da Enege, a única que não tem desculpa é o erro em relação à formação das cavernas. Isso não pode!

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