Renato Rocha Miranda/Divulgação TV Globo
Renato Rocha Miranda/Divulgação TV Globo

Quando a vida é uma novela

Tem gente que, de fato, inspira personagens de TV

Alline Dauroiz e Patrícia Villalba, de O Estado de S. Paulo,

28 de novembro de 2009 | 16h00

Nos momentos de grande angústia ou extrema felicidade, não é raro que a gente se sinta uma verdadeira Helena de Manoel Carlos – em alguns casos, até mesmo uma heroína de novela mexicana. Todo mundo tem o direito de achar que sua vida daria uma novela, mas são poucos os que realmente inspiram a ficção. É o caso das fotógrafas paulistas Darcy Toledo e Jane Walter, cujo estúdio, Nude, especializado em ensaios fotográficos sensuais para mulheres anônimas, foi o ponto de partida para o autor de Viver a Vida compor a personagem Ingrid, interpretada por Natália do Vale.

“Colhi a informação numa reportagem de jornal, me interessei e pedi a uma das minhas pesquisadoras que levantasse o material existente”, detalha Manoel Carlos. “Ela foi assistir a uma das sessões da agência Nude, feita num motel carioca. Foi assim.”

Desde então, Darcy e Jane prestam consultoria à produção da novela nas cenas em que Ingrid aparece fotografando em seu estúdio, cheio de plumas e paetês. “Claro que na TV tudo é mais exagerado. Não usamos aqueles adereços todos nem trabalhamos só com mulheres maduras”, explica Darcy.

Conforme a reportagem do Estado pôde comprovar, após também acompanhar uma sessão de fotos em um motel na zona leste de São Paulo, os ensaios da TV e o recato das senhorinhas da trama estão longe da realidade. As mulheres que procuram Darcy e Jane querem algo que vá da lingerie ao nu. “Falamos que estava comportado demais, até que colocaram uma cena em que a cliente pede algo mais ousado para Ingrid. E apareceu com uma camisola de seda (na foto desta página)”, conta Jane.

A fama repentina resultou no aumento da clientela – para este ano, não há mais espaço na agenda das meninas. Para não perder a oportunidade, teve cliente que já reservou data em junho. O outro lado do sucesso é que a concorrência também aumentou. Inspirados na novela, estúdios por aí agora oferecem serviços semelhantes aos da Nude.

Desde que a trama estreou, a cadeirante Flávia Cintra, de 36 anos, já respondeu mil vezes que não, ela não é a Luciana de Viver a Vida. Jornalista que orienta empresas na contratação de pessoas com deficiência, ela foi procurada em maio pela equipe de Maneco, que a convidou para ser consultora da novela. Agora, viaja constantemente ao Rio, para ajudar Alinne Moraes a compor a personagem que acaba de ficar tetraplégica, como aconteceu com ela há 18 anos.

Flávia não deixa de se espantar com as semelhanças entre sua história e a de Luciana. Assim como a modelo da ficção, ela desfilava na adolescência. “Mas era só para ganhar as roupas”, minimiza. Ambas ficaram tetraplégicas muito jovens, após um acidente de carro, e tiveram lesão na coluna na região do pescoço. Luciana, assim como Flávia, vai recuperar o movimento dos braços.

Como Marcos (José Mayer), o pai de Flávia também havia se casado pela segunda vez na época do acidente. Flávia e a mãe, da mesma forma que Luciana e Teresa (Lilia Cabral), não aceitavam a união. Para completar, Flávia tem duas irmãs. “Elas já estão ficando bravas. As pessoas sempre perguntam: ‘Qual é a adotada e qual é a má?’”

A jornalista garante que não passa de coincidência. Até mesmo uma cena em que Luciana vai à cartomante que a alerta sobre o acidente. “Comigo aconteceu igual, mas não tinha como o Maneco saber. É que ele escreve de um jeito, que eu e milhares de mulheres nos reconhecemos.”

Manoel Carlos gosta de posicionar suas tramas no limite entre ficção e realidade. “Sou um escritor que tange a realidade. Não deixo de escrever ficção, só não deliro. Não abro a janela e saio voando. Só isso”, pondera.

Na busca pela veracidade, o autor desenvolveu a mania, inclusive, de usar os nomes de garçons e jornaleiros do Leblon, bairro onde vive, para batizar garçons e jornaleiros de suas novelas. “O público nem percebe, só eu e eles sabemos. Mas é uma maneira de imprimir verdade ao que estou escrevendo, para que eu mesmo acredite”, explica. “Quando comecei a escrever Viver a Vida, fui muito bem atendido por uma médica na Clínica São Vicente, chamada Ariane – uma mulher muito interessante. Disse a ela ‘vou pôr o nome Ariane numa médica da minha próxima novela. Mas é só o nome, não é você, está bem?”

Por essas e outras, Maneco costuma ser abordado por pessoas que juram que sua história resultaria num novelão daqueles. “Mas, em geral, quem se aproxima para dizer isso é porque a história é totalmente extraordinária, e não daria uma boa novela”, observa.

Walcyr Carrasco, autor da novela das 7, Caras & Bocas, conta que também ouve muitas vezes histórias de gente que se vê como personagem. E o melhor é que ele concorda. “Qualquer vida daria um romance, possivelmente uma novela, porque as pessoas vivem amores, sonhos, dificuldades, conquistas, e é do material humano que nasce a ficção.”

Mas não pense que um de nós, de repente, tem chance de se tornar personagem do autor, assim tão fácil. Para ele, as histórias que compõem as vidas por aí podem ser contadas de outras maneiras. “Toda vida tem algo de especial, algo de luminoso! E, que se não vira novela, é transmitido às pessoas que a cercam, através da emoção, da amizade e do companheirismo!”

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