Ramon Vasconcelos/Rede Globo
Ramon Vasconcelos/Rede Globo

Próxima novela das 9, 'A Lei do Amor' tem suspense e lances de cinema

A estreia está marcada para 3 de outubro, trazendo de volta o cenário paulistano à vaga agora ocupada por 'Velho Chico'

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2016 | 05h00

Parece romance, mas não é – ou não só. A próxima novela das 9 da Globo, A Lei do Amor, carrega no título o conceito do amor como lei máxima, mas o primeiro folhetim de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari para a faixa horária pode ser classificado como um enredo de suspense. A estreia está marcada para 3 de outubro, trazendo de volta o cenário paulistano à vaga agora ocupada por Velho Chico. “Na verdade, é uma história de mistério e de relações humanas”, explica a diretora artística da trama, Denise Saraceni, que conversou com o Estado no prédio do Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera, onde a equipe esteve gravando na primeira semana de agosto. A reportagem acompanhou em primeira mão a gravação da produção, em cena com o casal de mocinhos da trama, Reynaldo Gianecchini e Cláudia Abreu, do lado externo da Oca.

Gianne e Cacau, como são tratados no set e entre amigos, só vão aparecer na metade do quarto capítulo. Até lá, seus personagens, Pedro e Helô, serão vividos por Chay Suede e Isabelle Drummond, com semelhanças que prometem surpreender. A essa altura, a narrativa estará perto do gancho para o capítulo que encerra a primeira semana de novela. Na segunda-feira seguinte, como se fosse um recomeço da trama, irá ao ar o grande atentado sofrido por Fausto Leitão, personagem de Tarcísio Meira, que sairá vivo do episódio, ao contrário de sua amante, interpretada por Regina Duarte e pela filha Gabriela, nos quatro capítulos iniciais.

O público logo saberá quem é o autor do atentado e acompanhará todas as pistas como cúmplice, tendo claras as noções que faltarão aos demais personagens. Por isso, quando perguntada sobre filmes ou livros que possam servir como referências à novela, Denise fala em Hitchcock, antes de mais nada, e também do vencedor do Oscar deste ano. “Tem muito Hitchcock e, dos mais contemporâneos, a gente buscou uma fotografia que não diferenciasse a primeira da segunda fase. A fotografia segue igual. A paleta de cores é a mesma, o que a gente buscou no Spotlight, e a novela tem a ver um pouco com o filme.”

O jornalista será vivido por João Campos, ator brasiliense em lançamento na TV. “A Maria Adelaide é a rainha do gancho”, diz. Entre falar de suspense e afeto, o que a diretora enfatiza mesmo é que A Lei do Amor é uma novela que busca a simplicidade quase esquecida da vida. “É simples porque é essencial”, ela fala. “O barato da TV Globo é que cada um pode dar o seu olhar, a sua visão artística, a gente amadureceu muito na forma de contar histórias, a tecnologia trouxe possibilidades infindáveis e, para mim, neste momento falta o quê? Temos boas histórias, temos qualidade, temos visões geniais, mas acho que as pessoas estão um pouco carentes, carentes de afeto, de ternura, de emoção. A Lei do Amor traz possibilidade de a gente resgatar isso.”

A simplicidade traz “o frescor”, sustenta, e o texto também se apresenta em sua essência, dispensando que os atores sublinhem os diálogos. “Já está tudo ali, não há o que acentuar”, comenta Cacau. “Nesse momento, o Brasil mudou tanto, e as novelas mudaram tanto, e a tecnologia mudou tanto, mas o ser humano está meio perplexo”, continua Denise. “A gente tem a possibilidade de discutir o amor essencial, não só o amor romântico, o amor pelo outro, mas pelo ser diferente, as diferenças. As pessoas estão vivendo uma vida atropelada, em um país com poucas perspectivas, algumas frustrações.”

Como folhetim que se preze, Helô e Pedro são separados ainda jovens por armações arquitetadas por Magnólia, a madrasta do rapaz, vivida por uma Vera Holtz que promete mobilizar todas as atenções. O pai de Helô, Jorge (Daniel Ribeiro), é demitido da tecelagem onde trabalha, empresa de Fausto Leitão. Desesperado, tenta assaltar a fábrica, é preso e morre na cadeia, em um motim. A mãe, função que nos dará a chance de rever Denise Fraga em novela, em participação especial, tem uma doença em estado terminal. Sem perspectivas com Helô, Pedro parte para fora do Brasil e vai ganhar a vida como arquiteto de barcos, na França. Sai do País como Chay Suede e volta como Gianecchini. Encontrará Helô, uma galerista casada com um banqueiro, José Mayer, sujeito que alimenta o lado escuro da força. Quando Pedro e Helô se reencontram, o marido dela usará a leucemia da filha dos dois (papel que levou a atriz Isabela Santoni a raspar a cabeça) para fazer chantagem emocional e protelar a separação requerida por Helô.

Quanto a Fausto Leitão, o poderoso Tarcisão, o que temos é um sujeito que corrompeu e se deixou corromper, industrial ambicioso, que por duas vezes foi prefeito de São Dimas, cidade fictícia que pode ser tratada como um município do ABC, já que São Paulo é o cenário de referência da vez. No elenco, estão ainda Cláudia Raia, Thiago Lacerda, Camila Morgado, Grazi Massafera, Tuca Andrada, Ana Rosa, Humberto Carrão, Alice Wegman, Maria Flor, Emanuelle Araújo, Regiane Alves, Ricardo Tozzi, Heloísa Périssé, Pierre Baitelli e Otávio Augusto, que vive um senador. 

Diante dos zilhões de recursos oferecidos pela tecnologia, é preciso não cair em tentação para fazer uso da modernidade em detrimento do conteúdo, especialmente quando se busca a simplicidade. Denise reconhece que a oferta de possibilidades para ornamentar o acabamento da produção é quase irresistível, mas mantém a premissa do olhar humano, mesmo quando a tecnologia está na linha de frente, caso do atentado que quase mata Fausto, feito por profissionais vindos de fora, com largo auxílio da computação gráfica.

A Lei do Amor, convém notar, será a terceira novela das 9 consecutiva sem exibir aquela tradicional viagem ao exterior nos primeiros capítulos. O que antes era tratado como item essencial para seduzir o espectador perdeu relevância. “A gente não precisa viajar”, diz Denise, “pode trazer a viagem para cá, com a computação gráfica cada dia mais avançada, mas não podemos perder o ponto de vista humano”. “Quando vejo a decupagem, quero uma câmera que entre pelos atores, não quero pirotecnias, é a tecnologia sem prejudicar a história, sem prejudicar o humano, que é o que o público quer ver.”

Se a tecnologia vem de fora, o mesmo se dá com a matéria-prima humana. O argentino Eduardo Mielewicz fez a preparação dos atores, o que eles chamam de “desconstrução”, e o inglês Mark Coulier, design de maquiagem que assinou filmes da série Harry Potter e coleciona estatuetas do Oscar, cuidou da maquiagem de rejuvenescimento da primeira fase para os atores que estarão nas duas etapas. Denise também pediu que Cacau e Gianecchini acompanhassem as gravações de Isabelle e Chay em seus papéis, a fim de encontrarem o máximo de convergência no gestual e no modo de falar. E lembra que Isabelle foi filha de Cacau em Geração Brasil, novela das 7 de 2014, quando a afinidade entre as duas já era evidente.

“É um texto de atores, não tem grandes eventos, grandes paisagens, é o mais simples, é a interpretação.” A preparação, conta o ator e Cacau, era não se preparar, vir o mais cru possível para incorporar os personagens. “É o construir para depois desconstruir, é o simples, com frescor”, endossa a atriz.

“Uma coisa importante é estarmos fazendo personagens positivos, de uma inspiração muito bacana. Todo mundo fala que prefere os vilões. Por serem amorais, eles têm muito mais possibilidades que os heróis, e o grande desafio é mostrar que as pessoas podem também admirar caráter, com o mesmo interesse. Nesse momento, talvez eu não quisesse fazer a vilã, mas fazer com que as pessoas tenham interesse pelos personagens de caráter, pelos valores. A novela fala muito disso de uma maneira muito clássica: do fundamental, da família, do amor, da vida e dos valores que regem o ser humano. A gente não precisa ser ingênuo. Somos falíveis e somos normais.”

Giane também celebra seu bom moço, que, para Denise Saraceni, representa o “resgate do herói” e seus valores. “É um cara que resgata o prazer de ser bom, fala de amor, mas não é o amor romântico”. Carioca, Cacau avisa que vai enxugar um pouco o acento nato. O corte de cabelo, curto, também vem atender a uma alternância visual que foge das últimas peruas feitas por ela, além de ser um sinal não declarado de solidariedade à filha da ficção, que raspou a cabeça em razão do câncer. Assim, a narrativa tem lá seu viés hitchcockiano, mas é folhetim, é melodrama, novelão clássico.

Tudo o que sabemos sobre:
Televisão

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.