CLAYTON DE SOUZA/ESTADÃO
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Cristina Padiglione
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Próxima novela das 6 retoma tom caipira genuíno

Com um pé em Mazzaropi e outro em Monteiro Lobato, Walcyr Carrasco assina 'Êta Mundo Bom': estreia em janeiro

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2015 | 03h00

Encontramos Jorge Fernando no Palácio dos Cedros, no coração do Ipiranga, zona sul de São Paulo, pouco antes de ele iniciar mais uma etapa de gravações para Êta Mundo Bom, novela de Walcyr Carrasco que traz de volta ao horário das 18h o tom genuíno caipira que o autor tão bem retratou em O Cravo e a Rosa e Chocolate com Pimenta – também dirigida por Jorginho. Enquanto Bianca Bin se preparava para entrar em cena, o diretor conversou com o Estado sobre a concepção do enredo, contextualizado no Brasil do pós-guerra dos anos 1940. A trama substituirá Além do Tempo, na Globo, em janeiro.
“O bom de fazer novela de época é que a gente brinca com a moral”, diz o diretor. “O que hoje em dia é corriqueiro, para os anos 1940, fica como um tapa na cara, vale até um final de capítulo. Uma menina grávida, sem estar casada, é um escândalo! As pequenas tramas de que viviam a telenovela, os segredos, a carta – hoje você não pode guardar um e-mail... Em tudo a gente brinca com outra moral.” Aí está o interesse do público, acredita, por esse universo. “Acho que é isso que o público que vê a novela das 6 gostaria que o mundo tivesse: O ‘por favor’, o ‘dá licença’, o ‘obrigado’, ‘ô xente’. Era mais simples o cotidiano. A coisa da natureza, do campo, é um outro ritmo. Isso desperta nas pessoas esse saudosismo ou uma vontade de que o mundo fosse mais puro.”
Candinho, personagem que Mazzaropi foi buscar em Voltaire e que Walcyr repagina agora, será vivido por Sérgio Guizé. Quando ele nasceu, a mãe (Eliane Giardini) teve de abandoná-lo em um cesto que seguiu à mercê da correnteza do rio. Foi parar na fazenda de Elizabeth Savalla e Ary Fontoura, casal que até então não havia conseguido ter filhos, mas que depois tem dois gêmeos e põe o rapaz ficou em segundo plano.
O próprio Walcyr nos fala sobre a história, em entrevista por e-mail. “Na verdade, o Abílio Pereira de Almeida escreveu o roteiro de Candinho, filme de grande sucesso de Mazzaropi, baseado em Voltaire”, relata o autor. “É a grande discussão que sustenta a todos nós, todo o tempo: o mundo é bom? Há motivos para ser otimista? Então, por que acontecem coisas ruins? Aliei a história a O Comprador de Fazendas, de Monteiro Lobato, pois é um conto maravilhoso, que me acompanha desde a infância. Esses alicerces me ajudaram a criar uma história engraçada, divertida, mas também profunda, pois coloca em debate uma grande discussão humana. Vale a pena, enfim, ser otimista, acreditar que um dia tudo vai melhorar?”
O autor, que até dois meses atrás ainda estava mergulhado em um universo totalmente adverso, em Verdades Secretas, mal teve pausa entre um trabalho e outro. “Eu já havia feito a sinopse de Candinho desde o ano passado, fiz muitos trabalhos para o horário das 18h, com o Jorginho, e queria voltar para essa coisa tão boa, agradável, que é revisitar esse universo.”
No set, Jorginho endossa que a máxima da novela é o otimismo, a esperança. É Candinho quem diz: “Tudo que acontece de ruim na vida da gente é pra meiorá!”. “Tenho a meta de Chocolate com Pimenta”, diz o diretor. “Não tem nada da história, mas eu queria que tivesse o frescor, a alegria, a esperança.”
Êta Mundo Bom conta com um elemento quase surpresa para o público: a volta de Marco Nanini às novelas, gênero que ele não frequenta há 16 anos, desde Andando Nas Nuvens, considerando que ele esteve na TV pelos últimos 14 anos, no único e aclamado papel de Lineu, em A Grande Família. “O eixo da novela é o Pancrácio, que é o Nanini”, explica Jorginho. “Só de ter o Nanini em cena, isso me motiva a ser brilhante, a ser criativo, estou muito feliz”, sustenta. Professor de Filosofia desempregado, Pancrácio vive de pequenos truques do dia a dia. Chega a pedir dinheiro para boas causas, só que em benefício do próprio bolso.
Nem por isso ele é do mal. Ao contrário. Mentor de Candinho, Pancrácio ocupa a cena com mensagem nobre, como argumenta Walcyr. “Ele não tem alternativa, porque não tem como sobreviver”, conta o autor. “Na verdade, é uma crítica ao modo de ser não só do brasileiro, mas da atualidade em geral, para quem refletir sobre as grandes questões da vida e do universo não tem tanta importância. As pessoas preferem coisas mais objetivas e técnicas. O personagem do Nanini procura aquilo que é maior no ser humano.”
O ritmo em cena não nega a assinatura de Jorge Fernando, que está mais calmo, menos tenso – “nada vai se alterar se a gente não alterar a gente mesmo, a nossa agonia, a nossa ansiedade, a nossa ambição, o nosso egoísmo, a gente está muito viciado no nhenhenhém do cotidiano”, diz. “Geralmente, eu sou o Jorge e o Fernando, duas peças de antiguidade da Globo, mas, até eu continuar fazendo, vou fazer do meu jeito. Tem novas normas (na Globo), as coisas estão mais organizadas, mas também inflou muito as pessoas. Tento acompanhar a música que toca, mas não vou saber fazer sem ser do meu jeito. Crio na hora, gosto de marca, gosto de ‘senta levanta’, não consigo ver cena sentada o tempo todo, sem ter uma surpresa, gosto de brincar com trilhas sonoras, tento fazer os capítulos chamativos para o público não ignorar.”

Radionovela da trama terá extensão na web
E ação comercial mira criação de sabonete com grife de cosméticos
Como manda o ritmo daqueles dias que antecederam a década de 1950, o Brasil tinha tempo e não tinha televisão. Sobrava espaço para ouvir radionovela, produção que envolverá dois personagens de Êta Mundo Bom, que só serão vistos pelo GShow, o portal de entretenimento da Globo, e também ouvidos pela Rádio Globo. A iniciativa de estender a outras plataformas os produtos da TV, com conteúdo diferente em cada uma, tem sido praxe em todas as produções da Globo. “A radionovela vai unir os veículos”, conta Jorge Fernando. “Dessa radionovela, só dois personagens migram para a trama: a atriz principal, que faz a mocinha, Neusa Maria Faro, que tem aquela voz e mostra como a voz engana a aparência, e o Cláudio Tovar, que faz a sonoplastia. Na novela, eles são apenas ouvidos. Na internet, vai haver o vídeo com eles gravando a radionovela e a Rádio Globo vai passar capítulos de dois minutos por dia. Na internet, serão três capítulos semanais de três minutos.”
Se os anos 40 facilitam o desenvolvimento de várias situações, graças à inexistência de adventos como o celular e a internet, a novela de época sempre padece mais para encontrar anunciantes que já existiam naqueles tempos, dispostos a pagar por merchandisings. Mas Êta Mundo Bom estuda um meio de inverter esse jogo, quem sabe lançando um sabonete com nome próprio e parceria de uma grife conhecida no ramo cosmético brasileiro. O produto é baseado no núcleo de Eliane Giardini, dona de uma fábrica de sabonetes, que pode até vir a patrocinar a radionovela.
Autor que já escreveu para todos os horários e trafega bem na audiência das 18h, 19h, 21h e 23h, Walcyr Carrasco diz que não condiciona suas histórias ao comportamento de cada faixa horária: elas já nascem com essa concepção. “Sempre que começo uma história, ela já vem com a cara pronta para o horário, assim quando vou escrever um livro, sei se é infantil ou juvenil. Pra mim, Êta Mundo Bom é tão importante quanto Verdades Secretas, amo e respeito cada trabalho que realizo, assim como o público de cada horário.”
E como Êta Mundo Bom teve seus atores escalados durante Verdades Secretas, boa parte do elenco daquela novela está também nesta, a começar por Camila Queiroz, a Angel. A lista se estende a Rainer Cadete (o Visky), Flávio Tolezani (o Roy, par de Grazi Massafera na Cracolândia), além de Ana Lúcia Torre, Tarcísio Filho e Guilhermina Guinle. 

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