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Protagonistas de 'The Night Of' enfrentam seus próprios dramas na nova minissérie

John Turturro e Riz Ahmed estrelam a série da HBO que estreia neste domingo, 10

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2016 | 07h00

LONDRES - Calça, camisa e sapatos da cor preta bem cortados. O cabelo, crespo, bem aparado. A única anormalidade é o apito em forma de galinha segurado pela mão direita, a mesma que ostenta um daqueles grandes relógios analógicos de pulso. “Nem eu sei explicar o que estou fazendo com esse apito”, diz John Turturro ao sentar em uma mesa rodeado por jornalistas de diferentes partes do mundo – da China à Rússia, passando por Brasil, México e Estados Unidos. O último entrevistado do dia tipicamente londrino, cinza, frio e chuvoso, é também o mais animado e eloquente. 

Nascido no Brooklyn, o ator de 59 anos é a figura que atrai todos os olhares no episódio de estreia da nova minissérie da HBO, The Night Of, cuja estreia é neste domingo, 10, às 22h, assim como magnetiza o quarto transformado em sala entrevistas de um hotel chique às margens do Tâmisa. 

É na pele do advogado chave de cadeia Jack Stone que Turturro entrega um dos papéis que mais o comoveram na carreira. Encarna o personagem, afinal, que outrora havia sido de James Gandolfini. O ator, morto por um enfarte fulminante durante as férias com a família em Roma, aos 51, era o grande entusiasta do projeto. Graças ao bom contato com a HBO, garantido durante os anos interpretando Tony Soprano em Família Soprano, seriado tido como pontapé inicial para a atual era dourada da televisão, ele abordou a emissora com a ideia de redesenhar a série Criminal Justice, da britânica BBC, em uma linguagem contemporânea.

O piloto foi gravado em Nova York, onde se passa a história do jovem Naz, interpretado por Riz Ahmed, há quatro anos. O primeiro episódio de nove da minissérie que narra a trajetória do rapaz, preso ao ser acusado de um crime que ele alega não lembrar ter cometido, trazia uma pequena cena de um barbudo Gandolfini. Após a morte do ator, Robert De Niro foi chamado para interpretar Stone. Conflitos na agenda do Touro Indomável e dos produtores de The Night Of nunca se acertaram e ele também saiu de cena. 

Turturro, pela ligação próxima com Gandolfini e a ascendência italiana que o papel parecia exigir, foi o próximo nome da lista. E, quando recebeu o chamado, negou. Era próximo demais de Gandolfini para aceitar vestir seu personagem. Eram amigos de tempos anteriores à Família Soprano, quando o intérprete de Tony contracenou com Aida Turturro, prima de John. “Eu fui ao funeral do pai dele. Ele foi ao funeral da minha mãe. Tínhamos esse tipo de ligação”, conta Turturro, que chegou a dirigir Gandolfini no filme Romance e Cigarros, de 2006. “Fiquei devastado quando ele morreu.” 

Ao ler o roteiro, Turturro diz ter sentido emoções antagônicas. O respeito pelo projeto do amigo contrastou com a falta que sentia dele. “Então, fui assistir ao piloto que haviam gravado há quatro anos. E ele quase não estava ali. Jimmy (apelido de James) participava de uma cena, com aquela barba enorme. Percebi que o personagem ainda não era dele, ele ainda estava entrando naquele papel. Não era como se fosse Hamlet, no qual não há outra forma de fazer o personagem”, conta. “Fui conversar com o antigo empresário de Jimmy e com a viúva dele. E eles me disseram que gostariam que eu interpretasse o personagem.” 

Gandolfini funcionou como um amuleto. “Era como se tivesse um pé de coelho dentro do bolso do paletó”, ele explica antes da despedida e de deixar o quarto. Turturro, menos de um minuto depois, estava de volta. “Esqueci isso aqui”, diz, ao recuperar o apito em formato de galinha deixado em cima da mesa. “Vou acordar os jornalistas na próxima sala com ele.” 

'A jornada de Naz é destrutiva, mas, ao mesmo tempo, libertadora', diz Riz Ahmed

A herança paquistanesa une o ator Riz Ahmed e seu personagem, Naz, à figura central de The Night Of, da HBO. O ator britânico, diferentemente do norte-americano Naz, fala sobre as dificuldades encontradas pelos filhos de imigrantes, tal qual seu personagem. 

O que aprendeu com Naz? 

Ele passa por uma situação psicológica forte, é o fim da inocência. E ganha-se a noção da própria insignificância. As coisas simplesmente acontecem com você. Não há o que fazer. A jornada é destrutiva e, ao mesmo tempo, libertadora. 

Ao mesmo tempo, vocês dividem essa herança paquistanesa. O que levou para a série? 

Sim, exatamente. Ele é um paquistanês em Nova York. É fã de basquete, gosta de ir às festas, mas também é criado de uma forma tradicional. Não bebe álcool, não usa drogas. Ele tem essa vida dupla que muitos jovens da segunda geração de imigrantes têm e precisam responder às questões de quão muçulmano e quão americano você é. 

E encontrou a sua resposta? 

Eu percebi que a questão é horrível e sem importância. 

* O repórter viajou a convite da emissora. 

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