TV Cultura
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Programação para crianças quase desaparece da TV aberta

A TV Cultura continua como opção para o público infantil, com novos produtos sendo planejados

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2022 | 15h25

Havia um tempo em que as emissoras de tevê abertas separavam um horário, às vezes até mais, para exibir atrações dirigidas ao público infantil. A criançada de idades variadas podia assistir desenhos, filmes, se divertir com brincadeiras interativas, aprender a desenhar, ver números de circo, tudo estava ali, na TV aberta. Agora, com a velocidade da internet e a oferta massiva de produtos nas tevês por assinatura, pouco sobrou para os pequenos, seja por questão comercial, de leis do mercado ou falta de interesse mesmo dos donos das emissoras. A salvadora da pátria nesse quesito é a TV Cultura, que se mantém firme em mirar a infância e ainda destinar boa parte de sua programação para entreter e divertir esse público. Estão lá desenhos como Peppa PigBoris e Rufus Diário de Mika e o programa Quintal da Cultura.  

Com o encerramento de atrações infantis, como foi o caso do Bom Dia & Cia, do SBT, o que se percebe na TV aberta é uma falta de preocupação em atrair esse público. E isso se vê, principalmente, quando se fala em produzir conteúdos de qualidade, que sirvam de base para as diversas faixas etárias, e que divirtam não apenas os pequenos, mas a família. Para Enéas Carlos Pereira, diretor de Programação da TV Cultura, o que está ocorrendo não é uma diminuição de produtos, pois, para ele, tem muita coisa sendo produzida e de qualidade. “O que há é menos espaço na TV aberta para a exibição desses conteúdos, falta de espaço esse ligado totalmente aos interesses das emissoras comerciais”, reflete.

Ligada à Fundação Padre Anchieta, a TV Cultura, por ser uma emissora educativa, tem foco em produções que sempre conquistaram o público de casa. Mas para apostar em algum formato, uma avaliação se faz necessária. Segundo Enéas, a emissora paulista conta com sua Diretoria de Programação e Produção, seu departamento de Aquisição e os responsáveis pela TV Rá Tim Bum para avaliarem “os conteúdos infantis propostos à nossa emissora, bem como definem aqueles que virão a ser produzidos ou adquiridos para exibição em seus canais e redes sociais”. O diretor afirma, inclusive, que “a importância de se produzir conteúdos para esse público é que - assim como a escola - eles serão fundamentais na formação do adulto do futuro”. Com essa visão, afirma que a questão é que “trabalhando a educação e o imaginário da criança, preparamos adultos capazes de pensar uma nação”.

Novos projetos

Enéas revela que, para os próximos três anos dessa gestão, um dos pontos importantes a ser trabalhado é a retomada da produção de conteúdos voltados para a infância e juventude. “Nesse sentido, a ideia é retomar tanto a produção em live-action como também as animações, essas produzidas em parceria com grandes players do audiovisual”, afirma.

Castelo Rá-Tim-Bum

Uma das joias da TV Cultura, o Castelo Rá-Tim-Bum é sempre lembrado como uma das atrações de maior sucesso e que faz o público viajar na nostalgia. Tanto é que, há algum tempo, foi divulgado que o seriado ganharia um canal no YouTube para ser reprisado, o que causou grande movimentação de fãs nas redes sociais. “As ideias em relação ao Castelo Rá-Tim-Bum sempre são muitas e, normalmente, ótimas”, afirma Enéda. E, para alegria dos fãs de várias gerações, ele revela que ainda há o interesse em “disponibilizá-lo sim, aliás, não só o Castelo, mas muitos outros de nossos conteúdos infantis no YouTube”. O que não ocorreu até o momento por questões de direitos, pois, para isso se concretizar, “é necessário um trabalho junto aos contratos de todos os profissionais envolvidos, uma vez que - quando celebrados, no passado - muitos desses contratos não previam a veiculação em mídias digitais, até porque elas ainda eram incipientes”.

Algumas produções de sucesso

Quem é das antigas certamente irá lembrar do período em que as emissoras existentes tinham programas direcionados especificamente para esse exigente público. Nos primórdios da televisão brasileira, a então TV Paulista exibia o infantil Zás Trás, isso nos anos 1950. Tratava-se de um programa de auditório, com crianças participando de gincanas, além da exibição de desenhos animados. Era apresentado pela atriz Márcia Cardeal, que tinha ao seu lado Aristides Molina. Mais adiante, lá nos anos 1960, por exemplo, a criançada da época se divertia com o Capitão Furação, que mostrava as aventuras de um velho marujo, interpretado pelo ator Pietro Mario, que contava com a ajuda de uma trupe liderada pela então jovem atriz Elizângela.

Pulando para a década seguinte, nos anos 1970, a diversão que prendia a atenção da criançada era a TV Globinho. Ele começou como um telejornal, com dicas culturais, e ganhou outro formato com a chegada da jornalista Paula Saldanha. Entre outras curiosidades, costumava exibir desenhos como BarbaPapa. Comandado pelo desenhista Daniel Azulay, a Turma do Lambe Lambe também teve espaço nos anos 1970, pela Bandeirantes. Nele, o apresentador usava sua habilidade com o lápis e ensinava seu público como desenhar, fazer dobraduras e brinquedos. Entrou em cena, então, nos anos 1980, Xuxa Meneghel. Foi em 1983 que ela surgiu como apresentadora do programa Clube da Criança, na Rede Manchete. A atração incluía brincadeiras com a criançada presente no palco e exibição de desenhos, além de convidados. Alguns anos depois, a rainha dos baixinhos partia para a Globo com seu  Xou da Xuxa.

Uma das atrações de sucesso da TV Cultura, o X-Tudo surgiu em 1992. O programa educativo era comandado pelo ator Gerson de Abreu e marcou gerações com suas dicas e curiosidades. Marcelo Mansfield era o responsável por mostrar curiosidades da ciência, já Sherazade, vivida pela atriz Raquel Barcha, dava sugestões de leitura. Criado por Cao Hamburger e exibido pelo SBT nos anos 1990, o Disney Cruj ganhou a garotada com a inusitada trama que reunia três crianças muito espertas, que conseguiam invadir um programa de TV e assumir o comando. Uma de suas reivindicações era de ser chamados de ultrajovens e não crianças. Além da parte dramatúrgica, o público se divertia com a exibição de desenhos, como Doug, Marsupilami e 101 Dálmatas.

 

 

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