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Primeiro capítulo de ‘Justiça’ não foi sensacional, mas foi sólido

Série acompanha quatro histórias de pessoas que foram presas e passaram 7 anos na cadeia

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2016 | 16h46

Em sucessivas entrevistas, a autora Manuela Dias e o diretor artístico José Luiz Villamarim, de Justiça, deixaram claro que a minissérie que começou segunda-feira, 22, na Globo, não é sobre o funcionamento da Justiça mas sobre a forma como repercute nas pessoas. A dimensão pessoal das leis - o público e o íntimo. O que é justo e o que não é. O máximo que foi visto do funcionamento da Justiça, no capítulo inicial, foi o personagem de Jesuíta Barbosa, algemado como Adriana Esteves, esperando a vez em uma delegacia, e depois saindo da cadeia. Justiça acompanha quatro histórias de pessoas que foram presas e passaram 7 anos na cadeia. As histórias não necessariamente se cruzam, mas se tocam.

Adriana é doméstica na casa de Débora Bloch, que não deixa sair do trabalho para ir pegar os filhos na escola. Cauã Reymond aparece rapidamente na casa de Luiz Carlos Vasconcelos, pai do noivo da filha de Débora. E quando Débora sai do bar com o garoto - dizendo que ele é muito novo para terem um caso -, há um atropelamento, o da mulher de Cauã, que ficará tetraplégica, e o atropelador foge. As coisas ocorrem como na vida, e o texto de Manuela (e seus colaboradores), a direção de Villamarim (e seus codiretores) estão mais preocupadas com o que está ocorrendo com as pessoas. Justiça, a minissérie, vai na contramão do grande espetáculo em que se transformou a Justiça, de fato no País. Na sociedade da imagem - o mundo atual - o poder não apenas tem de ser exercido como ‘representado’.

Teóricos têm dado conta dessa característica da modernidade. E, no Brasil da Lava-Jato e do impeachment, tem sido possível acompanhar prisões espetaculares, vazamentos bombásticos de informações processuais, e até julgamentos. Na entrevista que deu ao Estado, Manuela admitiu que estava ansiosa. O espectador que acompanha todo dia a (grande) Justiça, reagiria como à dimensão pessoal das leis? Pelo menos nesse primeiro dia, Manuela e Villamarim puderam comemorar. Segundo a assessoria da Globo, em São Paulo, a média foi de 30 (audiência) e 46% (participação), um aumento de 7 pontos (ou mais 30% de audiência) em comparação à média da faixa, nas segundas de junho e julho. No Rio, pós-Olimpíada, o índice foi ainda maior: 32 (audiência) e 51% (participação), 6 pontos a mais (ou 23%) acima da faixa anterior.

Só para efeito de comparação, vale destacar que Velho Chico também teve números altamente expressivos, em São Paulo. Havia expectativa pelas revelações envolvendo o personagem Santo, de Domingos Montagner. A novela registrou 35 pontos (audiência) e 47% (de participação), preparando o patamar que prosseguiu com a minissérie. O importante desses números é que eles vão na contracorrente de uma tendência verificada nos cinemas. A média de frequência dos filmes brasileiros anda baixa. Dramas, nem sonhar. O público que lota as salas de shopping quer comédia, efeitos. E, neste sentido, pode-se refletir que Justiça talvez esteja despontando como o filme brasileiro mais político da atualidade.

OK, o leitor pode argumentar que é televisão, gravada em digital, não filme, mas Cauã Reymond, entrevistado pelo Estado, disse que a captação, o cuidado, o ritmo, tudo está sendo de cinema. E o alcance é esse. O curioso é que a novela, Velho Chico, imediatamente antes, já discute e expõe tensões sociais. Saindo do Jornal Nacional, o telespectador está tomando um choque de realidade, e não está fugindo. O primeiro capítulo não foi sensacional nem era a proposta. Foi sólido. Débora Bloch foi convincente como a mãe que amarga a morte da filha, baleada pelo noivo. Houve uma discussão interessante dela com o namorado. Ela diz que quer Justiça, ele retruca que é vingança. A terça prosseguiu com a história da doméstica, Adriana (Esteves) e, após a pausa da quarta-feira, na quinta haverá a história da garota acusada de envolvimento com o tráfico e, na sexta, a de Cauã (Reymond), que vai ser preso por eutanásia. Pelo que mostrou na segunda-feira, Justiça promete.

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