Elizabeth Weinberg/The New York Times
Elizabeth Weinberg/The New York Times

Por que as 'Gilmore Girls' perduram?

Poucos previram em 2000 que 'Gilmore Girls' seria um programa tão duradouro. Não foi um sucesso espetacular durante os 7 anos no ar. Mas com o boca a boca, as vendas de DVD, a nostalgia dos millennials e o poder da Netflix, ele perseverou

Saul Austerlitz, The New York Times

27 de novembro de 2020 | 11h00

Há muito tempo, numa época e lugar distantes, quando as pessoas podiam se divertir livremente na companhia de estranhos, digamos dezembro de 2018, uma enorme multidão estava reunida no espaço da Warner Bros em Burbank, na Califórnia. Lá estavam duelando Team Jess e Team Dean e, enquanto os guias do tour faziam seu habitual discurso sobre Harry Potter e Batman, as pessoas que faziam parte de um tour pelo estúdio nesse dia na verdade estavam lá por uma razão: visitar Stars Hollow.



O estúdio havia recriado por um tempo curto a cidadezinha de Connecticut da série de TV Gilmore Girls, transmitida de 2000 a 2007, e filas se formavam em frente ao Luke’s Diner e ao coreto para serem fotografadas pelos funcionários da Warner. Era uma simulação e um falso pretexto, completados com bibelôs com o tema de Gilmore Girls à venda, mas também era uma lembrança tangível de quão apaixonadas as pessoas ainda estavam por esse programa agradável, cordial e espirituoso sobre família e comunidade.

Outubro marcou o 20º aniversário da estreia de Gilmore Girls e, esta semana, o revival de 2016 Gilmore Girs: Um ano para Recordar será levado ao ar como uma minissérie especial na The CW, rede onde tudo começou, quando o canal ainda era conhecido como WB. (Um ano para Recordar foi lançado na Netflix). A estreia tardia da série foi uma tentativa da CW para preencher o buraco provocado pela covid-19 na sua programação, mas também uma prova da atração persistente que é a série.

Gilmore Girls foi lançado em cinco de outubro de 2000 e o mês passado trouxe mais evidências de que é um momento amado do início dos anos 2000. Algumas das estrelas do show, incluindo Keiko Agena e Yanic Truesdale, apareceram no programa Good Morning America para comemorar o vigésimo aniversário do programa. A criadora de Gilmore Girls, Amy Sherman-Palladino, e seu marido, o roteirista e produtor executivo Daniel Palladino, publicaram um comunicado prestando homenagem a “um elenco que mudou nossas vidas”. A estrela da série, Lauren Graham, também homenageou os fãs no Twitter. “Seu carinho e devoção a este programa trouxe-me tanta alegria durante todos esses anos”.

Amy Sherman-Palladino, cujo talento para criar diálogos engenhosos e emoções sutis cuidadosamente elaboradas, ingredientes-chave que tornaram essa série tão atraente, disse que devido à pandemia ela havia esquecido do aniversário até que alguém a lembrou no início deste ano.

“Comemorar aniversários no momento está em segundo plano”, disse ela. “Você está apenas tentando evitar que as pessoas tussam e espirrem na sua direção“.

Mas ela fica feliz em conversar sobre as origens do show que ainda é sua mais famosa criação, mesmo numa carreira que inclui séries como Bunheads e The Marvelous Mrs. Maisel, sucesso da Amazon premiada várias vezes com o Emmy. “Quando você faz alguma coisa que as pessoas ficam interessadas por mais de uma semana, é um grande prazer”, disse ela.

 


Poucas pessoas previram em 2000 que Gilmore Girls seria um programa tão duradouro. Não foi um sucesso espetacular repentino durante os sete anos no ar. Nunca alcançou uma audiência maciça, jamais foi indicado a um Emmy importante, nunca foi considerado um programa imprescindível que tinha de ser visto, como algumas séries que chegaram no mesmo período. Mas com o boca a boca, as vendas de DVD, a nostalgia dos millennials e o poder da Netflix, que deu sinal verde em 2016 para sua retomada depois de comprar os direitos da série, novos fãs, alguns que nem haviam nascido quando o programa estreou pela primeira vez, descobriram Lorelai e Rory.

“Não passa um dia sem que meninas de 14, 15, 16 anos me digam que estão assistindo à série agora”, disse Truesdale, que interpretou Michael, o amargo colega de trabalho de Lorelai.

Nos anos 1990, Amy Sherman-Palladino era roteirista da série de sucesso da ABC Roseanne - antes de a criadora Roseanne Barr “começar com teorias de conspiração”, ela observou. Mas, no fim, ela percebeu que não queria mais trabalhar em comédias de 30 minutos. Seu marido, Daniel Palladino, que na época fazia parte da equipe de roteiristas de Family Guy, convenceu-a a fazer uma pausa e escrever alguma coisa original.

A ideia do programa era contar a história de uma adolescente que adorava livros cuja melhor amiga era sua mãe, de cerca de 30 anos de idade. O pano de fundo seria uma cidade idílica de Connecticut repleta de pessoas excêntricas e o tom seria uma mistura de comédia e drama, tudo num ritmo mirabolante.

“Os fãs com os quais converso no geral se inserem em duas categorias: ou têm uma relação tipo Lorelai e Rory, ou desejam desesperadamente ter uma relação como a de Lorelai e Rory”, disse Sheila Lawrence.

Depois de a série ser adquirida pela Warner Bros, Sherman-Palladino insistiu que o programa só teria continuidade depois de ela encontrar os intérpretes ideais para cada papel, independente da sua experiência anterior ou fama. Ela escolheu Lauren Graham para o papel de Lorelai entre várias atrizes conhecidas, por causa da sua perspicácia literária.

“Ela foi a primeira atriz que pronunciou corretamente o nome Kerouac”, disse Amy Sherman-Palladino ao seu marido depois de entrevistá-la.

Embora a série tivesse uma estética visual estilosa como outras da WB da época, como Dawson’s Creek e One Tree Hill, o roteiro era distinto. Os roteiros eram “muito sofisticados e brilhantes e estávamos nessa nova rede cujos programas eram dedicados aos adolescentes que seguiam religiosamente tudo o que estivesse em moda”, disse Jamie Babbit, que dirigiu 18 episódios de Gilmore Girls.

A série no início era algo que assustava os artistas, que tinham de memorizar os roteiros com 20 páginas a mais do que nas séries normais de uma hora de duração. E, para tornar as coisas mais difíceis, Amy insistia que os intérpretes dissessem suas frases exatamente como estavam escritas. “Era uma série em que, se você mudava uma palavra, eles cortavam”, disse Truesdale.



Os atores também tiveram de se adaptar à ideia de Amy de que os personagens de TV em 2000 deveriam se parecer com Cary Grant e Rosalind Russel.

“O feedback era este: pode repetir a cena, mas um pouco mais rápido?”, disse Agena, que interpretou Lane, a melhor amiga de Rory.

Segundo Babbit, os diálogos eram muito rápidos para permitir a edição tradicional. “Era como assistir a um jogo de pingue-pongue”, disse ela. "Juntar dois personagens no quadro e deixar que eles falassem, com cenas que continham cinco ou 10 páginas do roteiro, em vez de uma página e mais um quarto, como é habitual”.

Scott Patterson, que interpreta Luke, disse que Graham percebeu que eles tinham de deixar o cigarro se quisessem sobreviver. “Ela precisava de ar e eu também”, disse ele.

Além do volume e o ritmo dos diálogos, estudar o roteiro também implicava uma luta para os intérpretes. Patterson lembra que, num dia de gravação que começava com “uma cena de 10 páginas”, o texto foi entregue pelos roteiristas às 6h30. “Lauren e eu estávamos sentados na sala de maquiagem, olhamos um para o outro aterrorizados, e começamos a trabalhar”.

Alexis Bledel, uma modelo e aluna de faculdade com pouca experiência em TV, precisava de mais ajuda do que os outros, não sabia nem para qual câmera devia olhar. “Lembro-me de dizer num certo ponto para Lauren, “adoro quando estou assistindo ao programa, como você está sempre a tocando”, disse Kelly Bishop, que interpretou Emily Gilmore. “Ela me respondeu ‘na verdade, a razão disto é porque queria que ela obedecesse à marcação'”.

Talvez em parte porque estivesse numa WB incipiente, e competia com séries gigantes como Friends e American Idol, e também por causa da sua reputação como uma série de garotas numa era que celebrava anti-heróis masculinos de meia idade como Tony Soprano, Gilmore Girls nunca recebeu muita atenção nas premiações. A série teve uma indicação para o Emmy e um prêmio pelo melhor make-up.

O elenco e a equipe ficaram especialmente decepcionados com o fato de Graham nunca ter sido indicada para o Emmy, que achavam que ela merecia. “Não conheço ninguém que conseguiu fazer o que ela fez. E odeio o fato de não ter sido reconhecida por isto”.

Alguns veteranos de Gilmore Girls culpam o sexismo pelo fato de ser considerada uma série de segunda classe. Programas sobre os triunfos e dores de cabeça comuns de mulheres até recentemente eram tratados como de interesse inerentemente limitado.

“O setor é de fato conservador e não entende como são as grandes coisas, especialmente quando escritas e criadas por mulheres e sobre mulheres”, disse Babbit.

Gilmore Girls completa 20 anos enquanto estamos refugiados em nossas casas, separados e nervosos, aguardando boas notícias e o eventual retorno da comunidade. Para muitos fãs, Stars Hollow sempre foi seu lugar feliz e no momento é mais ainda.

“Estou na Califórnia neste momento, você não pode respirar, não pode sair de casa, se encontrar com outras pessoas e a eleição está se aproximando”, disse Stephens em outubro. “O mundo pode ser um lugar terrível, mas pode ir a Stars Hollow, onde o mundo ainda é aquele lugar adorável, maravilhoso”.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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