Pode ou não pode?

Entre o riso e a ofensa, boa dose do humor praticado há 20 anos foi vencida pelo policiamento de idéias

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2008 | 22h52

Um zilhão de bizarrices passeiam pelo espaço destinado a candidatos a vereadores no horário eleitoral gratuito, mas Tinoco, o Homem Toco, mal teve chance de apresentar sua plataforma. Sem braços e pernas, ele anunciava: "você me conhece, eu sou o Tinoco, o Homem Toco. Vote em mim que eu não vou meter a mão. E se eu roubar, não vou conseguir fugir." Bastou uma apresentação e Tinoco foi banido do Otário Eleitoral Gratuito, chacota do humorístico Casseta & Planeta (TV Globo), para a versão real do programa. Membros da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio de Janeiro consideraram o personagem "profundamente preconceituoso".Num mundo sustentado por tantos mandamentos em torno de racismo, discriminação, sustentabilidade, minorias, religião, homossexualismo, violência doméstica, machismo, regras corporativas e brechas legislativas prontas para suscitar ações jurídicos de toda espécie, rir é um perigo. "Democracia é maneiro. Precisamos dela pra viver, coisa e tal... Mas será que tem muito mal-humorado no mundo ou a categoria é minoritária mas é mobilizada?", questiona o casseta Cláudio Manoel sobre o caso do Homem Toco. "A piada não humilha, a piada é engraçada. Não diz que o cara é corrupto, muito pelo contrário... mas, deixa pra lá. Explicar piada é muito chato. Deixemos isso para os advogados."Advogados e militâncias eram classes bem menos mobilizadoras até o século que acabou ainda outro dia. Quem cresceu já sob as rédeas do mundo politicamente correto, onde códigos de barras anunciam quem pode entrar e quando, hoje se espanta com a ousadia de um CQC, o Custe o Que Custar, na Bandeirantes, ou com as estripulias do Pânico, na RedeTV!. A essa geração, ou mesmo a quem já se habituou às amarras da nova era e esqueceu o passado, um aviso: vá ao YouTube e visite cenas de Ernesto Varela, o repórter vivido pelo mesmo Marcelo Tas que hoje ancora o CQC, e choque-se com o TV Pirata, também disponível em DVD (Globo Marcas, R$ 28).Afinal, "éramos totalmente irresponsáveis ou hoje estamos muito caretas?", questiona Tas. "Estamos muito caretas", crava o diretor do CQC, Diego Barredo. "Éramos irresponsáveis", discorda Cláudio. "A gente era mais irresponsável, mas também era governado pelo Collor, pelo Sarney, as coisas eram mais amadoras. Não que eu ache o Lula o máximo, mas o País está melhor", conclui o casseta. "O que a gente perde, ao não poder fazer uma piada racista, é bem menos do que o (combate ao) racismo perderia com a piada", fala. Perda incontestável nesse contexto é o acesso direto a nossos representantes. Se Ernesto Varela circulava livremente pelo Congresso Nacional, em Brasília, a área está bem mais vigiada hoje. "Os congressistas que defendiam a liberdade de expressão na época (1983) estão hoje no poder e, curiosamente, agora defendem a liberdade de expressão, mas nem tanto assim", constata Tas.O homem do CQC não ignora, no entanto, os avanços do mundo politicamente correto. "Fui rever, no final do ano passado, programas do Telecurso 2000, de 1996 a 98, para uma atualização. Tinha programas de aulas de matemática em que os caras davam exemplo de volume bebendo cerveja no boteco, fumando enlouquecidamente!", lembra. "No Rá-Tim-Bum, programa infantil (TV Cultura), tinha gente fumando, jogando papel no chão, tudo devidamente já cortado", completa."Acho que temos que relaxar e ser um pouco mais irresponsáveis no sentido de não cair numa blindagem mental, do nada pode, mas é claro que todo mundo tem que ter ética, até o mais louco e irreverente", completa Tas.O casseta Cláudio Manoel era um dos redatores do revolucionário 'TV Pirata'. Foto: DivulgaçãoDiante de tantos "não pode", a turma da criação se vê inconscientemente sugestionada a vetar idéias que supostamente "não vão passar" pelo crivo legislativo ou social. Foi assim que, outro dia, Tas se viu espantado com alguém do CQC a lhe questionar se eles não estariam infringindo a lei eleitoral com determinada proposta de pauta. "Quem disse que isso está na lei eleitoral?", rebateu. "Não tá, a gente começa a criar fantasmas e vai perdendo a irreverência, até começar a subestimar a inteligência do telespectador, isso é muito ruim."A gente se vê na webEnquanto o mundo politicamente correto foi ganhando contornos cada vez mais minuciosos, sorte de uns e azar de outros, a internet foi ganhando asas e hoje abarca, sem restrições, toda a acidez do humor filtrado pela TV. "Mas se um dia uma cena for vista por 40 milhões de pessoas na internet e 1 milhão se ofender, pô, 1 milhão é gente pra caramba", cita Cláudio Manoel, endossando que a liberdade de criação é inversamente proporcional ao tamanho do público. Tas é mais otimista: "não há como controlar a internet como se controla a TV. Não é que na internet o buraco seja mais fundo, é que é tão espalhado que não tem como fechar". Melhor assim. E cada um que sintonize o canal que convém ao seu senso de humor.

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