Yara Nardi/Reuters
Yara Nardi/Reuters

Pio XIII vivido por Jude Law é pura arrogância em 'Young Pope'

Ator vive um papa que não é pop e não acredita em Deus

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2017 | 04h00

Se na política aplicada à ficção nada mais parece inverossímil depois da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, a série Young Pope, que chegará ao Brasil no Canal Fox Premium em 29 de abril, com quatro meses de atraso em relação ao resto do mundo, não derrapa na liturgia ao mostrar como uma articulação mal amarrada em um conclave confuso pode pôr o Vaticano à beira do abismo. Tudo é, de fato, possível.

Sucesso de público nos Estados Unidos e Europa, onde foi exibida entre dezembro e janeiro, a série narra a controversa história do início do pontificado do papa Pio XIII, o primeiro pontífice americano e o mais jovem na história. 

Antes de mais nada, cabe explicar que não se trata de um resgate histórico, mas de uma ficção em um futuro indefinido, mas próximo. Para usar um termo da moda, Young Pope se enquadraria na categoria realismo distópico.

 

Com uma personalidade diametralmente oposta à do argentino progressista e boa-praça Francisco, Pio XIII é fumante convicto, se acha mais bonito do que Jesus Cristo, se veste como um dândi e tem sérias dúvidas sobre a existência de Deus.

Interpretado por um inspirado Jude Law, o papa da ficção não é nada pop. Muito pelo contrário. Apesar da jovialidade e beleza, o líder da Igreja trata tão mal os fiéis que leva a indústria do Vaticano à beira da falência.

Em seu primeiro discurso na Praça de São Pedro, ficou na sombra para não ser visto e passou um pito na multidão. “Querem ver meu rosto? Vão ver Deus primeiro.” Além de arrogante, Pio XIII, um órfão que cresceu atormentado pelo abandono dos pais hippies, se mostra um ultraconservador com ideias assustadoras. 

Em suma, sua pregação defende que Deus não está interessado em nós até estarmos exclusivamente interessados nele, que fanatismo é amor e que a palavra tolerância não existe. Para Pio XIII, só interessa à Igreja o apoio de quem está atuando por ela 24h por dia, “sem espaço para o livre-arbítrio e a emancipação”. O jovem papa também trata em pé de igualdade a pedofilia e o homossexualismo e prega a “erradicação” dos gays.

 

Nas conversas reservadas nos jardins do Vaticano, vai além e sussurra para cardeais desesperados que todos os padres são “covardes e infelizes”. Se o papa da série não é pop, as escolhas estéticas e a trilha sonora da obra do diretor italiano Paolo Sorrentino, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro por A Grande Beleza, definitivamente são.

 

Nos jardins do Vaticano, freiras de branco jogam vôlei enquanto são observadas pelo pontífice sentado em um banco fumando um cigarro e saboreando uma Cherry Coke. Pio XIII também aparece malhando, nadando e se deliciando com a liturgia do cargo.

 

O atraso da chegada da série ao Brasil será compensado pela decisão inédita da Fox de disponibilizar em um APP todos os dez episódios de uma só vez. Quem não for assinante do Fox Premium pode experimentar o pacote por 15 dias de graça.

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