Mark Sommerfeld/The New York Times
Mark Sommerfeld/The New York Times

Personagem de Patrick Stewart reaparece renovado em ‘Star Trek: Picard’

Depois de 26 anos de ausência da televisão e 18 do cinema, ele está de volta em produção que entra no ar no Brasil em serviço de streaming

Mariane Morisawa, Especial para O Estado de S. Paulo

28 de janeiro de 2020 | 06h37

LOS ANGELES - Entre os fãs de Star Trek, só um capitão concorre em popularidade com o original, Kirk (William Shatner). Seu nome é Jean-Luc Picard. Depois de 26 anos de ausência da televisão e 18 do cinema, ele está de volta em Star Trek: Picard, que entra no ar no Brasil no serviço Amazon Prime Video. 

Os produtores Alex Kurtzman, Heather Kadin, Michael Chabon e Akiva Goldsman tiveram de suar um bocado para convencer Patrick Stewart a retornar a um de seus icônicos papéis - o outro sendo o Professor X da saga cinematográfica X-Men. Depois de uma reunião de uns 40 minutos, o ator educadamente disse não. Mas no dia seguinte pediu que eles colocassem suas ideias no papel. 

O resultado foram 35 páginas. E aí ele disse sim. “Eu acho que ele percebeu com Logan que tinha como fazer o mesmo personagem de um jeito novo”, contou Kurtzman em entrevista em Los Angeles. 

“Fora isso, o mundo simplesmente enlouqueceu na mesma época. E Star Trek sempre refletiu o universo em que vivemos. Ter a oportunidade de dizer algo sobre isso foi um atrativo a mais para Patrick”, completou Kurtzman. 

Gene Roddenberry criou Star Trek em 1966, época dos movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos e dos protestos contra a Guerra do Vietnã.

Além de contar com uma personagem negra, Uhura (Nichelle Nichols), e um asiático, Sulu (George Takei), a série pregava a diplomacia e o diálogo no lugar dos conflitos. 

Mas os tempos são outros, e o mundo mudou um bocado, inclusive no panorama televisivo, que exige mais complexidade e nuance. 

“Quando começamos a conversar sobre a série, falamos muito de imigração e da crise de refugiados, que era o que estava acontecendo na época”, disse a produtora executiva Heather Kadin. “Mas depois muito mais coisas aconteceram, e encontramos Picard desafiando o governo, afirmando que existe outra maneira de fazer as coisas. Não estamos, porém, tentando martelar nada na cabeça de ninguém nem desejamos ser políticos”, afirmou.

Picard está aposentado e cuidando do vinhedo da família na França - uma rara oportunidade de ver a Terra no mundo de Star Trek. Ele se consome pela culpa dos eventos de décadas anteriores, que apareceram nos filmes da saga: a morte do androide Data (Brent Spiner) e a destruição de Romulus, que resultou em sua aposentadoria voluntária. 

Mas tudo muda quando ele conhece a jovem Dahj (Isa Briones), que vem pedir sua ajuda depois de ver o namorado ser morto e descobrir habilidades que desconhecia. 

Picard, afastado da Frota Estelar e da Federação, está disposto a enfrentar o sistema para desvendar fatos obscuros envolvendo seres sintéticos, com a ajuda de novos tripulantes, como o comandante Rios (Santiago Cabrera) e a cientista Agnes Jurati (Alison Pill). Mas gente conhecida também dá as caras, como Data, Raffi (Michelle Hurd), Troi (Marina Sirtis) e até Seven (Jeri Ryan), importada de Voyager.

O tom adotado é muito diferente das outras séries Star Trek inclusive Star Trek: Discovery, produzida pelas mesmas pessoas de Picard. 

“Queríamos que o espectador reconhecesse ser Star Trek, mas que tivesse sua identidade. Que falasse de coisas diferentes, tivesse um visual diferente e parecesse diferente”, disse Kurtzman. “Para mim, Picard é mais um drama adulto. As coisas se desenvolvem a seu tempo”, afirmou. 

A série também é mais sombria para refletir o mundo de hoje, sem cair na distopia. “Esse era o desafio: ser um espelho do que vemos à nossa volta e manter a visão otimista de Roddenberry”, disse Kurtzman. 

Alegorias. A solução era casar as duas coisas no personagem principal. “Picard sempre foi um facho de luz na escuridão”, afirmou o produtor executivo. “Não nos furtamos de contar as histórias alegóricas que falam dos assuntos que nos preocupam, mas aí Picard está lá para nos lembrar do que é certo e do que é importante.” 

Para Kurtzman, o personagem sempre se guiou pelo bem maior, sempre manteve seu bússola moral. “Ele é o tipo de líder de que precisamos desesperadamente agora. Sua volta é tão necessária porque temos de ser lembrados de como é importante ter líderes que pensam em todos profundamente e cuidadosamente e levam em consideração as repercussões para esta geração e também as futuras. Que pesam o certo e o errado, que não são reacionários, que não tuítam às 2 da manhã, mas que pensam em suas como suas ações enquanto líderes impactam nações de pessoas. Picard sempre foi esse cara”, disse.

Em julho, Patrick Stewart completa 80 anos. Mas não parece: a voz continua forte como sempre, e o corpo, em forma invejável. O ator, que ficou marcado por Jean-Luc Picard a despeito de uma extensa carreira anterior no teatro, confessa em entrevista com participação do Estado, em Los Angeles, que não tinha vontade de retornar ao personagem. 

Você hesitou em voltar ao personagem. O que o fez mudar de ideia?

Aceitei me encontrar com os roteiristas e, quando eles me apresentaram suas ideias, fiquei intrigado, pois o mundo que descreviam não era o de Star Trek: A Nova Geração. E isso me empolgou, porque o mundo em que vivemos hoje não é o mundo de 2002, quando terminamos Star Trek: Nêmesis. Vi ali um potencial de fazer algo positivo, otimista e benéfico, algo que Star Trek sempre procurou fazer. 

Papéis icônicos podem ser uma bênção e uma maldição. Qual sua opinião?

De verdade? Sim, pode ser um peso. Uns dois anos depois de fazer Star Trek: Nêmesis, finalmente consegui uma reunião com um diretor com quem queria trabalhar. Ele foi muito bacana, aí disse: “Eu gosto do que você faz, mas por que eu iria querer Jean-Luc Picard no meu filme?”. Fiquei destruído. Isso me assombrou por um bom tempo. Pensei: “Deus, o que fiz a mim mesmo? Apaguei minha carreira ao fazer este papel”. Mas depois vi que não era bem assim. 

Acha que os fãs enxergam Picard como uma figura paterna?

Achava que ele estava mais para sex symbol (risos). Vá lá, figura paterna. Brincadeira. Sou pai e avô, então tenho muito orgulho dessa descrição. 

Picard perdeu sua família em ‘Star Trek: A Nova Geração’. Mas em ‘Star Trek: Picard’, vemos como ele tinha uma relação quase paternal com Data. Ele está à procura de uma família?

Picard teve alguns poucos relacionamentos românticos, que nunca deram certo. E ele reconhecia que a Enterprise era sua casa, e que a tripulação era sua família. Sentia uma tremenda responsabilidade, socialmente, profissionalmente, cientificamente. Quando ele conhece Dahj, as circunstâncias são outras, mas fazem com que Picard se lembre de suas maiores derrotas. 

Data era de uma época em que a inteligência artificial não dava medo. Agora, as coisas mudaram, não?

Na política, sou de esquerda. Então minha preocupação é como a inteligência artificial vai afetar o número de empregos, o quanto as pessoas vão sofrer. Elas já estão sendo substituídas por máquinas. Eu, pessoalmente, só gostaria de ter um daqueles robôs aspiradores (risos).

Acredita que ‘Star Trek’ seja mais relevante hoje do que nunca por causa de sua mensagem?

Acho que sim, porque o mundo é um lugar perturbador no momento. O que vou dizer vai soar extremamente pomposo e vou me arrepender amargamente pelo resto da minha vida, mas eu acho que o mundo precisa de Star Trek no momento.

 

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