Universal Pictures
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Pelé 80 anos: dois documentários e um filme repassam a trajetória do ex-jogador

Programação do Canal Brasil festeja os 80 anos do Rei do Futebol exibindo três produções: 'Pelé Eterno', 'Os Trombadinhas' e 'Isto é Pelé'

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2020 | 05h00
Atualizado 23 de outubro de 2020 | 20h37

Para festejar os 80 anos de Pelé, o Rei do Futebol, o Canal Brasil programou três filmes. Dois são documentários sobre sua carreira – Isto é Pelé (Luiz Carlos Barreto e Eduardo Escorel) e Pelé Eterno (Aníbal Massaini). O outro, Os Trombadinhas, de Anselmo Duarte, é uma ficção estrelada pelo ator Edson Arantes do Nascimento.

O primeiro dos documentários, o de Barreto e Escorel, é de 1974, ano em que o Rei, em tese, pendura as chuteiras. Em tese, porque depois ele voltou a jogar pelo Cosmos de Nova York, aposentando-se em definitivo em 1977. O filme é feito então na data da despedida brasileira e traz essa emoção da perda. Aliás, uma das cenas mais emocionantes do filme é o adeus à seleção brasileira, com a torcida gritando “Fica, fica…” enquanto o Rei dava a volta olímpica no estádio.

O filme de Barreto segue a carreira de Pelé não apenas no Santos, mas, em especial, na seleção brasileira, lembrando sua participação em quatro Copas. Na de 1958, quando é revelado ao mundo, campeão aos 17 anos; em 1962, quando se contunde e fica fora da maior parte dos jogos, tendo Garrincha então assumido o protagonismo; em 1966, quando é vítima da violência, sendo o Brasil desclassificado por Portugal; e, por fim, na Copa de 1970, seu último Mundial e uma despedida de gênio, com jogadas de antologia e gols decisivos. Algum jogador atingiu nível semelhante ou parecido? Pelé também é visto tentando ensinar a técnica do futebol a meninos. Como se chuta, a importância do pé de apoio, o cabeceio com os olhos abertos, etc. Futebol se ensina?

Pontos polêmicos do grande jogador não são poupados. Pelé, com sua habilidade infernal, era vítima da violência desde cedo (quase não vai à Copa de 1958, pois um zagueiro do Corinthians acertou seu joelho num jogo-treino). Aprendeu a defender-se. E o fazia muito bem e longe dos olhos dos juízes. Sabia ser truculento. Quebrou a perna de um jogador alemão e acertou uma famosa cotovelada num uruguaio na Copa de 1970. Como proteger o talento do craque? Hoje, com as novas tecnologias, árbitros auxiliares, VAR e etc, os jogadores habilidosos estão mais a salvo que na época do Rei?

Outro ponto de destaque são os gols que Pelé não fez e ficaram mais famosos do que muitos gols marcados. Ambos na Copa de 1970: o chute de meio de campo quase surpreende o goleiro Viktor da Checoslováquia, que estava adiantado; o drible de corpo em Mazurkiewicz, deixando estonteado o goleiro do Uruguai. Destaca o lado “inventor” de Pelé, também criador da “paradinha” na cobrança de pênaltis, o que obrigou a Fifa a mudar a regra para discipliná-la.

Com Pelé Eterno, de 2004, temos o mais completo documentário já feito sobre o Rei do Futebol. O filme de Massaini conta com narração e depoimentos do Rei, mostra mais de 400 gols (dos 1281 que Pelé marcou na carreira) e traça uma linha do tempo que vai do nascimento em Três Corações, em 23 de outubro de 1940, até a aposentadoria, em 1977.

A partir deste filme, é possível visualizar a carreira incomparável de um gênio, com suas conquistas e repertório inesgotável de jogadas. Foi o jogador perfeito, tanto técnica como atleticamente. Longevo, atuou durante 18 anos em um único clube, o Santos Futebol Clube. Depois de aposentado, voltou atrás e jogou mais três pelo Cosmos de Nova York.

Os números são astronômicos: 1371 jogos, 1281 gols (1091 pelo Santos, 95 pela seleção), três títulos mundiais pelo Brasil, dois pelo Santos, 10 Campeonatos Paulistas, cinco Taças Brasil (o antigo campeonato brasileiro) e etc. Alguém se atreve a disputar com esse cartel? Que tal compará-lo com Maradona, como gostam de fazer os argentinos? Ou com Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar…?

Nessa antologia de gols de craque, há alguns fatos curiosos. Por exemplo, usa-se o recurso da montagem para mostrar vários gols de pé direito, outros tantos de pé esquerdo, de cabeça, de bicicleta, de pênalti, etc. Aliás, as cenas são acompanhadas de uma música de Jorge Benjor que fala justamente dessa versatilidade. Pelé jogava até no gol, se necessário.

Há outras curiosidade. Não existem imagens de dois desses gols de antologia: 1) o chamado “gol de placa” sobre o Fluminense no Maracanã (5/3/1961); 2) o gol contra o Juventus, na Rua Javari (em 2/8/1959. Coutinho, eterno parceiro de Pelé, considerava este o gol mais bonito da carreira do craque. No primeiro, Pelé pega a bola na sua intermediária e sai driblando vários adversários até chegar ao gol. No segundo, aplica vários chapéus consecutivos (o último no próprio goleiro) e completa de cabeça para a rede. No filme, o primeiro gol é reencenado e montado com algumas imagens verdadeiras de outros jogos. O segundo é refeito com técnica de computação gráfica.

Outro aspecto do filme de Massaini é a ênfase na vida familiar de Pelé, seus casamentos e separações, e até mesmo quando assume filhos antes não reconhecidos.

Outro ponto que talvez mereça destaque é a questão da negritude. No filme, Pelé se diz orgulhoso de ser negro, mas eram comuns ao longo de sua carreira vitoriosa as queixas de movimentos negros sobre sua atuação em prol da igualdade racial, considerada “insuficiente”. Neste tempo de afirmação maior e mais explícita da igualdade racial, como reavaliar o legado de Pelé nesse aspecto?

De qualquer forma, dos filmes sobre o Rei, Pelé Eterno é o mais completo, embora banhado por esses momentos familiares e um certo sentimentalismo - o próprio Pelé admite que é um chorão. É também um filme de emoções, e se beneficia disto. Em todo caso, constrói a mais ampla antologia da carreira desse artista da bola.

Pelé foi completo e único. Mas Edson Arantes do Nascimento queria mais. Aventurou-se pelo cinema e pela música. Em Os Trombadinhas, Anselmo Duarte, Palma de Ouro em Cannes por O Pagador de Promessas, dirige um argumento escrito pelo próprio Rei. O samba de encerramento - Moleque Danado - também é de Pelé. O roteiro e diálogos são de Carlos Heitor Cony e, no elenco, há atores como Paulo Goulart, Paulo Villaça, Ana Maria Nascimento e Silva, Raul Cortez e Neusa Amaral.

Mas o protagonista é mesmo Pelé, interpretando ele mesmo. Ele é visto ensinando sua arte a garotos das divisões de base do Santos, porém é levado a se interessar pelos meninos de rua que praticam pequenos furtos em São Paulo. Ele e um empresário de bom coração (Paulo Goulart) tentam desvendar uma rede de exploração de menores e chegar aos verdadeiros mandantes dos crimes.

De craque e professor de futebol, Pelé transforma-se em policial e faz dupla com Bira (Paulo Villaça, de O Bandido da Luz Vermelha). Saem no encalço dos garotos e depois buscam os chefões que comandam a rede de roubos.

Há um pouco de tudo neste filme concebido como um policial urbano: roubos, perseguições a pé ou de carro, lutas, explosões, tiroteios. E até um lado de drama social, quando um dos garotos que Pelé esperava salvar perde a vida. Tem aquele figurino do cinema comercial da época da Embrafilme, um desejo de chegar ao público porém mantendo certa qualidade e com atenção aos temas nacionais. Ensaia até a interpretação sociológica de que iniciativas individuais são incapazes de resolver problemas sociais.

Atuação não é lá muito o ramo de Pelé. As falas parecem muito recitadas, mas ele vai melhor nas cenas de esforço físico, o que era de se esperar. A direção é meio convencional, porém o filme reserva boas sequências ao espectador. Numa delas, montada em paralelo, Pelé ensina aos jovens jogadores como se postarem em campo, enquanto o chefe dos trombinhas (Sérgio Hingst) lhes dá explicações de como se conduzir durante os assaltos. Basicamente, as orientações são as mesmas, num caso como em outro, o que empresta comicidade à montagem paralela.

Pelé pode não ser nenhum Laurence Olivier, mas dá conta do recado nesse trabalho em suma modesto. Escolher esse tema social referente à infância não surpreende quando lembramos que, ao marcar seu milésimo gol, em 1969, o Rei havia dedicado o feito às criancinhas do Brasil, para que fossem lembradas. Elas permanecem nas ruas, abandonadas como sempre. 

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