Acervo Globo
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'Pecado Capital' traz dramas de Carlão de volta a Francisco Cuoco

Ator relembra Janete Clair, Daniel Filho e cenas dramáticas da novela dos anos 1970 que estreia no Globoplay

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

31 de janeiro de 2022 | 05h00

Para falar de Pecado Capital, novela que nesta segunda-feira, 31, chega ao catálogo do Globoplay, é preciso começar pela cena final da história de Janete Clair, um dos grandes sucessos da teledramaturgia brasileira, exibido originalmente nos anos de 1975 e 1976.

Nessa sequência, o protagonista Carlão, interpretado por Francisco Cuoco, após ser perseguido por bandidos em uma estação de metrô em construção, morre abraçado a uma mala cheia de dinheiro. Era o desfecho de uma trama que falava de ambição, valores morais e a violência das grandes metrópoles. Por todas essas questões, Carlão havia perdido seu grande amor, Lucinha, interpretada por Betty Faria, ao preferir ficar com um dinheiro que não era seu.

A cena, dirigida por Daniel Filho, entrou para a história da teledramaturgia brasileira. Janete, autora consagrada desde a era da radionovelas, nos anos de 1950, dava uma virada em sua carreira, poucos anos antes de sua morte, em 1983.

Cuoco, atualmente com 88 anos, 46 depois de ter participado da novela, se diz emocionado ao relembrar o desenlace de sua personagem, em conversa por telefone com a reportagem do Estadão. “Essa cena tem um andamento bonito. As pessoas, quando viram, queriam abraçar o Carlão e salvá-lo da morte. Ficou esse sentimento no ar. Eu não me canso de ver. Acho que fiz bem”, diz, modestamente.

A morte de Carlão teve como trilha sonora o samba que deu nome à trama, Pecado Capital, por Paulinho da Viola – e que virou um dos grandes sucessos de sua carreira. A música foi feita sob encomenda, e, diz a história, ficou pronta em 24 horas. Isso porque Pecado Capital foi criada às pressas por Janete. A novela que deveria entrar no ar, para substituir Escalada, era Roque Santeiro, de Dias Gomes. Porém, já com 20 capítulos gravados, horas antes de entrar no ar, a trama foi vetada pela censura. 

Janete, que escrevia a novela das 7 da noite, Bravo, passou o bastão para o ainda iniciante Gilberto Braga e criou uma sinopse. Enquanto tudo era preparado, a Globo exibiu um compacto de Selva de Pedra, também da autora, levado ao ar anos antes, em 1972.

Parceria

Carlão, um motorista de táxi nascido e criado no subúrbio carioca, tinha pouco a ver com os personagens que Cuoco já havia feito na televisão, sobretudo nas tramas de Janete. O ator paulistano conta como compôs o personagem. “Lembrei-me dos tempos de menino, quando meu pai era feirante. Quando o motorista do caminhão atrasava ou não ia, eu dirigia o caminhão, de madrugada. Eu tinha essa ligação com o volante, a direção. Isso me deu um ligeiro suporte. Um personagem é uma luta diária. Deixava a emoção fluir por meio do texto da Janete”, diz.

À altura de Pecado Capital, Cuoco já era um dos atores preferidos da autora. Tinha dado vida a Cristiano, de Selva de Pedra e a Alex Garcia em O Semideus. Um desses casos de comunhão total entre criador e criatura. “Um ator encontra uma autora que identifica suas possibilidades mais íntimas de interpretação. E esse ator consegue extrair do texto todos os matizes, todo o subtexto contido na história. Cuoco, de imenso talento, representava com sua leitura interpretativa todas as filigranas, todos os conflitos que compõem o universo masculino”, avalia Mauro Alencar, doutor em Teledramaturgia Brasileira e Latino-americana e autor da versão para romance de Pecado Capital.

Alencar explica que em Pecado Capital Janete, a maior representante do estilo folhetinesco, avançou em suas possibilidades temáticas – mas ressalta que a autora tinha a base na fantasia, no romantismo, para alcançar a realidade. O especialista explicita esse desenvolvimento ao comparar os personagens Cristiano de Selva de Pedra e Carlão.

“Cristiano, um dos melhores personagens da história da teledramaturgia, era um homem cheio de conflitos, perdido na selva urbana. Com Carlão – que está entre as maiores criações de personagens da história da arte dramática –, Janete foi além. Um homem que carrega um dilema moral, social, mergulhado em íntima solidão, que vai se perdendo ao longo da história até sua tragédia final. Ou seja, se para Cristiano temos o final romântico, para Carlão a conclusão será realista”, acrescenta. 

Dilema

Sobre o grande dilema da novela – se Carlão tinha ou não a intenção de devolver a mala cheia de dinheiro – Cuoco tem uma explicação. “Eu consegui transmitir essa grande dúvida dentro do espírito de retidão do personagem. A Janete também escrevia dessa maneira. O dinheiro era algo bom e um pesadelo, ao mesmo tempo. Já vinha tudo muito mastigado no texto, com muitas indicações”, diz. 

Em 1998, a TV Globo levou ao ar um remake de Pecado Capital escrito por Glória Perez, que trabalhou com Janete em sua última novela, Eu Prometo. Com o ator Eduardo Moscovis como Carlão, Carolina Ferraz dando vida a Lucinha e Francisco Cuoco agora interpretando o milionário Salviano Lisboa, a novela não obteve o mesmo sucesso da original. Em 2014, o canal Viva anunciou que exibiria essa versão mas desistiu da ideia após a rejeição manifestada por seus assinantes.

 

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