Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Paulistana de tradição

Celeiro de grandes nomes da TV, Gazeta faz 40 anos tentando renovar seu fôlego

Alline Dauroiz,

15 Janeiro 2010 | 12h14

Avenida Paulista, 900 não é um endereço qualquer de São Paulo. Além de ser o ponto de partida da Corrida de São Silvestre, é lá que fica o Edifício Gazeta, sede da TV que por muitos anos se autointitulou "a mais paulista das emissoras" e que completa 40 anos neste 25 de janeiro, dia do aniversário da cidade.

 

Longe de ser a TV de vanguarda dos anos 70 e 80, a Gazeta chega a quarta década ainda sem expressividade no Ibope (é a último canal no ranking de audiência) e como a única grande emissora paulista a não exibir nada em alta definição, apesar de já ter transmissor digital. Gaba-se porém de se autossustentar desde 2008, com o fim da locação de horários (à exceção das duas horas diárias da Igreja Universal, que tem contrato com a TV até 2012), ainda que a independência financeira seja conquistada à custa de seis horas destinadas a televendas.

 

"O Bestshop TV, a Gazeta Shopping e a Gazeta Imóveis são totalmente feitos por nós e ajudam a sustentar a empresa", explica a superintendente de Programação, Marinês Rodrigues. De fato, 22% da receita da Gazeta vêm desses programas, 64%, da publicidade; e o restante, da parceria com a Igreja Universal.

 

A vantagem, segundo Marinês, é que agora fica mais fácil trocar o horários dos programas para a entrada de novas atrações.

 

Para especialistas em televisão, o caminho escolhido pelo canal é visto com ressalvas.

 

"Agora que eles têm boas condições financeiras, precisam investir em programação, em bons programas populares que deem ibope", acredita Gabriel Priolli, coordenador de expansão e rede da Fundação Padre Anchieta/TV Cultura, e que já foi diretor da Gazeta nos anos 80.

 

José Bonifácio Sobrinho, o Boni, várias vezes pensou em fazer parcerias ou arrendar horários na emissora. Hoje defende a competência dos profissionais da Gazeta, que "sanearam a empresa". "Televisão é um investimento caro. Um dia, ela conseguirá sobreviver cumprindo sua função social."

 

Já para o jornalista Laurindo Leal Filho, professor do Departamento de Jornalismo e Editoração da USP, a esperança é que a estabilidade não acomode os dirigentes da emissora. "Que eles aproveitem para oferecer programas de mais qualidade que, com certeza, trarão anunciantes."

 

Embora este ano seja marcante para o canal, a Gazeta ainda não definiu bem seus planos para 2010. Tudo depende da chegada dos equipamentos para as transmissões em HD, o que deve acontecer ainda no primeiro trimestre.

 

Em andamento, há conversas para parcerias com produtoras independentes, entre elas a Touareg, da jornalista Ana Paula Padrão. "Também lançaremos um programa musical às sextas-feiras e um de variedades no fim de semana, mas não temos nada definido", afirma Marinês. E o que aconteceu com a ideia de ser a "TV mais paulista do Brasil"? Há 40 anos na emissora, Silvio Alimari, hoje superintendente-geral da Gazeta, explica: "Nossa maior força continua em São Paulo, mas, por causa dessa ideia, nunca entramos em concorrência de grandes Estados e isso agora está dificultando a expansão da rede." Hoje, a emissora está em 304 municípios brasileiros, 210 paulistas.

 

AJUDINHA

 

Primeira emissora do País a transmitir em cores (em 1972, no feminino Vida em Movimento, com Vida Alves), a Gazeta chegou a emprestar seus equipamentos de ponta para a Globo e outros canais na época. "A Gazeta foi para a TV colorida mais ou menos o que a RedeTV! está sendo para ao digital: a mais equipada das emissoras", explica Elmo Francfort, autor do livro Avenida Paulista, 900 – A História da TV Gazeta, que será lançado no dia 25. "A diferença é que, como a Gazeta não nasceu com o propósito da luta pelo ibope, acabou ajudando outras emissoras."

 

Na década de 1980, época da propagação do videocassete e dos festivais de vídeos independentes, que passaram a fazer o maior sucesso entre os jovens, a baixa audiência da Gazeta virou um ponto positivo: já que não havia muito a perder, era possível ousar.

 

Assim, ela foi celeiro de ideias revolucionárias e programas embriões de projetos como a MTV e Rá-Tim-Bum. Lançou nomes como Fernando Meirelles, Marcelo Tas, Serginho Groisman, Astrid Fontenelle; além de ter sido a estreia na TV de Faustão, Luciano Huck, Joelmir Beting, Galvão Bueno, Heródoto Barbeiro, Cléber Machado, Mariana Godoy, entre outros.

 

A estreia na TV da Olhar Eletrônico, produtora independente que entre os sócios estava o então recém-formado Fernando Meirelles, aconteceu a convite do apresentador Goulart de Andrade, em 1983, para um programa às 23 horas das segundas-feiras, o Antenas.

 

"Era um programa sem cenário, nenhum formato, sem apresentador fixo, apesar de ser uma revista semanal. A audiência? Umas 16 pessoas, mas deve ter subido para 28, se nossas mães e namoradas não estivessem mentindo", brinca Meirelles, hoje cineasta internacionalmente reconhecido.

 

Quando a Abril Vídeos comprou o horário da noite, aos domingos, os "meninos da Olhar" criaram o Olho Mágico, atração que foi berço do personagem Ernesto Varela, repórter fictício interpretado por Marcelo Tas, sensação dos anos 80 ao fazer perguntas indiscretas a políticos e personalidades.

 

A total liberdade que a Gazeta oferecia às produtoras locatárias de horário também renderam episódios engraçados, coisas absurdas para os tempos atuais. "Fizemos um programa inteiro dentro de um carro que quebrava no final. Desgraçadamente, o carro era da Fiat, primeiro patrocinador que o Goulart havia conseguido para nos manter no ar. Foi o fim do nosso programa com ele", lembra Tas.

 

Marcelo Machado, sócio de Meirelles na Olhar Eletrônico que chegou a ser diretor de Programação da emissora, lembra de outro episódio. Quando a colaboração com o Goulart terminou, sobrou um último programa em aberto, no sábado, após a meia-noite. Eles experimentaram algo radical: por uma hora, exibiram um aquário com música ambiente. Na tela, além dos peixes, havia o número de telefone da produtora. "Para os que nos ligavam, anotávamos o número e passávamos para a próxima pessoa que ligasse. Assim, em vez de ficar acordados vendo TV, eles podiam conversar. O princípio da TV interativa", conta.

 

De 1987 a 1989, foi ao ar o embrião do que seria a MTV: o TV Mix, programa de variedades, jornalismo, videoclipes, que falava de sexo a cinema e culinária. O cenário era a redação no Edifício Gazeta, e foram eles que propagaram a ideia do "abelha", repórter que acumulava a função do cameraman.

 

"Era muita coisa boa na cabeça e pouca grana. Daí a gente aprende a se virar. Foi meu passaporte para coisas bacanas que acabei fazendo depois", conta a apresentadora do GNT Astrid Fontenelle, que, como outros tantos nomes importantes, carimbou sua entrada na TV com um visto que tem história.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.