Valerie Chiang/ The New York Times
Valerie Chiang/ The New York Times

Paul Rudd é executivo deprimido e sem paixão pelo trabalho em ‘Living With Yourself’

Em entrevista ao The New York Times, ator falou sobre a nova série da Netflix e defendeu a sua fama de ser sempre o 'anti Brad Pitt' dos filmes

Dave Itzkoff, The New York Times

14 de outubro de 2019 | 10h00

Como muitos cinéfilos, Paul Rudd saiu do cinema depois de assistir a Era uma Vez em... Hollywood pensando muito em Brad Pitt. Tendo passado algumas horas num cinema escuro onde viu Pitt lutar com Bruce Lee, ser amigo de Leonardo DiCaprio e tirar sua camiseta para consertar uma antena de TV, Rudd ficou um pouco deslumbrado e intimidado, mas também sentindo que o seu lugar na hierarquia ficou definida.

“Pensei, meu Deus, que astro de cinema, tão bom”, disse Rudd. Seu tom de voz ficou mais irônico ao dizer “no caso de Leo, ele não ficou atrás”. Rudd retornou ao seu costumeiro jeito simpático quando descreveu como a experiência de Pitt o lembrou que o público nunca vai vê-lo da mesma maneira. “Já me conformei que não vou ser o tipo que as pessoas que vão ao cinema olham e dizem, ‘sim, é esse que quero ser’.”

Rudd é um astro de TV e cinema há mais de 25 anos, desde suas primeiras aparições em filme como As Patricinhas de Beverly Hills (1995) até sua primeira série na Netflix, Living with Yourself, que será lançada no dia 28 de outubro. Embora muitas pessoas, como nós, sintam que sempre o conheceram, aos 50 anos de idade ele está atingindo um novo auge da fama, graças em parte a blockbusters da Marvel, como Vingadores, a Batalha Final, filme no qual ele interpreta o super-herói Homem Formiga. E agora vem trabalhando, tendo o papel principal, no filme Ghostbusters que será lançado no ano que vem e que pode elevá-lo a novas alturas.

Mas esse aventureiro fantasiado é um caso à parte. Rudd conquistou seu espaço no campo pop-cultural interpretando personagens que não se pavoneiam triunfantemente, salvam pessoas ou provocam emoções. OK, talvez um pouco de emoção. Mas os papéis de sujeito durão e calmo de Brad Pitt, “não são do meu estilo e não estou lutando por eles”, disse Rudd. “Porque a verdade é que não me identifico com eles como me identifico com aquele sujeito meio depressivo ou sobrecarregado, lutando para sair de uma situação comum.”

A sua especialidade é aquele tipo de indivíduo que, apesar da boa aparência e do carisma, é um avatar do mediano. Nas suas atuações de maior sucesso, ele é assediado por problemas quotidianos; é abençoado com um timing cômico impecável, mas o seu momento mais divertido é quando está se debatendo e frustrado. Às vezes, parece estar representando dois personagens ao mesmo tempo.

É uma dicotomia que ele usa e da qual se beneficia plenamente em Living With Yourself, um drama-comédia com um toque de ficção científica. Na série, ele interpreta Miles, um executivo deprimido que perdeu a paixão pelo trabalho e seu casamento. Aproveitando uma dica de um colega de trabalho, ele tenta um tratamento num misterioso spa, esperando ficar renovado e ser uma pessoa melhor – mas que, ao contrário, resulta na criação de um clone (também interpretado por ele) que é aparentemente superior a Miles em todos os aspectos. Living With Yourself é uma série que poderia não se sair tão bem sem essa dualidade inerente de Rudd.

Naturalmente ele consegue encarar o papel do Novo Miles, o sujeito que parece sempre ter uma enorme energia e um sorriso no rosto. Num café da manhã em agosto, em West Village, de Manhattan, Rudd estava tão cativante quanto a propaganda. Usando um boné de beisebol, camiseta e short, ainda com sua barba de férias, ele tinha consciência da sua celebridade sem se deixar levar por ela, como quando falou de credibilidade sobre entrar no metrô como uma pessoa civil.

Mas Living With Yourself também permite a Rudd encontrar o humor e a humanidade do Miles original, um homem que luta para realizar suas modestas ambições e precisa agora enfrentar um duplo indesejado, cuja existência tem padrões que ele não consegue ficar à altura.

A verdade é que existe alguma coisa do velho Rudd também: o ator sabe como é desejar as mesmas coisas aparentemente fundamentais como qualquer outra pessoa e se equivocar nas suas buscas. Ele deseja sentir que é bom no que faz e se expressar através disto, mas também quer se ater a um senso do corriqueiro e de privacidade que às vezes escapa. Quanto ao seu trabalho, Rudd disse que “não tenho grandes afirmações a fazer. Não quero que as pessoas saibam muito a meu respeito, realmente. Não tenho interesse em ser um livro aberto”.

O que não significa que ele não pense na grande sorte que teve em sua carreira e que o conduziu a momentos culturais inesquecíveis, como a última temporada de Friends ou o filme de super-herói de maior sucesso de bilheteria da história. Como disse, “vivi uma vida o bastante para saber que nada do que pensa que ocorrer, acontece da maneira que você imaginava”.

Em algum universo alternativo, talvez Rudd tivesse continuado a sorrir e tocar contrabaixo em comédias como Ligeiramente Grávidos e Eu te Amo, Cara. Mas sua trajetória o levou para caminhos inesperados há cinco anos quando foi convidado para interpretar Scott Lang, o Homem-Formiga da Marvel, dirigido por Edgar Wright – a Marvel achou que Rudd poderia perfeitamente personificar os lados doce e repugnante do personagem título.

“Scott Lang era um criminoso – nós o encontramos saindo da prisão”, disse Kevin Feige, presidente do Marvel Studios. “Mas ele era também uma criança e você precisava de alguém que fosse divertido e de ação e que você sentiria como pai desta menininha.” O talento cômico de Rudd também era um ativo se a Marvel um dia esperasse realizar sua ideia de reunir todos os seus heróis num único filme. Como disse Feige: “Um dia, esta pessoa poderá fazer uma cena com Robert Downey Jr.”.

Living With Yourself foi criado e escrito por Timothy Greenberg, ex-produtor executivo do The Daily Show. Greenberg, que escreveu toda a primeira temporada da série, se inspirou em várias fontes, incluindo um pesadelo de infância persistente sobre dar de encontro com um duplo exato, como também as frequentes brigas com a mulher que perguntava por que às vezes ele era tão sociável e outras vezes um sujeito sombrio e solitário.

“Ela perguntava porque não eu conseguia ser feliz”, disse ele. “E eu respondia: quem não gostaria de ligar um interruptor e sempre ser a melhor versão de si mesmo? Mas eu não consigo”.

(TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO)

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