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Paraisópolis será retratada pela primeira vez em novela da Globo

'I Love Paraisópolis' substituirá Alto Astral, a partir de 11 de maio

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

21 Março 2015 | 16h00

Nunca o núcleo pobre esteve tão perto do núcleo rico em um folhetim, como estará na próxima novela das 7 da Globo, I Love Paraisópolis. Melhor que isso: o cenário existe de verdade e dispensa nome fictício de cidade cenográfica. Comunidade vizinha do abastado bairro do Morumbi, na zona sul de São Paulo, Paraisópolis será palco do enredo que substituirá Alto Astral, a partir de 11 de maio, e já foi devidamente reproduzida no Projac, o complexo cenográfico da Globo em Jacarepaguá, no Rio, com 10 mil metros quadrados.

De Alcides Nogueira e Mário Teixeira, a história, segundo os dois, foge da ideia de luta de classes. “Mais do que os contrastes, queremos mostrar as semelhanças entre os dois lados: rico também sabe dar barraco e pobre também sabe ser elegante”, exemplifica Teixeira, em entrevista ao Estado, em seu apartamento. “Balzac tinha uma coisa genial: mostrava para os ricos como os pobres viviam e para os pobres, como os ricos viviam. Acho que a gente consegue fazer um pouco isso na nossa novela”, completa.


Os autores moram em bairros tão ricos quanto o Morumbi de sua história - Teixeira está em Higienópolis e Alcides Nogueira, o Tide (como é chamado no meio televisivo e teatral), nos Jardins. Reconhecem que nunca haviam pisado em Paraisópolis até terem a ideia de retratá-la. E se surpreenderam com um comércio intenso, onde cinco agências bancárias convivem com centro cultural e lojas de produtos e serviços, como uma agência de turismo que vende pacotes a rodo, religiosamente parcelados e pagos em dia. “Eles têm até um time de Hugby, o Leões de Paraisópolis. Você acredita?”, conta Tide.

A padaria de Paraisópolis que atrai os vizinhos ricos na vida real estará também na ficção, assim como a riqueza cultural local e o projeto de reurbanização da favela, que na história ganha foco na voz de um dos principais personagens masculinos: Benjamin (Maurício Destri, ator com status de lançamento), que seduzirá a mocinha, Mari (Bruna Marquezine). 

“Ninguém jamais falou a respeito dessa favela e principalmente de uma favela em São Paulo”, argumenta Teixeira. “São Paulo tem sempre o núcleo italiano ou os ricos do Jardins. De modo geral, falam muito pouco sobre o que é São Paulo, uma cidade erguida por nordestinos.” Ambos reconhecem que Silvio de Abreu já mexeu, claro, em outros ângulos que não os da Mooca ou dos Jardins, mas, de fato, uma favela paulista com as proporções de Paraisópolis nunca foi alvo de novela na Globo.

“Existe uma diferença imensa entre as comunidades cariocas e as comunidades paulistanas. As cariocas têm uma consanguinidade com os grupos afro. São Paulo não, é com grupos nordestinos, isso muda totalmente o perfil”, completa Tide. Ambos lembram que Paraisópolis nasceu durante a construção do Hospital Albert Einstein, ali na vizinhança, levando os trabalhadores da construção civil a assentar praça por ali. Hoje, o Einstein é uma das várias instituições que colaboram com os moradores do local, forrado de iniciativas de Ongs sociais e culturais. Tudo isso será retratado em cena, ou com personagens que representam figuras reais - caso de Isolda (Françoise Forton), que equivale a Monica Tarragó, responsável pelo Balé de Paraisópolis - ou de personagens reais que entram em cena como eles mesmos, como Berbela, tratado como o Gaudí de Paraisópolis. 

A convivência entre ricos e pobres é favorecida por um contexto geográfico apelidado de Faixa de Gaza. Isso se evidencia na vizinhança com o icônico edifício Penthouse, da foto ao lado, onde morava a “bonitona do Morumbi” (Natália do Vale) na novela A Próxima Vítima. “São realidades que se entrecruzam o tempo todo, na questão do costume, da moda que permeia dois universos”, conta Tide.

O contraste entre uma gente mais bem-sucedida e outra nem tanto promete deixar esperança de ascensão social. Tem até personagem que, nascido e criado em Paraisópolis, vai se formar em Medicina - script para Dalton Vigh, que saltará o muro desse apartheid social.

Trama é fiel à receita de comédia das 7

Assim como Babilônia, nova novela das 9, que é carregada por um trio de mulheres, I Love Paraisópolis concentra seu protagonismo não em um casal, mas em um par feminino, dupla formada por Tatá Werneck e Bruna Marquezine. Irmãs de criação, elas são demitidas da padaria onde trabalham, em Paraisópolis, após sofrerem assédio do chefe do tráfico do morro vizinho, papel de Babu Santana. José Rubens Chachá faz o patrão da padaria. Quando a história começa, elas saem dali para Nova York, onde, incentivadas por fotos fakes de uma amiga, acham que será fácil fazer a América e juntar dinheiro para comprar uma casa para a mãe. 

Em NY, as duas se dão muito mal, mas conhecem Benjamin (Maurício Destri), o arquiteto que apresentará o Projeto Comunidade, de reurbanização de Paraisópolis, que se apaixonará por Mari (Brun). Inconformada, a namorada dele, Margot (Maria Casadeval), denunciará as duas para a imigração e elas serão deportadas - mas o rapaz virá atrás da nova paixão. 

“A novela é basicamente matriarcal e a gente tem muito orgulho disso. As mulheres são os personagens mais fortes e o eixo da condução da história”, diz Mário Teixeira. “Até porque, dentro de Paraisópolis, acontece isso mesmo”, completa Alcides Nogueira, o Tide. 

Benjamin tem um “quê” de Hamlet: a mãe, papel de Letícia Spiller, o pariu muito jovem, com 16 anos, e seu pai morreu em circunstâncias misteriosas. Ela então se casou com o cunhado, irmão dele, papel de Henri Castelli e teve mais dois filhos. De volta a Paraisópolis, acabará trabalhando como segurança dos irmãos de Benjamin.

Todo esse enredo encontra na comédia tradicional de novela das 7, concebida e pavimentada basicamente por Cassiano Gabus Mendes e Silvio de Abreu, o maior ponto de referência de Tide e Mário Teixeira. “Desde a sinopse, estamos tentando preservar coisas que a gente herdou do Silvio e do Cassiano, e incorporar o novo discurso, a nova leitura, a agilidade. É a mescla do folhetim com essa linguagem mais circular, de uma situação que aparece, vem e se fecha, a cada semana”, conta Tide.

Tendo Tatá Werneck como protagonista, é evidente que os autores vão se valer da veia cômica da atriz para dar vazão ao riso, mas, avisam, ela também chora. “E chora muito bem”, avisa Teixeira, para quem todos os personagens trazem um pouco de comédia. 

A leveza se impõe, mesmo quando o tema é árido. Caio Castro, o Grego, será o sujeito que cobra proteção e obediência dos moradores de Paraisópolis. É mau, muito mau, mas também preserva uma aura de Robin Wood, ao defender sua turma da vizinhança. O crime será abordado na favela como algo que não é exclusividade das regiões pobres. Outro tema dramático que promete ser abordado com delicadeza é o Alzheimer, doença que vitima a personagem de Nicette Bruno, mãe de Letícia Spiller no enredo.

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