Os solitários fãs de Regina

Numa antiga canção de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, dando mostra de algum distúrbio emocional, a namorada começa a chorar mansinho, sem ninguém saber por quê. Foi mais ou menos isso o que senti ao ler segunda-feira, no Caderno 2, a entrevista que a atriz Regina Duarte deu à repórter Patrícia Villalba. Seria apenas mais um bate-papo com um dos principais nomes da divertidíssima Três Irmãs, de Antonio Calmon, caso Regina não soltasse, lá pelas tantas, sobre quem vê novela: "Não tem nada melhor para fazer naquele horário". Regina chorou mansinho - quer dizer, não tão mansinho, já que foi nas páginas de um grande jornal - e ninguém soube por quê. Quando entrou na Globo, há 30 anos, Regina Duarte já era Regina Duarte. Tinha feito novelas de sucesso, como A Deusa Vencida (1965), Os Fantoches (1967) e O Terceiro Pecado (1968), todas na extinta TV Excelsior. Na emissora carioca, a atriz deslanchou. Em Minha Doce Namorada (1971), de Vicente Sesso, fazendo par romântico com Claudio Marzo, ganhou o apelido que se colaria ao seu nome: namoradinha do Brasil.Para quem acha que a primeira temporada de Malhação é peça de museu (e é), saber que Regina Duarte teve aquele apelido equivale a conhecer uma ex-paquera de juventude do vovô no velório do próprio. Difícil acreditar que a Mary Poppins de Guaramirim abalou corações na juventude. Pois Regina abalou, sim, os corações dos fãs. De namoradinha virou desquitadinha, à frente do seriado Malu Mulher, onde sentiu o primeiro orgasmo feminino da TV brasileira. Quando todos já davam sua carreira como consolidada, Regina sacudiu a poeira, vivendo a Viúva Porcina, em Roque Santeiro (1985), com energia contagiante.Regina diminui a própria importância quando considera os espectadores como um bando de solitários sem opção de lazer. Solitários, alguns são. Sem opção? Discuto. Eles podem ter preguiça de usar o controle remoto, mas as alternativas estão lá - de futebol a sermão de pastor, de telejornal a filme, sem falar nos canais a cabo. Com a TV desligada, as opções aumentam: cinema, livro, papo com o vizinho, até reunião de condomínio vale. Mas Regina Duarte há de convir que é mais divertido assistir novela do que discutir a pintura da garagem. e-mail: mvianinha@hotmail.com

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