Os ecos de Lázaro Ramos

Com Evilásio em Duas Caras, ator tenta expor seu principal objetivo: trazer a reflexão

Renata Gallo, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2007 | 22h17

Um dia após nossa conversa, toca o celular: "Renata, estou ligando para esclarecer uma coisa e não ser injusto. Fiquei pensando na nossa conversa e queria dizer que o Evilásio ultrapassa o estereótipo do negro de baixa renda, ele é o herói romântico da novela e isso é inédito na TV." Do outro lado da linha, Lázaro Ramos continuou explicando, para que nada saísse do tom que ele queria. Que nada saísse do seu tom, sempre generoso. No dia anterior, já havia feito mais um adendo em outra ligação: "Queria frisar que, infelizmente, eu sou uma exceção quando digo que hoje não sofro preconceito." Mas já sofreu "ou por abordagem de policial, ou um olhar estranho ou uma oportunidade que me era negada que eu sentia de alguma maneira que a cor da minha pele influenciou...", enumera. Desde muito cedo Lázaro aprendeu a se defender. Cresceu ouvindo dos pais que era capaz, que era bonito. E depois entrou para o Bando de Teatro Olodum, grupo que tem um discurso positivo e que acabou por formar sua personalidade. Por isso, todas as vezes que o preconceito se colocou na sua frente, se defendeu porque sempre soube que tem direito de ser bem tratado.Quando criança, Milton Gonçalves era um dos poucos atores negros nos quais podia se espelhar. Hoje, diz, esse cenário está mudando. "Os autores começaram a perceber que o público gosta de história com negros, vide da Da Cor do Pecado, Cobras e Lagartos, Cidade de Deus...", diz. Além da quantidade, Lázaro acredita que os personagens interpretados por negros estão, aos poucos, saindo da nulidade. Duas Caras é um exemplo, com atores negros em papéis de relevância. "Às vezes a inserção de atores negros ou fica na nulidade total ou na subalternidade ou o pessoal vai para o lado da perfeição. E, para ser humano, é preciso ter defeitos." Na infância, quando via TV, se apegava a esses poucos papéis de relevância e abstraía os outros pois esses, diz, não tinham eco na sua vida.Evilásio é capaz de fazer eco. Podemos dizer que qualquer papel feito por Lázaro é capaz de fazer eco. "O Evilásio passa pelo estereótipo de negro e pobre, mas não estaciona lá. E acho porque há um desejo meu de dar um depoimento assim", diz. "Estereótipo não é um lugar para ninguém ficar, a gente tem que estar em movimento o tempo todo, a gente tem que estar sempre vivendo vários estereótipos. E é esse movimento da vida e essa reflexão que eu tento fazer como ator", conclui. E consegue. Basta estar na tela.

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