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'Os Dez Mandamentos' chega ao fim, mas já mira 2ª temporada

Novela da Record trouxe dor de cabeça para a audiência da Globo

Cristina Padiglione, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2015 | 05h00

Para alívio da Globo, chega ao fim nesta segunda-feira a novela Os Dez Mandamentos, da Record. Ou não. É esperada para março um epílogo da saga de Moisés, precedendo a continuação da história que virá em outra novela, batizada como A Terra Prometida, com Josué em foco. Até lá, a Record tentará manter aceso algum apetite do público por temas bíblicos, por meio da reprise de minisséries antigas. É especialmente a essa falta de planejamento que a Globo deve agradecer: se a rede de Edir Macedo tivesse percebido, já em março, que a adaptação de Vivian de Oliveira faria tamanho estrago na concorrência, atingindo a Globo de modo inédito em seus produtos mais caros, certamente teria iniciado desde então uma projeção para tocar adiante o tour de Moisés. Mas esse plano veio fora do prazo para que Moisés passe o bastão a Josué, sem intervalo.

Ainda assim, a Record tem muito a celebrar. Nunca antes na história da Globo, de 1970 para cá, alguém ousou tomar a hegemonia dos programas de intervalos mais caros da TV, a saber, o Jornal Nacional e a novela das 9 (antes das 8). Pantanal, novela da extinta TV Manchete, venceu a Globo com vantagem maior, em 1990, mas sempre fugindo do embate direto com a então novela das 9, Rainha da Sucata. Os Dez Mandamentos venceu o JN e o confronto com A Regra do Jogo por uma semana nas principais praças do País e por meses inteiros em metrópoles como Recife e Belém. Desde março, quando a novela estreou, a Record, no horário da novela, saltou de 12 para mais de 20 pontos na Grande São Paulo, principal praça de investimentos publicitários do País, chegando a 28,1 pontos (ante 20,8 da Globo, no horário) em 10 de novembro, quando o Mar Vermelhos se abriu. No Rio, o episódio levou a Record a abocanhar quase metade dos domicílios com TVs ligadas. O Painel Nacional de TV (PNT) do Ibope, que soma 15 regiões brasileiras, apontou que 6,23 milhões de lares estavam de olho nas peripécias de Moisés naquele dia.

Mas, afinal, o que faz com que a história do sujeito que abre o Mar Vermelho para salvar todo um povo, conhecida há milhares de anos e cujo final já é sabido, cative tanta gente? Autora de alguns dos sucessos bíblicos da Record, incluindo Dez Mandamentos, Vivian de Oliveira arrisca dizer que não basta beber no Livro Sagrado. É preciso se despir do preconceito intelectual que, em boa parte das vezes, leva os roteiristas do gênero a se debruçar sobre enredos bíblicos, colocando a racionalidade na frente da fé.

Esse teria sido, a seu ver, o erro de grandes produções hollywoodianas recentes, como Êxodo e Noé, ambos de bilheterias frustrantes para o tamanho de seus investimentos. “Querem explicar o fenômeno cientificamente, com medo de valorizar o fantástico, o aspecto mágico. Quando está ali na Bíblia que o mar se abriu, e as pessoas adoram essa passagem – é o que elas escutavam desde criancinhas –, preservo o que está na Bíblia, as pessoas não ficam questionando aquilo e eu também não vou questionar”, diz ela, em entrevista ao Estado, por telefone.

“Na minha visão, além de quererem explicar os efeitos e não apostar no mágico, a visão deles é de que Deus é vingativo. Se você ler a Bíblia sem fundamento, pode até achar isso, mas, se entende que o Antigo Testamento é a ponta para o Novo, que era um tempo bárbaro, outro contexto, a leitura é outra. Quando não se estuda isso a fundo, fica tudo muito raso, isso contribui para o fracasso da narrativa. Deus tem que ser visto pela visão dos personagens, senão, não dá certo, até porque é uma história muito conhecida e presente na memória das pessoas.”

Criada em família cristã, seguidora da Igreja Batista, Vivian tinha conhecimentos básicos sobre a Bíblia, até ser convidada pela Record a criar uma minissérie sobre A História de Esther. Foi o primeiro título bíblico em que a emissora apostou. Àquela altura, ela já escrevia ficção para a Record, como colaboradora de Tiago Santiago, autor que fez lá boa audiência com Os Mutantes, produzida entre 2008 e 2009, tendo recomendado o trabalho da moça à direção da casa. “Eu já frequentava a igreja, lia a Bíblia, isso ajuda muito, tenho respeito pelo assunto. Acho mais difícil escrever só do ponto de vista intelectual, mas aprendi a estudar mais. Se tem uma coisa que não é esclarecida pelo Antigo Testamento, vou no Novo, ou vou no original, em hebraico”.

Para tanto, Vivian conta com uma consultora, Marcela Castor, que lhe ajuda a pesquisar a palavra na matriz. Aos bons conhecedores da história, deve causar espanto, portanto, que, mesmo com tanto conhecimento sobre o assunto, tenhamos um Moisés tão jovem. Se nas páginas originais ele é apresentado com 80 anos, na novela, a imagem de seu intérprete, Guilherme Winter, que tem 36 anos de idade, não aparenta mais que 40. “Temos também as nossas licenças poéticas. Ficaria muito difícil gravar com alguém de 80 anos”, ela explica, em razão da logística de produção exigida por uma telenovela. Vivian também se permitiu criar uma série de personagens fictícios, alguns com mais espaço que um mero coadjuvante, caso da vilã Yunet (Adriana Garambone).

Por falar em maldade, uma das teses para o sucesso de Os Dez Mandamentos seria o escapismo do público. Segundo essa vertente, o telespectador estaria exausto de tanta desgraça e escândalos vistos nos telejornais e reproduzidos em novelas realistas contemporâneas – como Babilônia e A Regra do Jogo –, e estaria optando por embarcar em um reino distante, onde o figurino dos personagens remete a uma festa à fantasia e os efeitos especiais produzem tsunamis salvadoras. “Acho que teve uma época, quando Vale Tudo (1989) foi sucesso, em que a novidade era mostrar na TV o que era realidade, mas as pessoas estão um pouco cansadas de mostrar tudo muito cru”, arrisca Vivian.

Não é por acidente que a Globo resolve agora dar um tempo ao cenário urbano contemporâneo na novela das 9, ao trazer Benedito Ruy Barbosa de volta ao horário, com Velho Chico (originalmente criada para as 18h), uma saga familiar nas cercanias do Rio São Francisco. E a história se repete: 25 anos depois de Pantanal, quando abriu a novela das 9 ao gênero rural pela primeira vez, impulsionada pelo sucesso da concorrência, a Globo volta a recorrer à fórmula de Pantanal, do mesmo autor de Velho Chico, para tentar fechar o mar aberto pela concorrência.

 

LUTAS MEMORÁVEIS

 

Pantanal - 1990

A TV Manchete esperava pelo fim do capítulo da novela da Globo para colocar a sua produção no ar. A Globo passou então a espichar os capítulos da Rainha da Sucata, mas, mesmo exibida mais tarde, Pantanal vencia a Globo com folga, chegando a ter o dobro da audiência (40 X 20) em SP.

Carrossel - 1991/92

Versão mexicana exibida pelo SBT abocanhou boa fatia da audiência do Jornal Nacional e da novela O Dono do Mundo, mas não vencia a Globo.

Casa dos Artistas - 2001

Após quase assinar com a Endemol para produzir no Brasil o Big Brother, Silvio Santos montou na surdina uma versão idêntica, com artistas, e passou a vencer o Fantástico. O caso foi parar na Justiça.

 

Saldo das Dez Pragas e do Mar Vermelho

12 pontos de média de audiência marcava ‘Os Dez Mandamentos’ na Grande São Paulo, em março, quando estreou. A troca de ‘Babilônia’ por ‘A Regra do Jogo’ coincidiu com o início das pragas.

20 pontos foi o patamar alcançado antes mesmo que o Mar Vermelho se abrisse, batendo todos os recordes da Record. Pela 1ª vez na história, o ‘Jornal Nacional’ e a novela das 9 foram vencidos.

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