Bruna Lombardi acaba de fazer workshop de Cosmologia, em Tulum, na Riviera Maia. Para aprofundar seus conhecimentos em... física. Isso mesmo. Física. Ao lado do marido, Carlos Alberto Riccelli, a atriz tem se especializado no tema. Por quê? Novo filme? "Não, é que gosto do assunto", explica. O casal faz quase tudo junto. Ricelli é marido, companheiro, colega de profissão e pai de Kim. Que, ‘por acaso’, também é ator. "Incentivamos ele a buscar seu caminho e Kinzinho escolheu o mesmo que o nosso", jura Bruna.

05 de dezembro de 2011 | 00h06

 

Nem bem lançou Onde Está a Felicidade?, a atriz, escritora e produtora já prepara novo roteiro. "Vou filmar São Paulo. Apesar de ser uma cidade dura, todo mundo que mora aqui gosta. É um lugar vibrante, intenso, feito pela força do trabalho de cada um. Meus filmes têm a pretensão de fazer o espectador se sentir bem". Aliás, é nesta tecla que Bruna tem batido. "Quero deixar as pessoas felizes". Por se considerar privilegiada, acredita que chegou o momento da vida de retribuir. "Só posso fazer isso por meio do meu trabalho", diz, resgatando frase de Gandhi: "A gente tem de ser a mudança que quer no mundo".

 

Um filme como Onde Está a Felicidade? custa entre R$ 8 milhões e R$ 10 milhões. Se eles acharam a tal felicidade? "Essa é uma pergunta ótima. A gente até brincava no set: o bom é se divertir enquanto procuramos..." A seguir, os melhores momentos da conversa.

 

O que você acha do momento do Brasil, da Dilma?

 

Adoro. Não existe país sem problemas, nunca vai existir. Desde que me conheço por pessoa, desde minha luta nas Diretas, na Anistia, já subi em palanque dando a mão, de um lado pro Lula, do outro pro Fernando Henrique. Eu sei o que a gente viveu no período da ditadura. Não se noticiava nada. Hoje todo mundo fala: "Nossa, quanto escândalo". Mas, e quando os escândalos viravam receitas de bolo? Não podiam nem ser comentados. A gente precisa ter essa memória, memória da censura. A gente deu um grande salto qualitativo. Hoje, vivemos em um Brasil em que os escândalos afloram, e isso é um grande passo no processo. O próximo passo? Acabar com a impunidade. Sonho também em ver dois pilares instituídos no País: educação e saúde. Quando a gente tiver educação e saúde fortes... porque o Brasil botou comida na mesa. Desde Fernando Henrique, depois Lula e agora Dilma, você vê um país que come, um país que está conseguindo alimentar os brasileiros. Quando se compara com outros países, a gente vê que belo caminho o Brasil andou. Mas faltam educação e saúde. A partir do momento em que esses dois pilares forem fortes, aí teremos uma nação.

 

Com essa notoriedade que você tem, por ser atriz, fica mais fácil contribuir. Você sempre foi engajada politicamente.

 

Sempre. Mas em causa independente nunca fiz política partidária, nunca vou fazer. Acho que qualquer ação que a gente faz na vida é política. Por exemplo: na hora que você luta para que o lixo seja reciclado (pode ser na sua casa, no seu bairro, na sua comunidade ou no País inteiro). Se você tem a possibilidade de falar isso no Programa do Jô, como eu tive, isso já é um ato político. Outro exemplo? Recentemente, gravamos um vídeo sobre o Código Florestal. São pequenas contribuições por causas que a gente crê fundamentais. Eu acho que o Brasil tem de mudar seus valores; no momento em que a gente conseguir mudar os valores, mudar a impunidade, a justiça... Fiquei muito surpresa ao ver novos dirigentes brasileiros, eu não tinha ideia de que existiam esses caras novos, com essa mentalidade. Sabe, eu acredito nesses caras, acredito que eles queiram de fato, porque não dá para não querer.

 

Tem fé no ser humano?

 

Acredito, acredito mesmo! A maior parte das pessoas é do bem, não é do mal. Tenho uma foto emblemática, que me arrepiou de ponta a ponta, pregada na minha mesa. É de uma mulher na Somália, depois de um ataque terrorista. Ela está cercada por corpos semicarbonizados, um panorama de absoluta destruição. Está de costas, carregando um balde de água para jogar nos corpos em chamas, para diminuir a dor daquelas pessoas. Isso mostra que o bem prevalece, independentemente dos ataques do mal, violentos e ferozes. Eu acredito nisso. Se não acreditasse, não teria forças para sobreviver.

 

O que deve mudar no Brasil para melhorar o mercado de audiovisual?

 

Tinha de haver um extraordinário aumento no número de salas de cinema. Para você ter uma ideia, o Brasil tem menos salas de cinemas do que a cidade de Buenos Aires. É um absurdo. Por causa disso, quando um bom filme entra em cartaz, rapidamente começa a ficar espremido, disputando espaço - com sessões solitárias no meio do dia, por exemplo. Por falta de salas, a gente acaba não recebendo muitos filmes do cinema independente. Quem tem espaço mesmo são os blockbusters. Só que o bom cinema também é feito de filmes independentes americanos, iranianos, franceses, chineses, enfim, do mundo inteiro. Por isso eu acho que temos de investir em mais salas.

 

Mas o DVD não veio para acabar com o cinema?

 

Pelo contrário. Porque a experiência de uma sala de cinema, aquele mundo mágico, onde você se entrega e é transportado, aquilo não tem substituto. Assistir à TV é completamente diferente de se assistir a um filme na tela grande. A gente quer formar uma indústria de cinema no Brasil, ou seja, queremos profissionais vivendo de cinema - técnicos, equipes, atores, tudo. Para isso, é preciso haver produção. E o dinheiro arrecadado com os filmes que vêm de fora ajuda muito, sou super a favor do cinema estrangeiro. Só que ingresso para filme brasileiro custa o mesmo que ingresso para filme americano. E a produção no Brasil é muito mais difícil.

 

O que acha da polêmica da meia-entrada?

 

Difícil de resolver. Quando a gente lançou o Cine da Cidade, em 25 de janeiro, colocamos os ingressos a R$ 1. A gente perdeu dinheiro, porque queria um filme ao qual as pessoas tivessem acesso. Todas as sessões lotaram. Era um desejo. Também sempre fazemos sessão grátis para professores, deficientes.., a gente tem uma porção de ações desse tipo.

 

E o retorno financeiro, para poder financiar o próximo filme? Como é que faz?

 

Aí é que está. No fundo, o que é a meia-entrada? Algum subsídio para o produtor, que é quem mais rala e o que menos ganha. Essa é uma questão grande, uma questão na qual muita gente vem pensando. Porque é preciso garantir a sustentabilidade do negócio.

 

Que precauções você tomou para que Onde Está a Felicidade? não fosse pirateado?

 

A Fox foi hiper-rígida. Parece que deu certo. No caso de O Signo da Cidade, por exemplo, no dia em que estreou nos cinemas já havia DVD pirata nas banquinhas de rua. Eu tenho uma coisa dentro de mim... minha sócia fica brava, porque eu falo: "Ah, deixa piratear. É mais gente vendo, que não pode pagar". É um lado romântico... eu não sou a pessoa mais prática do mundo. No que diz respeito a finanças, por exemplo. Nem sou boa de matemática.

 

E o Riccelli é?

 

Não, também não. A gente é meio fraco nesse ponto, sabe? Um exemplo bom do que eu estou falando é a iniciativa do Radiohead, que botou uma música na internet para todo mundo baixar e ouvir. Na base do "quem quiser pode doar algum dinheiro". Esse é o tipo de iniciativa que eu gosto. Se pudesse fazer isso, se fosse mecenas de mim mesma, teria uma sala de cinema onde o filme pudesse ser visto gratuitamente. E as pessoas deixariam doações na porta, se gostassem.

 

Você e o Riccelli dividem a vida entre Brasil e Los Angeles. Por que optaram por isso?

 

Fui pra lá estudar roteiro, justamente o que estou fazendo hoje. A gente queria crescer mais, aprender mais, aquela coisa de curiosidade, mesmo, sabe? E se tornou algo nosso. A gente divide o tempo, precisa fazer uns malabarismos, tem mais avião... mas aprendi a ser mais organizada, porque sem organização é impossível manter esse dia-a-dia.

 

Você e seu marido são atores e produtores. Há competição?

 

A gente tem a mesma profissão desde que se conheceu, desde o começo da relação. Acho que não é preciso estar no mesmo ramo para que haja competição entre marido e mulher. Porque um casal briga por qualquer motivo, da pasta de dente à natureza humana. Mas, no nosso caso, tomamos uma decisão há muito tempo. Pensar no todo, no que é preciso fazer para conquistar um resultado que seja o melhor possível. É um exercício diário. Pensamos sempre em fazer, de fato, o que é melhor para "o grupo". E o grupo pode ser o casal, os filhos, os amigos, enfim. Agora, imagine quando esse grupo é uma equipe de cinema, 300 pessoas no set... O meu poder não está mais em jogo, nem o poder do meu marido ou de qualquer um envolvido. O que está em jogo é o que é melhor para o filme, porque cada minuto de produção custa uma fortuna. Graças a esse treino de muitos anos, a gente consegue deixar o ego de lado. Um tem de respeitar a inteligência e a competência do outro. Não que a gente não erre. Mas o objetivo é errar menos.

 

Houve algum momento de "olha, a gente não está chegando a um acordo, então é melhor cada um seguir seu caminho"?

 

Não. Mas, claro, fomos crescendo juntos. Muita coisa na nossa relação a gente construiu tijolinho por tijolinho. Fomos moldando essa base. Se é sólida, impossível dizer. Nada é sólido, né? Amanhã a gente pode estar em outra, completamente diferente. Cada um apaixonado por outro. Por isso eu não sedimento nada na vida. Porque acho que a vida é uma coisa leve, tem dinâmica própria, carrega incerteza. E talvez seja essa a beleza. Porque ninguém quer uma âncora. Eu não quero, ele também não. No nosso caso, muitas vezes, o bom senso vem de uma terceira pessoa, o Kim (filho de Bruna e Riccelli, também ator, de 30 anos). Ele nasceu com um bom senso que não sei de onde veio. Porque eu não tinha esse bom senso todo, tive de lutar para desenvolver. Mas o Kim é muito sábio. Tanto que, quando eu e o Ri brigamos, muitas vezes é ele que vem com o discernimento. O Kim ajuda a gente pra caramba - a enxergar e a pensar. Respeitamos muito a opinião dele.

 

Tanto o ator quanto o escritor têm de se "despir" para incorporar as características de um personagem. Como lida com isso?

 

É bem esquizofrênico. Eu brinco muito com isso, pergunto "será, meu Deus, que tenho tanta pessoa dentro de mim?". Ao mesmo tempo, quando você está trabalhando, em primeiro lugar precisa ser muito fiel a cada uma das vozes que cria, porque elas se tornam pessoas independentes. E eu fico louca para seguir todas, entendeu? Elas passam a ter vida própria, fazem o que querem. Uma coisa de que eu gosto muito é observar como cada personagem pensa de um jeito, age de um jeito, fala de um jeito. E você tem de descobrir todos eles ou esperar até que se descubram para você. Muitas vezes, o autor "trai" um personagem para servir à trama e facilitar o roteiro. O mais complicado é deixar um personagem solto, segui-lo e fazer a trama ir atrás dele também.

 

Como é a escolha dos personagens para um filme?

 

É uma logística interna louca. Você precisa estar muito centrada em algo dentro de você, porque terá de se colocar na pele daquelas criaturas. Acho que o autor, principalmente aquele que trabalha com muitos personagens, é um ator pra dentro. Porque tudo que ele cria ganha vida dentro dele. E todos nós, naturalmente, desempenhamos muitos papéis na vida: profissional, social, de mãe, de filha, irmã, amante. E a administração de tantas vidas é a grande dificuldade. Além disso, estamos sempre em movimento, não somos água. Ontem não é como hoje, que não é como amanhã.

 

E quando acaba? Como você faz para se recompor, pegar de volta todos os pedaços espalhados pelos seus personagens?

 

Tem uma fragmentação, sim, um super quebra-cabeça. Porque o personagem... ele muda você. E acho que essa é uma coisa boa também, tem seu lado positivo. A gente aprende com cada personagem. Eu, por exemplo, não consigo trabalhar no piloto automático. Sempre mergulho de cabeça.

Você acredita em reencarnação, outras vidas? É católica, apostólica, budista?

 

Eu sou tudo. Acho o budismo o máximo, mas compreendo todas as religiões, respeito todos os rituais. E crio meus próprios rituais. Já estudei cabala, sou muito curiosa. Sou assim: ando até ali, depois falo "deixa eu ver o que tem depois daquela curva". Vivo em uma busca incessante. Mas estou aqui para isso, então me deixo ir. Ao mesmo tempo, tenho um sentido de fé permanente dentro de mim, que me dá a sensação de estar neste mundo por uma causa maior. A maturidade me fez mudar a pergunta: "o que eu quero da vida?" se tornou "o que a vida quer de mim?".

 

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