Jairo Goldflus
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O que faz um showrunner? Cargo de Ingrid Guimarães é decisivo nos EUA

Contratada da Amazon Prime é considerada primeira mulher a ocupar função em uma grande corporação no Brasil

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

04 de outubro de 2021 | 05h00

O showrunner é uma figura conhecida da televisão americana – a revista Variety começou a usar o termo pela primeira vez em 1992. Mas foi lá nos anos 1970 que a TV se tornou o veículo do roteirista, deixando de ser apenas um produto totalmente controlado pelos estúdios. Os escritores ganharam autonomia e passaram a ter contratos fixos em séries como The Mary Tyler Moore Show. Em algum momento da década seguinte, nasceu o misto de roteirista e produtor executivo, responsável por gerenciar a sala de roteiristas, os rumos e o tom da história, a escolha do elenco e dos diretores dos episódios, o orçamento. Ele ou ela comanda a série, ou “runs the show”. Daí showrunner. 

Essa pessoa – às vezes, mais de uma – é quem leva a culpa pelo fracasso ou é elogiada pelo sucesso. The Walking Dead, por exemplo, cuja 11ª temporada está no ar no Brasil no Star+, começou com Frank Darabont, demitido logo após o primeiro ano por causa de seu comportamento no set. Glen Mazzara assumiu o comando na segunda e terceira temporadas, períodos de grande crescimento. Scott M. Gimple ocupou a posição entre a quarta e a oitava temporadas. Foram dele decisões polêmicas, como o assassinato brutal de Glenn (Steve Yeun), que muita gente achou ter passado dos limites e derrubou a audiência, e a morte de Carl (Chandler Riggs), que gerou uma petição dos fãs para removê-lo do cargo. A partir do ano seguinte, Gimple foi substituído por Angela Kang. Ela fica como showrunner até o encerramento desta temporada, que será a final.

Nas últimas décadas, os showrunners ganharam tanta fama quanto os diretores no cinema. Os espectadores seguem os seus favoritos, seja Vince Gilligan (de Breaking Bad e Better Call Saul), Damon Lindelof (Lost, The Leftovers, Watchmen), Noah Hawley (Fargo, Legion) ou Robert e Michelle King (The Good Fight, Evil). Por isso a Netflix começou a contratar alguns deles a peso de ouro, seja Shonda Rhimes, com contrato de quatro anos estimado em US$ 100 milhões, ou Ryan Murphy, que tem contrato de cinco anos estimado em US$ 300 milhões. 

Mas há quem esteja tentando subverter o modelo. Em algumas séries recentes, o diretor teve bastante poder. Cary Joji Fukunaga entrou em conflito com o criador e roteirista de True Detective, Nic Pizzolatto, na primeira temporada. O primeiro ano de Big Little Lies era de Jean-Marc Vallée tanto quanto do criador e roteirista David E. Kelley. No caso do Estúdio Marvel, que começou a produzir suas próprias séries, com títulos como WandaVision, Loki e Falcão e o Soldado Invernal, não existe showrunner, apenas roteirista-chefe – o showrunner, afinal, é o próprio Kevin Feige, que sempre tratou os filmes como uma série de televisão, com episódios conectados. Os diretores participam muito mais da criação e edição do que os próprios roteiristas. 

Há uma preocupação geral de que isso pode ser ruim para a televisão, que funciona bem no modelo atual. Muitos dos melhores roteiristas dificilmente se submeteriam a tal esquema. Então, por enquanto, o showrunner continua sendo rei – ou rainha.

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