O peso de uma recusa

Algumas histórias poderiam ter sido diferentes se estes atores tivessem dito ?sim?

Keila Jimenez, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2008 | 14h43

Juvenal Antena foi feito sob medida para Antonio Fagundes. Camila Pitanga nasceu para ser a desavergonhada Bebel, assim como Gabriela não poderia ter sua jambice em outra pessoa que não fosse Sônia Braga. Epa, epa, epa, como diz o líder da Portelinha.Por mais que seja impossível imaginar outro ator dando vida a esses papéis, seus verdadeiros donos eram outros. Juvenal, de Duas Caras, foi oferecido primeiramente para José Mayer, a musa de "catiguria" de Paraíso Tropical era para ter os olhos azuis de Mariana Ximenes e quem deveria ter subido no telhado para entrar para a história da teledramaturgia era Gal Costa. Sim, a personagem de Jorge Amado foi oferecida na TV antes à cantora. E eles disseram "não".Entre as desculpas para os "nãos" dos atores estão o excesso de exposição, convites para teatro e cinema, fuga de personagens similares, férias ou simplesmente rusgas com elenco, diretores... "É complicado recusar um personagem como Juvenal, mas toda decisão artística tem grande coeficiente de intuição. Portanto nunca há segurança", fala José Mayer, que abriu mão do rei da favela das 9 para fazer teatro. "Mas o Fagundes está fazendo um trabalho brilhante, talvez completamente diferente do que eu faria", reverencia o ator, sem esconder a pontinha de arrependimento.Mais difícil ainda foram os "nãos" dados por Mariana Ximenes. Recusas, no plural, pois a bela dispensou três papéis de destaque, na seqüência: além de Bebel, a atriz passou adiante a protagonista e a antagonista de Duas Caras, Silvia e Maria Paula."Se você toma decisões, faz renúncias.Não dá tempo de se arrepender", justifica Mariana, que alegou excesso de exposição e necessidade de férias para os autores. "O Gilberto (Braga, autor de Paraíso) é a pessoa com quem mais quero trabalhar na vida. Mas pensei que se pegasse esse trabalho (Bebel), que era importante, talvez não conseguisse render tanto quanto poderia. Foi a pior decisão da minha vida", admite a atriz, que aceitou agora voltar ao ar como a protagonista da próxima trama das 9, Juízo Final.PERDÃO Para os autores, a rejeição nem sempre é fácil de aceitar. Mas eles garantem que costumam perdoar. Lauro César Muniz vai mais longe e conta que perdoou a mais dura das rejeições. "Quando assumi a novela O Bofe, José Wilker me pediu para afastá-lo porque julgou que a novela perderia na minha mão o tom fantástico", diz. "Mas não guardo rancor, tanto que trabalhei com ele outras vezes."Já Alexandre Machado, autor de Os Normais, diz que, se o motivo para a recusa soar falso, as portas estarão fechadas para sempre. "Se é uma recusa cretina, nunca mais vou querer trabalhar com aquela pessoa na vida. Já um 'não' elegante tem seu valor."

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