O nível que abaixa é o que levanta a audiência

A julgar pelo movimento da minha caixa postal esta semana, fãs de programas do gênero baixaria não lêem jornal. Ou, numa escala mais modesta, não lêem esta coluna. Pelo jeito, eles não desgrudam da TV nem mesmo para enviar um e-mail desancando quem ataca seu programa favorito. Só recebi mensagens de quem concordava comigo - mesmo de um senhor que me chamou de leviano e desinformado, por defender o uso do controle remoto contra os programas de baixo nível na televisão. O Ibope, entretanto, cuidou de sepultar as esperanças de quem crê na existência de vida inteligente nos estúdios televisivos. A audiência daquele reality show começou a subir! Ao mesmo tempo, os números da melhor novela em cartaz na Rede Globo - Desejo Proibido, às 18 horas - mostram que o público foge de Passaperto, a cidade fictícia da trama. Dá pra entender? O mesmo programa que leva os indignados a chorarem sob a saia do Ministério Público entra em rota ascendente de ibope, para alegria de patrocinadores e siliconadas em geral. Cadê os indignados, que não ligam a TV na hora dos "bons" programas? Ninguém também veio a público aplaudir a iniciativa do autor Walcyr Carrasco e sua equipe. Esta semana, uma boa seqüência de cenas da novela Sete Pecados mostrava uma palestra sobre aids. Tudo ali merece elogios: os atores estavam bem e o texto foi preciso, deu nome aos bois e explicou tudo de forma muito clara. Elogio público, nenhum. E se alguém disser que Walcyr não fez mais que a obrigação, vamos convocar Glorinha Khalil para uma rápida aula de etiqueta e gentileza. Talvez o pecado - sem trocadilho - de Walcyr esteja na camisa-de-força do chamado momento educativo em novela. Pode ser vício do tempo em que as tramas só cuidavam de empurrar a mocinha pra cama do mocinho. Mas toda vez que vai passar uma mensagem séria, a novela escorrega na sisudez e, às vezes, fica chata. Não foi o caso, mas de todo modo, foi uma "cena séria". Por que não tentar descobrir um meio de passar as mesmas boas mensagens de maneira lúdica? Será por que o telespectador não leva a sério as entrelinhas de uma cena humorada? Isso leva a uma questão delicada. Até que ponto a baixaria na TV não corresponde justamente ao desejo (oculto) do público? Essa é pra pensar durante a lasanha. e-mail: mvianinha@hotmail.com

Mário Viana, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2008 | 00h29

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