Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

O médico de roteiros de Hollywood

Em curso no Rio, o norte-americano Robert McKee dá lições a autores brasileiros e diz que o futuro está na TV

João Fernando/Rio, O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2014 | 02h10

Enquanto cariocas e turistas de sunga e biquíni caminhavam em direção à Praia de Copacabana, no último domingo, de típico calor de verão do Rio, um grupo de 350 criadores de programas de TV, atores e diretores, munidos de casacos (para enfrentar o ar-condicionado), do outro lado da rua, entravam em um hotel da orla para a última etapa de uma maratona de quatro dias de aulas, que começavam às 9h e iam até 20h30. Visivelmente cansados, o artistas tinham ânimo para ouvir cada frase do mentor Robert McKee.

Chamado de médico de roteiros de Hollywood, o norte-americano de 73 anos é responsável por consertar textos que, depois de liberados, tornam-se produções vencedoras de dezenas de troféus. Só no Oscar, seus alunos já ganharam 60 estatuetas. De volta ao Brasil, ele foi recrutado para continuar o Programa Globosat de Roteiristas, em que autores das atrações da programadora recebem treinamento para desenvolver novidades que os canais da casa precisam para cumprir a lei da TV paga, que obriga as emissoras a ter conteúdo nacional.

"Hoje é o final da nossa jornada. Quem foi o filho d... que fez esse cronograma? Eu jamais faria esse seminário, é muito desagradável", brinca ele, que passa 90% do tempo falando de pé. Desta vez, ele veio dar o seminário Genre, em que, a cada dia, fala sobre as diferentes vertentes do cinema, dividindo em suspense, comédia e romance. Para o último, ele preparou uma aula sobre TV, com foco nas séries, que ele fez pela primeira vez. "Não tenho ideia de como será. Talvez eu termine às 14 h. Vou tentar", avisa. A cada duas horas, há um intervalo de 20 minutos regado a café e comidinhas, cujas mesas são atacadas pelos alunos, que têm direito a 80 minutos de almoço.

De olho no mercado crescente das séries, ele elogia a TV. "Alguns acham que TV não é uma forma de arte. É o futuro", sentencia. No salão em silêncio, poucos bocejam e a maioria anota o que ouve pela boca dele ou pela tradução simultânea.

Celulares são proibidos. Entretanto, um toque com som de mola de desenho animado interrompe. "Isso é o seu celular? Espero que você escreva comédia", diverte-se McKee, olhando para a plateia, sem saber quem foi o culpado. "No primeiro dia, ele disse brincando que quem atendesse teria de pagar R$ 50", relembra atriz Alessandra Colasanti, que desviou a atenção de todos ao dar um grito na aula. Ela havia se assustado com a colega Bianca Comparato, que passara por trás de sua cadeira ao voltar do banheiro. "Fiquei com medo de ir (ao banheiro) nos outros dias. Meus amigos que já tinham feito o curso disseram que ele se desconcentrava quando alguém mexia a cadeira", contou ao Estado.

Com uma muleta, que usa desde que sofreu uma fratura ao cair do skate, o apresentador Cazé, da Band, levou seu kit. "Trago água e meus biscoitos amanteigados", entrega. A distração é inevitável. "De vez em quando, mando uns torpedos do celular", confessa. Do lado de fora da sala, há cadeiras diante de um telão para quem quer mais liberdade. "Aqui, posso responder e-mails, resolver as coisas", explica Jaqueline Vargas, roteirista de Sessão de Terapia.

Depois de algumas horas no ambiente refrigerado, McKee veste seu blazer, enfeitado com um broche com o logo dos jogos olímpicos do Rio. A caneca de café tem um desenho do Cristo Redentor. Do tablado, onde caminha pouco, ele prega que o personagem é um dos fatores mais importantes para o sucesso de uma série. "Você tem de entrar na mente do personagem, ver como se fosse ele, do ponto de vista dele", ensina.

Entre as lições, traça um perfil psicológico detalhado - com direito a gráfico - de Tony Soprano, protagonista de Os Sopranos, e explica quais as características que seduzem os telespectadores. O quarteto de mulheres de Sex and the City também ganha menção longa.

Robert McKee narra suas experiências e relembra o desespero ao ver a mãe hospitalizada. "Depois disso, voltei para minha aula de teatro e o professor falou para eu guardar aquilo, porque iria precisar." Em seguida, conta que também escreveu uma minissérie de época, que falava sobre Abraão. "Alguém viu? Não? Obrigado", disfarça.

*O repórter viajou a convite da programadora Globosat.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.