Pedro Saad
Pedro Saad

'O Mecanismo', nova série de Padilha sobre corrupção, estreia na Netflix

‘O Mecanismo’ aborda esquema de propinas que tomou conta do País; oito episódios são lançados nesta sexta, 23, no canal de streaming

Larry Rohter, The New York Times

23 Março 2018 | 06h00

Milhões de dólares foram saqueados dos cofres públicos. Dezenas de poderosos políticos e executivos milionários acusam-se mutuamente. Uma pequena, mas valente equipe de promotores e investigadores tenta levar os de colarinho branco aos tribunais.

O escândalo que ocorre no Brasil, e que é investigado por esse mesmo tipo de promotores em ações conhecidas como Operação Lava Jato, é tão perverso e espetacular quanto a novela mais extravagante inspirada nesse tipo de crime ou um episódio maquiavélico de House of Cards. Portanto, era quase inevitável que se transformasse em uma série da Netflix – do mesmo diretor que fez nada menos que Narcos para o serviço de streaming.

O resultado é O Mecanismo, oito episódios disponíveis a partir desta sexta, 23. Como a maioria de seus 200 milhões de compatriotas, o diretor e roteirista brasileiro José Padilha ficou estarrecido quando o escândalo degenerou em metástase partindo de uma simples investigação de lavagem de dinheiro em um posto de combustíveis em Brasília, até a crise nacional que ameaça os alicerces da quarta maior democracia do mundo.

O Mecanismo é o termo usado por Padilha para definir o esquema avassalador de corrupção e propinas que, afirma o diretor, passou a controlar a democracia no Brasil praticamente desde 1985, na volta do regime democrático no País, depois de 21 anos de ditadura militar. Ele e milhões de outros brasileiros acreditam que políticos, banqueiros, executivos e juízes criaram uma organização criminosa que vem roubando enormes somas do Estado, independentemente de quem esteja no poder.

“O mecanismo não tem qualquer ideologia e isso é fundamental”, afirmou Padilha. “A minha tese é que o esquema atua em todas as eleições, em todos os níveis de governo, no Brasil inteiro. As empreiteiras que são as grandes clientes do governo, em geral do ramo da construção, mas também os grandes bancos comerciais, encarregam-se de financiar os seus beneficiários, legalmente ou por meio de fundos secretos.”

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Praticamente todos os cerca de 20 partidos representados no Congresso brasileiro ficaram marcados pelo escândalo, que em breve entrará em seu quinto ano. Uma presidente sofreu impeachment; seu predecessor foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro; e o seu sucessor está sendo investigado por promotores e policiais reais como os retratados por Padilha.

“O País está destroçado, as famílias divididas, e amigos de toda uma vida brigam entre si. Escrever sobre tudo isso se torna um verdadeiro desafio”, afirmou Elena Soarez, autora do roteiro de O Mecanismo juntamente com Padilha. A série gira em torno de um personagem envolvido na lavagem de dinheiro e de dois investigadores, todos fictícios.

Ao longo de sua carreira, iniciada em 2002 com Ônibus 174, documentário baseado no sequestro do ônibus no Rio de Janeiro para mostrar como a justiça criminal do Brasil trata os pobres, Padilha focalizou a criminalidade, a justiça e a violência. Tanto em filmes como Tropa de Elite, que trata de grupos semelhantes à SWAT no Rio, quanto em sua nova versão de RoboCop, de 2014, ou em Narcos, a polícia é o elemento central de suas histórias.

“Para que o Estado se sustente, é preciso que exista uma força repressiva administrada e controlada por ele”, explicou. “Por isso, a polícia não é um detalhe, mas um elemento essencial em qualquer sociedade complexa. Ela oferece um vislumbre de todos os tipos de sistemas sociais, porque permanece fundamentalmente à margem, nas franjas da sociedade, onde as instituições se encontram.”

Em 7 Dias em Entebbe, seu novo filme há pouco lançado mundialmente, Padilha apresenta uma variação de alguns temas que levantou inicialmente em Ônibus 174, desta vez com a história do sequestro de um avião da Air France em sua rota de Tel-Aviv a Paris, em 1976, e obrigado a pousar em Uganda, então governada por Idi Amin.

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A crise de Entebbe foi solucionada com a incursão de comandos israelenses em um terminal do aeroporto e no resgate de mais de 100 reféns. “A operação foi bem-sucedida”, afirmou Padilha, “e serviu de justificativa para aqueles que pensavam que tudo pode ser resolvido pela violência”.

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