O legado cultural dos Simpsons, que chegam à 30ª temporada no Brasil

O legado cultural dos Simpsons, que chegam à 30ª temporada no Brasil

'Um marco na história da animação”, diz o cartunista Mauricio de Sousa; 'Uma família disfuncional, como quase todas', diz o psicanalista Christian Dunker

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2019 | 03h00

Homer, Marge, Bart, Lisa e Maggie: uma família americana comum de classe média que mora em Springfield, uma cidade interiorana sem nenhum grande diferencial, vive no limiar entre momentos de ternura e de ódio, entre tapas e beijos. Pensando dessa forma, a animação Os Simpsons não parece grande coisa, mas, nesta quinta-feira, estreia no Brasil sua 30.ª temporada, consolidando-se cada vez mais como a série de TV mais longeva da história – pelo menos ininterruptamente, sem contar com seriados como Doctor Who, que estreou em 1963, mas teve diversos períodos de hiato. 

Criado por Matt Groening, Os Simpsons foi ao ar pela primeira vez em 1987, no Tracey Ullman Show. Dois anos depois, ganhou um espaço próprio na Fox, completando 30 anos em atividade. Embora mantivessem a estética infantil com traços simples, característicos de desenhos dos anos 1950 e 1960, como as produções de Hanna Barbera, Os Simpsons foram pioneiros ao abrir espaço para o nicho de animações adultas. Apesar de caricatos, os personagens não eram completamente descolados da realidade, e aquelas situações poderiam muito bem ter sido encenadas em sitcoms – por coincidência, no mesmo ano estreava Seinfeld, que revolucionaria para sempre esse tipo de série humorística episódica, abrindo espaço para Friends, How I Met Your Mother, The Office e outras produções que têm muito em comum com Os Simpsons.

Calcado na representação de uma família disfuncional, o desenho não se limitou a exibir piadas visuais inofensivas, humor físico exagerado e extrapolações cartunescas da realidade: Os Simpsons sempre tomaram como linha mestra a crítica de costumes, o comentário social e um humor ácido em relação à sociedade americana. Sem esse desenho, talvez muitas das animações destinadas ao público adulto que existem hoje simplesmente poderiam nunca ter sido feitas. 

É o caso, por exemplo, de South Park, que estreou em 1997 no Comedy Central, tornando-se também uma das mais importantes séries animadas adultas da história, com 22 temporadas atualmente. Os Simpsons marcaram época, mas seu impacto não é sentido apenas na televisão, indo muito além como uma força cultural e até econômica. 

O idioma inglês, por exemplo, não passou incólume pelo fenômeno. Diversos neologismos criados na animação entraram em dicionários após terem ido ao ar no desenho. A palavra “Cromulent” (algo como “adequado”), utilizada pela primeira vez no episódio Lisa, a Iconoclasta, de 1996, e “Embiggen” (“aumentar”, em tradução livre), popularizada pelo mesmo capítulo, além da expressão “D’oh!”, eternizada por Homer Simpson, foram adicionadas ao Oxford English Dictionary, tornando-se palavras oficial do idioma. 

Existem poucos personagens semelhantes cuja presença na cultura pop se equipare à da família Simpsons. No Brasil, talvez o melhor paralelo que se pode traçar é com a Turma da Mônica, que surgiu 30 anos antes dos Simpsons, em 1959, nos quadrinhos, mas logo migrou para a TV e para várias outras mídias (seu filme com atores reais, Turma da Mônica: Laços, dirigido por Daniel Rezende, estreia no País em 27 de junho). “Os Simpsons são um marco na história da animação”, afirmou o cartunista Mauricio de Sousa por e-mail ao Estado. “Não necessariamente no estilo de desenho, mas com seus textos, tanto polêmicos quanto hilários. Uma sitcom bem elaborada e isso explica sua permanência na TV por tantos anos”, acrescenta ele.

Ao longo de 30 temporadas, Os Simpsons já estrelaram 662 episódios com, em média, 24 minutos cada um. Ou seja, assistir à série inteira demora mais de 260 horas, ou cerca de 11 dias ininterruptos. Cada episódio tem um custo de produção em torno de US$ 500 mil, totalizando US$ 331 milhões para todas as temporadas. 

No entanto, o retorno é certo: somente em 2008, no ano seguinte ao filme dos Simpsons, US$ 750 milhões foram consumidos em merchandising. Nas três décadas, mais de 500 empresas já licenciaram produtos dos personagens, desde o Burger King até o Corinthians. O custo de 30 segundos de comercial no intervalo dos Simpsons nos EUA, de acordo com uma pesquisa da Forbes, é de US$ 162 mil. 

Apesar disso, a audiência vem caindo consistentemente há anos. Enquanto a primeira temporada, em 1989, somava 27,8 milhões de espectadores em média, hoje em dia os Simpsons são exibidos para cerca de 4 milhões de pessoas.

Os Simpsons abriram espaço para que outras animações tratassem de temas mais maduros com a abordagem marcada pelo comentário social ácido. Dois anos depois da estreia da animação, Family Guy (traduzida no Brasil como Uma Família da Pesada), criada por Seth MacFarlane, passou a concorrer com Os Simpsons dentro da própria emissora. O desenho compartilha semelhanças temáticas e estéticas com seus primos amarelados, já que também acompanha o cotidiano de uma família comum americana, no entanto conta com um humor mais direto e agressivo.

Talvez o impacto mais claro dessa popularidade tenha sido sentido em 2001, quando o canal infantil Cartoon Network começou a exibir desenhos voltados para o público adulto nas madrugadas por meio do Adult Swim, aproveitando o nicho construído pelos Simpsons ao longo da década anterior. As atrações exibidas por esse canal alternativo, como Frango-Robô e Aqua Teen: O Esquadrão Força Total não raro descambavam para a violência explícita e o humor negro.

Mais recentemente, com o advento das plataformas de streaming, desenhos animados que visam a atingir um público adulto são cada vez mais comuns e diversificados, fugindo da dinâmica de sitcom e das temáticas do núcleo familiar instauradas pelos Simpsons, atingindo nichos específicos. BoJack Horseman mistura drama e comédia para tratar de temas densos como depressão e ansiedade; Rick and Morty utiliza elementos de ficção científica, como multiverso e viagens no tempo, de maneira bem-humorada para tratar da difícil relação de um neto pouco inteligente com seu avô, um gênio e cientista maluco; o recente e polêmico desenho brasileiro Super Drags narra as aventuras de três colegas de trabalho que se vestem de drag queens para combater o crime e o conservadorismo; e Gravity Falls é um relatório das férias dos irmãos gêmeos Dipper e Mabel na casa de seu tio-avô, em um pequeno vilarejo assombrado por forças sobrenaturais.

Séries com atores reais, ou live-action, também foram influenciadas pelos Simpsons. The Office, sitcom humorística que se passa em um ambiente corporativo e foi ao ar entre 2001 e 2003, criada por Ricky Gervais e Stephen Merchant, tem bastante inspiração no tipo de humor de Matt Groening. O cineasta Edgar Wright, diretor da adaptação do quadrinho Scott Pilgrim (2010) e do filme de ação musical Em Ritmo de Fuga (2017), dirigiu a série britânica de comédia Spaced entre 1999 e 2001, e já chegou a afirmar publicamente que sua ambição com o seriado era tentar fazer algo que se assemelhasse a uma versão live-action dos Simpsons.

'Os Simpsons são uma família disfuncional, como quase todas', diz Christian Dunker

Por que um desenho sobre uma família aparentemente normal ressoa na nossa psicologia?

Eu tenho um palpite na palavra que você escolheu para caracterizar os Simpsons, porque eles são uma família normal, mas extremamente disfuncional, como quase todas as famílias. Já dizia o Tolstoi: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.” Essa ideia de que é uma família reconhecível é importante para fisgar nossa identificação num primeiro plano, mas num segundo ela vai devolvendo pra gente como somos malucos, ridículos, nos deixamos levar por ideias infantis, desejos que nos extrapolam, monomanias.

Os Simpsons foram feitos sob medida para a sociedade americana, mas fazem bastante sucesso por aqui também. Eles dialogam de alguma maneira com a sociedade brasileira?

O que os Simpsons representam como crítica dos costumes para a sociedade americana, um pouco na linha de Desperate Housewives, sobre como pode ser asfixiante a vida em uma cidade pequena como Springfield, onde todo mundo se mete na vida alheia, há um controle social muito forte. Isso tem uma função para um americano médio que é diferente de como essa família é lida pelo brasileiro, filtrada pela ideia de que estamos também falando da relação que temos com os americanos, do que importamos de sua cultura. Em geral, para o brasileiro, há uma mistura de Hollywood, dos grandes ídolos, mas também olhamos para o americano como alguém ingênuo, que não suportar certas adversidades que o brasileiro absorve e que nos torna mais espertos e orientados para ler a maldade. 

Pelo fato de ser uma animação, nós aceitamos mais facilmente as situações apresentadas nos Simpsons?

Esse é um tema bem antigo na psicanálise. Freud fazia muitas analogias com o que, na época, era a caricatura. Para ele, a caricatura era a arte do superego, porque nos permite deformar, exagerar e, ao mesmo tempo, nos proteger da realidade da qual estamos nos aproximando. Pegamos um traço e o expandimos de tal maneira que possamos rir dele. Aquele traço que nos importuna, que é intolerável, se torna risível. Isso me parece muito funcional, explica um tanto do sucesso da série que, se fosse dizer o que diz numa chave mais realista, provavelmente causaria repúdio do nosso conservadorismo. Vamos imaginar na novela das 9 alguém dizendo que o casamento é o caixão e os filhos são os pregos. Seria um choque para nossa crença na família, nosso ideal de que a família deve ser respeitada. Mas se você faz isso sair pela boca de uma caricatura, você consegue assimilar essa verdade sem brigar com ela nem sentir que ela ofende seus valores.

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