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O instigante são os outros

Há 30 anos na vitrine das celebridades, Miguel Falabella usa experiência para criar série ambientada numa revista de fofocas

Patrícia Villalba, de O Estado de S. Paulo

27 de março de 2010 | 16h00

RIO - Embora adorem reclamar do assédio da imprensa, não é segredo que as celebridades vivem de aparecer. É um jogo em que um lado finge se esconder e outro finge perseguir, e que terá seu lado mais cômico desvendado por Miguel Falabella em A Vida Alheia. O seriado estreia na Globo no dia 8, às 23h.

 

Há 30 anos na vidraça dos famosos, Falabella nega que esteja preparando uma vingança contra a imprensa e os famigerados paparazzi. "É como hienas e leões nas savanas. Não há vilão nem mocinho", diz.

 

A cada semana, a série vai contar os bastidores de uma das matérias de capa da revista Vida Alheia, chefiada com mão de ferro pela jornalista Alberta Peçanha (Cláudia Jimenez), em clima O Diabo Veste Prada.

 

Condenado à morte por uma revista de fofocas há 20 anos, Falabella sentou na cadeira de Alberta "Peçonha" no cenário de Vida Alheia para conversar com o Estado. Na pauta, a própria imprensa.

 

A Vida Alheia é uma crítica às celebridades, à imprensa que vive delas ou às duas?

 

Ah, não há crítica. É um documentário, tipo National Geographic - leões e hienas (risos). Não tem vilão nem mocinho - às vezes, eles estão muito bem na savana, às vezes estão numa porrada violenta.

 

Mas, estando na vidraça, não é uma tentação querer se vingar?

 

Não tenho esse tipo de coisa, não é isso que me move. Mesmo porque tenho vários amigos na imprensa. E você chega num ponto em que não dá entrevista para todo mundo, apenas para quem você conhece e sabe que é bom repórter. Mas, honestamente, a série não vilaniza ninguém. Pelo contrário, ela mostra as coisas como elas são: o cara que precisa da divulgação e manda avisar à imprensa que vai estar em lugar tal. Na maioria das vezes, o escândalo parte da própria celebridade.

 

Você se inspirou em situações reais?

 

Não especificamente, mas convivo com isso a vida inteira, e tenho histórias maravilhosas. Na famosa história da Grazi (Massafera, de que ele não concordava com a escalação da atriz como protagonista de ‘Negócio da China’), ficavam falando "ah, ela é ex-BBB". E eu falei para uma repórter: "Meu amor, que horas são?" E ela: "Duas e meia". E eu: "Pois bem, ela está lá com o Cauã Raymond e você aí, com esse bloquinho na mão. Quem está melhor?" (risos)

 

Qual foi seu pior momento com a imprensa?

 

Eu fui morto, meu amor. A falecida (revista) Amiga me matou de aids! Você não sabe o que foi isso, há 20 anos. Botaram cartazes nas bancas assim: "Miguel Falabella" - em letras enormes - e bem pequeno "declara: ‘Não tenho’" - e então bem grande "aids". Daí, de longe, você só lia "Miguel Falabella" e "aids". Eu não podia sair na rua, teve loja que esvaziou quando eu entrei. Um dia, me ligou uma mulher da (revista) Manchete, dizendo que eu precisava desmentir. Fiz um exame de HIV, entreguei para a Manchete. Daí, botaram na capa o Laurinho (Corona), o Cazuza e eu. A chamada? "Os artistas e a aids".

 

Ah, não brinca...

 

Foi uma grande maldade, coisa mesmo para aniquilar. Uma pessoa mais fraca teria sucumbido. Se eu fosse apenas um ator de televisão, estaria muito mal. Ali, vi que eles são capazes de tudo.

 

Mas, apesar de você aparecer bastante na mídia, não sei nada sobre a sua vida pessoal, por exemplo.

 

Porque não me dou ao desfrute. Produzo tanto, que mostro o que eu sou através do meu trabalho. Ninguém precisa saber com quem eu transo. Senão, vou ter de fazer filme pornô.

 

Não é sacrifício, então, manter a vida pessoal preservada, como é para as celebridades que vivem reclamando do assédio?

 

Não é por aí. Não fiz uma carreira em cima disso. Esse universo é mais cruel para os ícones de beleza que, em última análise, são os que vendem. O julgamento moral vem daí.

 

Nessa máquina, o público entra em que ponto?

 

É uma discussão que temos na série, inclusive. Se você vende uma imagem de dinheiro e glamour, e de uma vida a que poucas pessoas têm acesso, então tem que pagar um preço. E o julgamento moral é o ônus.

 

Esse julgamento é feito pelo público ou ele é levado a julgar?

 

É levado a julgar, claro. O público é muito mais doido do que a gente pode imaginar. Mesmo porque se você não for uma pessoa que inspire fantasia, você é desinteressante. Se o público soubesse o quanto a nossa vida é ramerrame... O interesse é por imaginar que a gente faz surubas e tudo o mais.

 

Como falar de celebridades e sub-celebridades na Globo, que produz boa parte delas?

 

Acho que, de uns tempos para cá, a Globo tem uma postura muito aberta. Olhar para os próprios intestinos deixou de ser um tabu aqui dentro. A gente fala de tudo numa boa.

 

O que é pior: o ex-BBB, a ex-namorada de jogador de futebol ou a neo-atriz pornô?

 

Ah, eu gosto de todos! Gosto dessa coisa pop, o circo midiático me diverte muito. É preciso que se entenda que a televisão tem uma linguagem própria. Uma artista de televisão não precisa necessariamente ser uma boa atriz. Ela precisa ser uma boa artista de televisão. Os códigos são outros. Como a Alberta Peçanha diz: "Esse é um mercado pra gente bonita."

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