Quantrell D. Colbert/FX
Quantrell D. Colbert/FX

O Emmy e sua limitada visão étnica da televisão

Há mudanças na premiação, que será entregue neste domingo, 17, mas resultado ainda é assimétrico na luta pela diversidade

Lynn Elber, AP

17 de setembro de 2017 | 06h00

LOS ANGELES - Quando as câmeras mostrarem os rostos dos indicados para o prêmio Emmy deste domingo, 17 – no Brasil, será exibido pela TNT, a partir das 20h –, os telespectadores verão um recorde de 12 afro-americanos disputando nas categorias de atuação em drama e humor. Mas esse é um resultado assimétrico na luta pela diversidade. 

O astro de Master of None, Aziz Ansari, de ascendência indiana, é o único asiático-americano indicado por um papel como astro ou coadjuvante. Não há um único de origem latino-americana entre os outros indicados por atuação. Um protesto no estilo de #OscarSoWhite#, não captaria o essencial no caso do Emmy: se os filmes e atuações destacadas de pessoas de grupos minoritários foram desdenhadas pelos votantes da academia de cinema, fontes bem informadas dizem que, no caso da TV, as portas estão fechadas. “Somos muitos, mas como não tivemos a oportunidade de brilhar, as pessoas não sabem que existimos”, disse Ren Hanami, uma atriz asiático-americana que tem interpretado repetidamente papéis pequenos na TV, sem encontrar personagens dignos de prêmios. Os avanços conseguidos a duras penas pelos atores e diretores negros de programas indicados para o Emmy, como Black-Ish e Atlanta, trouxeram uma influência criativa, visibilidade e, este ano, um quarto (23,5%) das indicações para seus elencos. 

Mesmo que outros grupos étnicos celebrem esse êxito, também dizem que isso ressalta o quanto é limitada a visão da indústria do entretenimento quanto à diversidade, uma vez que os grupos de atores de origem latino-americana e asiático-americana são o primeiro e terceiro grupo étnico no país, respectivamente. “A TV jamais foi brown-ish (amarronzada)”, explicou o ator e comediante Paul Rodriguez, fazendo uma referência ao título da bem-sucedida série de humor sobre uma família afro-americana. Rodriguez trabalhou na comédia a.k.a. Pablo de 1984-85, uma das poucas séries efêmeras centradas em uma família de origem mexicana.

“Pouco mudou para os artistas de origem latino-americana. Não nos dão papéis suficientes em TV”, afirmou Rodriguez. “Nossa população continua crescendo e nossa frustração também.”  

Essa frustração chegou a um ponto crítico, garantiu Alex Nogales, presidente da Coalizão Nacional de Meios de Comunicação Hispânicos, que há anos pressiona por uma maior diversidade na TV. Seu novo plano: garantir que as cadeias e plataformas digitais como Netflix saibam o quanto os cidadãos de origem latino-americana – que têm poder aquisitivo crescente, estimado em cerca de US$ 1,5 bilhão – não estão contentes com a programação.  “A questão financeira é fundamental”, concorda Gary Mayeda, presidente da Liga de Cidadãos Japoneses Estadunidenses focada em temas de direitos civis que afetam americanos asiáticos e da Polinésia, entre outros. “A diversidade é lucrativa, não tira nada de ninguém e de nenhum grupo”, garantiu. 

Diluir estereótipos é algo familiar a Tiffany Smith-Anoa’i, vice-presidente executiva de diversidade para a CBS. “Sempre digo que diversidade não quer dizer negro: significa muito mais”, reforçou Tiffany, para a qual deixar de encontrar um ator de minorias na indústria equivale a deixar de procurar. “Pode ser que sejam necessários três telefonemas para se conseguir um ator, roteirista ou diretor (de minorias) em lugar daqueles aos quais as pessoas já estão acostumadas. Mas definitivamente vale a pena, quando o que se busca é a verdadeira autenticidade.” 

Atores negros estabelecidos e outros com influência também estão tomando o tema em suas próprias mãos. Os afro-americanos estão muito envolvidos na questão da propriedade: os projetos do astro da música John Legend incluem a série de TV Underground e Laurence Fishburne é um dos produtores de Black-Ish. 

Já Daniel Dae Kim (Lost, Hawaii Five-0) criou a 3AD, uma empresa de cinema e de produção cujos projetos incluem The Good Doctor, série dramática para a rede ABC sobre um jovem cirurgião (Freddie Highmore) com autismo e síndrome de Savant (síndrome do idiota-prodígio). A empresa tem outros nove projetos em desenvolvimento, contou Kim, com a finalidade de apresentar a variedade das condições humanas, de etnias e outras. “É um esforço consciente de minha parte, pois é nesse mundo que eu gostaria de me ver refletido”, acrescentou o ator nascido na Coreia, que chegou ainda criança aos EUA. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO  

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