HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

'O Brasil não se considera um país latino-americano', diz Caco Ciocler

Ator volta na série médica 'Unidade Básica' e mira projetos no cinema e no palco

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2019 | 03h00

Depois de gravar a última cena como o playboy Edgar na novela das 9 Segundo Sol, de João Emanuel Carneiro, que terminou em novembro do ano passado, o ator Caco Ciocler iniciou uma complexa negociação com a Globo. 

Como integrante do elenco fixo da emissora, ele poderia ser colocado em resguardo para outra atração ou ser chamado a qualquer momento para voltar ao estúdio. 

Mas o paulistano Caco Ciocler optou por dispensar o sabático remunerado e pediu autorização para gravar a segunda temporada da série Unidade Básica, do Universal, a partir do começo de 2019. O fato de o canal estar sob o guarda-chuva da Globosat facilitou as tratativas. 

Antes de reassumir o papel de Dr Paulo, o ator tirou dinheiro do próprio bolso para alugar um ônibus fabricado em 1977 e embarcou com uma equipe de 12 pessoas para uma road trip até o Uruguai. 

O objetivo: passar a virada do ano com o ex-presidente José Mujica, cujo mandato foi de 2010 até 2015. Da viagem nasceu o longa Partida. Híbrido de documentário e ficção, o filme conta a história de uma atriz que sonha em disputar o Palácio do Planalto e vai à procura do líder uruguaio para buscar inspiração. 

O filme é meio documental porque a atriz Georgette Fadel de fato tinha o sonho de disputar a Presidência por um partido só de mulheres chamado Partida. Mas também é meio ficcional porque ela nunca levou o projeto adiante. 

Pegaram a estrada com a câmera ligada e sem saber o endereço de Mujica, mas chegaram ao sítio do ex-presidente a tempo da virada no dia 31. Encontraram por lá uma barricada policial e uma multidão de pessoas (a maioria brasileiros) que tiveram a mesma ideia. 

Seria spoiler revelar se a missão foi bem-sucedida, mas a empreitada já está em fase de edição. Partida, porém, ainda não tem data definida para entrar em cartaz no Brasil. 

Além da série e do road movie, Caco, de 47 anos, ainda vai aparecer ao longo do ano em outros quatro longas e dirigir uma peça com a atriz Luisa Micheletti antes de voltar ao Projac. Olho e a Faca, que estreia em junho, Simonal em setembro, Contra a Parede em agosto e Boni Bonita, que será exibido em março na TV Brasil. Os ensaios da peça Soror, um espetáculo que ele classifica como feminista, começam nas próximas semanas. 

Ação e corta. O local escolhido como locação para a série Unidade Básica foi uma antiga fábrica de hambúrguer na bairro Vila Siqueira, na zona norte da capital paulista.

A reprodução do hospital ficou tão verossímil que até hoje moradores da região aparecem por lá em busca de atendimento com a carteira do SUS na mão. Encontram atores com o estetoscópio no pescoço. 

“A UBS não é um lugar de emergência. As pessoas chegam para ser atendidas com hora marcada. Não tem procedimento cirúrgico. A gente usa elementos de Dr. House, mas o grande desafio é esse: como fazer uma série brasileira, sem a emergência, que é o grande ingrediente das séries médicas”, disse Caco ao Estado no intervalo da gravação. 

O ator se disse um fã da série norte-americana e do personagem interpretado pelo ator britânico Hugh Laurie. 

“Mas ao contrário do Dr. House, que é do mesmo canal de Unidade Básica, o que importa não é a doença, mas o paciente. Eu sou o avesso dele, mas com o mesmo temperamento.” Voltadas para a saúde da família, as UBS são a porta de entrada do SUS. 

Coube à médica Helena Petta, que atuou por muitos anos em uma UBS, e sua irmã, atriz Ana Petta, que é protagonista da série ao lado de Caco, a escolha dos casos reais transportados para a ficção. 

Para escolher os casos e compor seus personagens, Ana Petta e Caco fizeram várias visitas domiciliares e acompanharam de perto a rotina de uma UBS de verdade na periferia de São Paulo. “A visita domiciliar mais chocante foi um policial que tinha levado um tiro na cabeça. Ele vivia numa cama na sala de casa, com metade da cabeça arrancada. Não podia se locomover e a equipe cuidava de tudo”, lembra ainda o ator. 

Ana Petta conta que a segunda temporada, que ainda não tem data para estrear, terá uma pegada “feminina”, com casos envolvendo a saúde da mulher e a violência doméstica. 

Sua personagem, Dra. Laura, ganhou espaço. Já Caco atua e dirige simultaneamente em dois episódios, algo inédito em sua carreira. 

“Essa é uma coisa meio esquizofrênica. Eu já tinha um pouco a cabeça de diretor atuando, o que era um problema. As marcas que eu não faria já eram um incômodo para mim. Isso tornou a questão mais problemática, no bom e no mal sentido.”

Oscar. Às vésperas do Oscar, coube na conversa levantar uma questão incômoda: por que o Brasil segue tão distante do tapete vermelho enquanto Argentina e México brilham no circuito internacional?

“O Brasil não se considera um país latino-americano. O cinema brasileiro quer contar grandes histórias e se distanciou do cotidiano. Persegue como agradar”, disse o ator. 

A entrevista termina com um desabafo provocado pela pergunta sobre a narrativa do governo Jair Bolsonaro de modificar a Lei Rouanet que pode reduzir patrocínios estatais para produções brasileiras. 

Para Caco Ciocler, o governo dá sinais de dar menos importância à arte e produção cultural para o cidadão. 

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