Bruna Prado/Netflix
Bruna Prado/Netflix

'O Brasil está sendo administrado pela esgotosfera da política carioca', diz José Padilha

José Padilha fala sobre a segunda temporada de O Mecanismo, que estreia na Netflix na sexta-feira, 10

Roberta Jansen, O Estado de S. Paulo

07 de maio de 2019 | 20h32

RIO - Inspirada na Operação Lava Jato e que trata dos recentes escândalos de corrupção no Brasil, a série O Mecanismo estreia sua segunda temporada nesta sexta-feira, 10, na Netflix. O diretor José Padilha, entusiasta da Operação Lava Jato e do juiz Sérgio Moro, abriu a sua participação na entrevista coletiva criticando duramente o atual ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro e comparando-o a um salame fatiado

Depois, José Padilha falou ao Estado.

O senhor tinha se mostrado muito empolgado com a atuação do ministro Sérgio Moro, como juiz, na Lava Jato. Agora, o senhor se mostrou muito desapontado. O que mudou?

Acho que o Moro talvez tenha incorrido no maior equívoco dos últimos anos, algo que eu jamais vi acontecer com uma pessoa de tal importância política e simbólica no País. Moro, no começo da Lava Jato, foi bastante corajoso – junto com outras pessoas, claro, Moro é juiz, não investiga. Mas foram todos muito corajosos, e o que fizeram têm um valor heurístico sim. Agora, como diz o filme do Homem Aranha, “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”. Acho que o Moro não viu esse filme. Acho que o Moro não entende o que ele fez.

Como assim?

Ele não sabe, porque não é carioca, quem é Jair Bolsonaro. Acho que ele está descobrindo agora e daqui a pouco vai pedir o boné. Se ele não pedir o boné, vai incinerar a biografia dele. As pessoas não entendem que o Brasil está sendo administrado pela ‘esgotosfera’ (sic) da política carioca. E o Sérgio Moro se associou a essas pessoas, sem a menor responsabilidade, sem pesquisa nenhuma. O Moro não se deu o trabalho de olhar a biografia das pessoas com as quais ele se associou.

A segunda temporada de O Mecanismo discute a  politização da investigação. sobre como a investigação pode interferir na política. Você acha que a série interferiu na política?

Eu não tenho os números da série (a Netflix não divulga os números). Sei que foi muito vista por muita gente. Acho que a série acabou participando da  polarização política porque a classe artística e os formadores de opinião, que são uma minoria dos brasileiros, reagiram à série. Os políticos reagiram, a Dilma (Rousseff, ex-presidente) reagiu. Ela popularizou bastante a série, botou a série no mundo.  Ela quase que deu a senha: todo mundo tem que brigar contra essa série.

A segunda temporada de O Mecanismo parece isentar a ex-presidente Dilma Rousseff...

A gente não livrou a cara de ninguém em temporada nenhuma. Sempre escrevi que o impeachment da Dilma era um golpe. O problema é que as pessoas não leem ou não querem ler, fazem uma caricatura da sua posição: ah, essa série é a favor do impeachment da Dilma. A série nem tinha tratado do impeachment da Dilma na primeira temporada. Agora, existe uma armadilha que a classe formadora de opinião brasileira, tanto de esquerda quanto de direita, cai sempre que é o seguinte: eles identificam esquerda com o PT. Isso que falei antes: que eu saiba, o Lula não escreveu O Capital. Então, se você é esquerda, você tem que ser PT, como se antipetismo fosse a mesma coisa de antiesquerdismo. Isso é um erro crasso, uma super simplificação das possibilidades de pensamento. Posso ser radicalmente anti-Bolsonaro – como sou, por vários motivos –, radicalmente antipetista e acreditar em certas teses da esquerda. Qual o problema? Não tem nenhuma inconsistência nisso. Só que a polarização transforma identidade tribal em critério de verdade. Esse processo no Brasil acontece muito nos grupos de WhatsApp. Então, tem lá o grupo de atores. Todos pensam da mesma maneira e trocam mensagens entre si confirmando as suas teses e nunca mudam de ideia. Tem o grupo da direita, com um monte de policial e de ‘bolsominions’, todos pensando da mesma maneira também. 

Como isso ocorre?

Eu vejo no Brasil um comportamento de manada. Você tem que escolher uma manada. Ou você é da manada petista ou você é da manada da direita, que agora é a manada bolsonarista. A vida não é assim, a vida é bem mais complicada do que isso. É possível saber que Bolsonaro é um sujeito tacanho, que tem zero sofisticação intelectual, que não dá pra votar no Bolsonaro e, ao mesmo tempo, entender que apoiar o (Fernando) Haddad nas eleições era de uma burrice incrível. E mais: se o Haddad se elegesse, o que ele ia fazer? Ia ter que tentar soltar o Lula, mudar a Lava Jato. A gente quer fazer isso? Existem nuances. Você não precisa acreditar em todas as teses da manada da direita, nem em todas as teses da manada da esquerda, pode ser gauche na vida, que nem eu sou.

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