'O bonzinho é o papel mais difícil de fazer na TV'

Leia trechos da entrevista do ator Murilo Benício, que conversou com o Estado entre as gravações de Força Tarefa:

O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 20h41

Já sei que o Tenente Wilson é radicalmente honesto. Qual o cuidado que você está tomando para que o personagem não se torne um chato?

Pois é, temos pouco do Wilson no texto, sobre como ele é. Estou tendo uma experiência muito interessante com a Fabíula Nascimento (Jaqueline, namorada de Wilson). Estamos buscando uma agressividade maior quando ele está no trabalho, para ter a contrapartida do carinho que ele demonstra por ela. Por causa do trabalho, ele decepciona a namorada às vezes. Ela quer sair, ele não pode - e quando pode, está cansado. Acho bom também que ele tenha um pouco de humor, mas ainda não encontrei o humor dele.

É complicado encontrar o tom do bonzinho?

Em televisão, a coisa mais difícil é fazer o protagonista bonzinho. Por isso, a gente vê tanto vilão fazendo sucesso. É porque o vilão não tem limites, não segue cartilha, ele é incorreto. O maior desafio para o ator é fazer o bonzinho, e as pessoas que veem de fora acham que é o contrário. Normalmente e naturalmente, o mocinho é meio chato.

Então, é mais difícil para você decifrar um personagem feito o Wilson do que um Dodi, por exemplo?

Ah, muito mais! O Dodi é mole fazer. Quer dizer, não é mole.... É o tipo de coisa que é extremamente difícil quando você cria. Briguei comigo mesmo durante dois meses da novela, pensando que isso e aquilo estava meio ruim. Esse momento é muito humilhante para o ator, na minha opinião. Porque a gente não tem preparação em novela. É meio assim "então tá, amanhã você está gravando". Eu faço, mas com a certeza de que vou começar errado. Depois, vai endireitando. Mas acho que é melhor errar alguns capítulos, e depois fazer uma coisa diferente, do que entrar no certinho, e nunca mais mudar. O Dodi partiu para uma coisa meio surreal.

E em Força Tarefa a coisa é mais pé no chão.

Sim, aqui é mais próximo de mim, e esses personagens existem na vida real. Então, o limite é muito maior para você ser fiel ao que acontece, diferentemente do Dodi.

Por falar em tempo de preparação, você mal tinha saído de A Favorita quando foi chamado para ser o Wilson. Teve tempo para se preparar desta vez?

Não. Quando é assim, você atua, não tem jeito. Tem muita gente que acha estranho o meu jeito de trabalhar. A única coisa que me importa é saber como é o personagem. Quando estou fazendo novela, não estudo um dia antes - graças a Deus tenho uma memória ótima. Chego e decoro tudo fácil. Se eu sei como é o personagem, sei como ele vai se portar em qualquer circunstância. Se eu chegar na Globo e o meu personagem for receber a notícia de que a mãe dele morreu ou que ele vai ficar noivo, para mim não interessa. Estou pronto para qualquer coisa.

Para atirar, com certeza. Tem prática com armas de fogo, não?

Tenho. Sabe o que é engraçado? Sei mexer em todos os tipos de armas - 12 mm, AR-15, pistola, revólver, tudo. Só não sabia segurar direito, porque nunca tinha interpretado um policial, não tinha precisado ainda desse tipo de treinamento.

Só fez bandido...

É, e bandido segura de qualquer jeito.

Mas você teve consultoria de um pistoleiro uma vez, não foi?

Sim, para Os Matadores, do Beto Brant (1997). O pistoleiro fez ponta no filme, aparece várias vezes. Aquela época foi doida. Ele me deu uma arma de presente, que joguei no mar, de medo. Acho que, até hoje, aquele filme é o melhor do Beto. E não digo isso porque é o que eu fiz.

E do Dodi, não sente saudades?

Ah, tenho saudade de tantos personagens... Morria de rir com o Arthur, de Pé na Jaca (2006). Daquele tenho saudade, porque eu estava impossível. Tinha cena que eu não fazia porque achava tão engraçado que não conseguia fazer. Gostei também do Maiquel de O Homem do Ano (de José Henrique Fonseca, 2002). Foi um personagem muito difícil, mérito meu mesmo. Tenho uma espinha interna que sempre que estou estressado, estoura. E eu fiz o filme todo com ela esturando, imagina só. Tanto é que a gente deixou, virou uma marca do personagem. Dá saudade de um monte deles... Mas não é que eu fique fazendo em casa, na frente do espelho...(risos)

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