Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Novos heróis nas telas: é a hora e a vez dos dubladores no Brasil

Redes sociais impulsionam fãs de profissionais da dublagem, que terão conferência nacional DublaCon

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 05h00

Conhecer quem faz a voz de um ator ou personagem querido é como descobrir a identidade secreta de um super-herói. A afirmação pode parecer exagerada, mas é exatamente esse o sentimento dos milhares de fãs e seguidores dos principais dubladores do País. 

Nos últimos anos, eles saíram do anonimato para se transformar em estrelas pop. A força das redes sociais (Instagram e TikTok, principalmente), um certo “saudosismo de Sessão da Tarde”, o sucesso dos animes e filmes de herói estão entre as prováveis causas desse reconhecimento. 

Mas se hoje dubladores têm fãs-clubes, dão autógrafos na rua e até preparam uma conferência nacional, a DublaCon, é porque o caminho foi trilhado por vozes pioneiras, como a de Selma Lopes, de 93 anos, que continua na ativa dublando personagens como Marge Simpson e a atriz Whoopi Goldberg

Em meados da década de 1940, ela iniciou a carreira cantando em programas de rádio infantojuvenis. “Foi por acaso. Estava acompanhando meu irmão e a produtora me perguntou se eu cantava também. No mesmo instante, a menina precisou inventar um nome artístico. Olhou para o lado e viu um maço de cigarro Selma. Assim Maria Lopes Gonçalves passou a se chamar Selma Lopes. 

Quando o icônico estúdio Herbert Richers iniciou suas operações, nos anos 1950, Selma foi uma das primeiras contratadas. “No início, o estúdio procurou atores que trabalhavam em rádio”, contou. O teste para Selma entrar nesse universo foi dublando o personagem Ligeirinho, o camundongo mexicano. 

O trabalho de Selma ajudou a construir o imaginário que até hoje atrai jovens atores para a profissão (para ser dublador é preciso ser ator). Esse é o caso de Wirley Contaifer, de 31 anos, da nova geração de dubladores. Ele é a voz do Homem-Aranha/Peter Parker, nos filmes em que o personagem é interpretado por Tom Holland.

“Meu interesse começou ainda criança, quando eu descobri que o Chapolin Colorado, meu primeiro herói, não era brasileiro. E entendi que a voz que ele tinha era feita por alguém”, contou Contaifer. A partir dessa descoberta, ele soube o que queria fazer da vida. “Tive minha formação como ator e a pressão, até familiar, de fazer televisão, mas sempre fui devoto da invisibilidade. Um ator que pode ser sentido e não visto.”

Sucesso

O dublador Élcio Romar, de 72 anos, é a voz clássica de Woody Allen e Michael Douglas na TV brasileira. Para ele, a dublagem é uma arte de sensibilidade que “ou é muito fácil ou é impossível. Você pode ficar 50 anos tentando dublar e não conseguir. É preciso de punch, agilidade e outras qualidades. Não precisa ser bonito, tem de ter talento. Todo dublador é ator, mas nem todo ator é dublador”, advertiu.

De tanto ser a voz de atores que estão sempre em filmes exibidos na TV, Romar já foi reconhecido nas ruas. “Comecei a conversar com um taxista e ele perguntou se eu era a voz do Michael Douglas. Ele ficou tão feliz que não me deixou pagar a corrida”, contou. 

Cláudio Galvan, de 51 anos, que conquistou o papel de Pato Donald cantando Garota de Ipanema com a voz do personagem clássico durante um teste, também tem sido reconhecido nas ruas e shoppings. Ele não se incomoda se lhe pedem, na rua, para imitar o Pato Donald. “Embora faça uma voz caricata, as redes sociais mostraram a nossa cara, com muitos posts e entrevistas”, disse. 

A dubladora Andréa Murucci, de 56 anos, voz da princesa Pocahontas e de atrizes como Julia Roberts e Helena Bonham Carter, é um exemplo de como as redes sociais ajudaram a popularizar o trabalho dos dubladores. Uma das frases dubladas por ela no filme Encantada virou um clássico instantâneo do TikTok. Anônimos e artistas têm gravado vídeos curtos e bem-humorados dublando Andréa: “Com vocês, meu verdadeiro amor! Meu príncipe, meu sonho ganhou vida!”. Em alguns vídeos, a declaração de amor é feita a uma caixa de pizza ou uma garrafa de cerveja.

Para todos

“Acho que para além das redes, os fãs sempre estiveram aí. A dublagem do Brasil é excelente. Ela atende a uma questão de acessibilidade, permite a quem não é alfabetizado ou tem dificuldade de ler legendas rápidas ir ao cinema ou assistir a um filme na tevê”, falou Andréa. “Hoje, menos gente ‘vira a cara’ para a dublagem. Nós estamos presentes na vida das pessoas desde o começo, desde a infância”, completou. 

Nesse sentido, a atriz e cantora Kika Tristão, de 57 anos, é a voz de muitas princesas quando elas estão cantando nos filmes da Disney (inclusive da já citada Pocahontas). “Eu encontro fãs que me reconhecem pela voz, e que me dizem que fiz a infância deles muito mais feliz. Toda semana recebo esse tipo de carinho”, revelou. 

A DublaCon, conferência brasileira sobre dublagem é organizada por Ygor Guidoux, de 32 anos, um apaixonado por dublagens que também se tornou dublador profissional. “O evento é uma forma de devolver todo o carinho que esses profissionais têm com os fãs. Carinho e respeito se paga com carinho e respeito. Os dubladores e dubladoras merecem muito”, acrescentou.

Como fazer

O dublador Wendel Bezerra, de 47 anos, voz de Bob Esponja (além de galãs como Leonardo DiCaprio e Robert Pattinson), explica como são as etapas de produção de uma dublagem. “Um filme de 100 minutos leva em média 25 horas para ser dublado. O processo todo envolve tradução, checagem, mixagem, escolha de atores. Em média, um filme leva entre 30 ou 40 dias.”

Os atores, acrescenta, recebem por hora (horas produzidas). Os dubladores que atuam em grandes produções, os mais requisitados do mercado, podem ganhar em um mês de R$ 20 mil a R$ 40 mil.

 

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