João Cota/Globo
João Cota/Globo

'Novo Mundo' aposta em efeitos especiais

Britânico Andy Armstrong orientou elenco da novela em cenas de muita ação

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

27 Março 2017 | 09h42

Os espectadores dos primeiros capítulos da novela Novo Mundo ficaram boquiabertos com as cenas de ação que marcaram o início do folhetim – especialmente as da invasão pirata. Tal desenvoltura é fruto de um detalhado trabalho realizado meses atrás, nos estúdios da Globo. Durante uma semana, boa parte do elenco recebeu instruções de Andy Armstrong, britânico especialista em efeitos especiais – ex-dublê e consagrado diretor de cenas de ação, ele dirigiu diversas sequências em produções americanas como O Espetacular Homem-Aranha, Highlander e filmes da série James Bond, como O Homem Com a Pistola de Ouro, O Espião Que Me Amava e Moonraker. Por e-mail, Armstrong conversou com o Estado

ENTREVISTA

Como é a preparação dos dublês para a filmagem?

A preparação começa (ou deveria começar) bem antes de se chegar ao set de filmagem. Gosto de criar uma ideia para uma cena de ação em cima do texto. Aí planejo como deve ser feita a cena e quem será o dublê. Eu particularmente gosto de atores que fazem pelo menos parte do trabalho do dublê. Este entraria apenas nos momentos mais perigosos, ou que exijam algum atributo especial. Isso disfarça a participação do dublê e torna a cena mais intrigante, levando os fãs a tentar descobrir onde há e onde não há dublê. 

Que orientações você deu ao elenco brasileiro quando trabalhou com ele em Novo Mundo

Uma das coisas que mais me impressionaram quando no Brasil foi encontrar um elenco extremamente dotado para as cenas de ação e dedicado a elas. Cada um com quem tive a sorte de trabalhar era não apenas entusiasta dessas cenas, mas altamente qualificado a desempenhá-las. Isso torna a criação de uma sequência muito mais fácil para o diretor e o coordenador de dublês, pois a maior parte do trabalho é feita pelos próprios atores. Ou seja, muitas das dificuldades de se criar uma cena de ação, como ter de esconder o rosto do dublê, desaparecem, pois é o ator quem faz a cena. Uma das dicas que dei ao elenco e diretores foi que, em algumas cenas de ação (especialmente coisas do tipo duelo de espada), os personagens devem se mover um pouco mais lentamente, mas com mais precisão. 

Como assim?

Uma luta de espada ou uma briga tendem a perder força se os atores se moverem muito depressa. Ao atuarem com rapidez para parecerem mais agressivos, acabam sacrificando a precisão do desempenho e parecendo menos agressivos. Uma das maravilhas da moderna filmagem digital é possibilitar o aumento ou diminuição da velocidade no estágio de playback, de modo a que uma luta desempenhada lentamente possa ser acelerada para parecer rápida. O essencial é que os movimentos sejam feitos com precisão e energia. Isso também deixa cenas de ação como duelo de espada mais fáceis e seguras de se filmar. Outra recomendação minha foi fazer muitos vídeos de ensaio para que, ao filmar de verdade a cena de ação, o diretor e o câmera já saibam quais os melhores ângulos e a melhor maneira de explorá-los. Acho importante filmar sequências curtas, mas planejadas e trabalhadas como se fossem muito longas. Filmar uma luta inteira não funciona. É melhor filmar várias cenas pequenas e precisas de maneira que cada soco, golpe ou chute pareçam reais, não artificiais. 

O trabalho de dublê e os efeitos especiais são perigosos. A segurança dos dublês depende de quem esteja operando os equipamentos?

Segurança, claro, é muito importante. Fico ansioso quando uma cena só pode ser feita uma vez. Uma coisa fundamental é que todos os participantes da atuação e da filmagem de uma sequência de ação saibam exatamente o que se espera deles e dos demais envolvidos. É muito importante ser cuidadoso mesmo ao planejar e executar cenas fáceis, que é onde costumam ocorrer muitos acidentes. Quando a cena é perigosa, todos são naturalmente cuidadosos e estão atentos. Mas, passado esse momento de perigo, há a tendência a abrir a guarda para a próxima sequência se ela não for tão perigosa. Por isso, é muito importante ser extremamente cuidadoso durante todo o tempo de filmagem. Mesmo que não haja nada de perigoso à vista no set, é preciso lembrar que há equipamentos e locações potencialmente perigosos. O bom hoje é que ficou fácil remover ou substituir digitalmente itens de segurança ostensivos, como grandes estofados para se cair e cabos para evitar quedas. Isso era impossível quando entrei no trabalho de dublê 45 anos atrás. 

O que ainda não é possível em sua profissão?

Boa pergunta! Acho que a próxima grande fronteira é a substituição de rosto... Logo será comum que um dublê faça uma cena e tenha o rosto substituído digitalmente pelo do ator. Isso também levará a se redesenhar corpos digitalmente, para fazer com que o corpo de um dublê fique igual ao do ator que está dublando. Essa tecnologia já existe, embora ainda seja difícil e cara. Mas vem sendo aperfeiçoada e seu custo é cada vez menor.

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