Miguel Gutiérrez
Miguel Gutiérrez

Novelas venezuelanas, a indústria que parou

Elas conquistaram mercados internacionais entre 1960 e 1990, mas hoje deixam de ser produzidas em meio à severa crise econômica do país

Miguel Gutiérrez, EFE

27 de dezembro de 2018 | 19h16

A indústria das novelas venezuelanas, que conquistou mercados internacionais entre 1960 e finais da década de 1990, hoje está afogada em meio à severa crise econômica do país e já registra uma queda gradual nos últimos 20 anos.

A Venezuela, que já foi uma poderosa indústria capaz de produzir até 12 novelas ao ano, agora só consegue, com sorte, realizar uma. Alguns dos autores e produtores atribuem essa queda à chegada de Hugo Chávez ao poder, onde ficou de 1999 a 2013.

Kassandra, da escritora cubana Delia Fiallo; Por estas  alles, do venezuelano Ibsen Martínez; e Las Amazonas, de César Miguel Rondón, foram algumas das novelas que a Venezuela vendeu para diversos países durante os anos 1980 e 90 e que inclusive foram traduzidas para outros idiomas.

"Nessa época não era só uma questão de audiência, o povo vivia as telenovelas", disse à Agência EFE o escritor Rondón, ao explicar que as superproduções venezuelanas se caracterizavam por serem "irreverentes" e "atrevidas".

"Os colombianos vinham para aprender conosco, os espanhóis aprendiam conosco", comentou.Rondón diz que parou de escrever novelas no início dos anos 2000 por causa da censura que começou a ser aplicada aos seus projetos. Segundo ele, por esse motivo, novelas venezuelanas bem-sucedidas como essas não voltarão a ser feitas "em muito tempo".

Essa opinião também é compartilhada por Leonardo Padrón, criador de várias das últimas superproduções que tiveram sucesso no país como Cosita Rica, entre 2003 e 2004, e Ciudad Bendita, em 2006. Ele não hesita em afirmar que a queda da indústria "tem nome e sobrenome e se chama Hugo Chávez".

"E isto não é julgamento de valor, é um julgamento de fato", defendeu o escritor, um duro opositor do chavismo, ao ressaltar que a queda da indústria veio com a implementação da Lei de Responsabilidade Social para Rádio e Televisão, estabelecida em 2004 e que regula o conteúdo da televisão.

Esta lei, segundo Padrón , criador da novela Amar Muerte, atualmente exibida no México , foi "um sistema de dominação da liberdade de expressão".

Padrón relatou que enquanto escrevia Cosita Rica para a Venevisión, uma novela que também estava ligada à realidade nacional e na qual eram refletidos acontecimentos do país, o canal recebeu notificações do governo para limitar as cenas.

"Coisas tão absurdas como os personagens não poderem falar da insegurança na cidade. Por exemplo, a protagonista vai sair para uma festa para se encontrar com o protagonista à noite e a mãe diz: 'Muito cuidado que a cidade está muito insegura'", descreveu, ao deixar claro que nunca se censurou, deixando a tarefa para o canal.

O também jornalista, agora exilado em Miami, acrescentou que o golpe mais duro contra essa indústria ocorreu com o fechamento por decisão governamental de uma das principais produtoras e responsável por muitos sucessos televisivos, o canal Radio Caracas Televisión (RCTV), em 2007.

Desde esse ano, a queda da indústria se acelerou ao ponto de, entre 2014 e 2015, com a piora da crise econômica, o canal que competia com a RCTV - Venevisión - foi encerrando os contratos dos seus autores, entre eles Padrón, Martin Hahn e Mónica Monatañés. Naquela época, cerca de três telenovelas eram produzidas ao ano.

Durante 2018, a RCTV, que ainda opera produtora para canais no país como Televen e IVC, produziu uma telenovela a duras penas e sem os investimentos feitos por indústrias como a do México, com as quais a Venezuela competiu em seu melhor momento, segundo disse o vice-presidente de produções, José Simón Escalona.

Escalona, que considera o fechamento do canal um "ponto crucial" para as produções, disse que a queda da indústria ocorreria da mesma forma pela grave crise econômica "porque a lógica é que o país desabou".

Diante dessas condições, autores, produtores, roteiristas, engenheiros e atores venezuelanos de longa trajetória também passaram a fazer parte da diáspora venezuelana, hoje de três milhões de pessoas, segundo a ONU.

Alguns tiveram a sorte de trabalhar na área, mas outros tiveram que exercer outras profissões. Apesar disso, tanto Padrón como Rondón e Escalona não deixam de ter esperança que algum dia, quando mudar o governo, as telenovelas venezuelanas voltarão a se destacar nos mercados internacionais.

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