Mauro Pimentel/Estadão
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Novela que marca a volta de Gilberto Braga desafia escândalos políticos do País

Folhetim das 21h, 'Babilônia' estreia na Globo no dia 16 de março

Cristina Padiglione, O Estado de S. Paulo

24 de fevereiro de 2015 | 03h00

RIO - Em dias de operação Lava Jato, o desafio da ficção é ser mais atraente que a realidade. Mas um imbróglio envolvendo empreiteiras e corrupção política já vinha sendo roteirizado para Babilônia, a próxima novela das 9, bem antes de se consumar nos noticiários. O assunto move as personagens de Glória Pires - que dá o golpe do baú em Cássio Gabus e passa a controlar sua empreiteira - e Marcos Palmeira, político corrupto, no folhetim que marca a volta de Gilberto Braga ao horário nobre da Globo, a partir de 16 de março.

Autor da banana, gestual de desdém que o corrupto Marco Aurélio (Reginaldo Faria) deu ao Brasil em Vale Tudo (1989), ao fugir do País, Gilberto acredita que a nação já não aceita mais impunidade. Até refez a cena clássica no final de Insensato Coração, sua última novela, já com outro desfecho: Herson Capri repetia a banana, mas era algemado em seguida.

Para falar de Babilônia, título que remete à ambição da Babel, Gilberto recebeu o Estadão em seu apartamento no Arpoador, ao lado de Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, com quem assina o novo enredo. Dono de um senso de humor ácido, sem perder a elegância, reconheceu erros do passado, como em O Dono do Mundo. E lembrou episódios de bastidores, como a recusa de Odete Lara para viver Odete Roitman, papel que marcou para sempre a carreira de Beatriz Segall. O rótulo de autor de ricos, Gilberto dispensa. Acha que sua maior habilidade é abordar a classe média. E decreta que não é de TV. “Eu gosto é de cinema.” 


A escalação de Cássio Gabus e Glória Pires como casal é algum tributo a ‘Vale Tudo’?

Gilberto - É totalmente casual. A Beatriz foi escrita para Glória (Pires) e o Evandro seria o Herson Capri, mas o Herson estava fazendo outra novela e era um papel parecido com o que ele tinha feito. Agora, o Herson Capri virou o rico da Globo. E alguém teve a ideia do Cássio. Eu não fui, porque o Cássio, na minha cabeça, ainda é uma criança.

Mas, de novo, ele cai na dela?

Gilberto Braga - Ah, não. Em Vale Tudo ele é bobo, é corno. Aqui, não. Ele é o safado.

Como surgiu a ideia de criar um par lésbico com Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg?

Gilberto - Acho que a ideia foi minha, e como charminho. Não é uma coisa que tenha grande importância na trama. Pensei: ‘por que não fazermos um casal diferente e usarmos a Nathalia e a Fernanda como duas lésbicas que vão se casar?’ Mais ou menos como eu e Edgar (Moura Brasil) na vida real. Nós temos 42 anos de casados e casamos no papel não faz nem um ano. Elas nem ligam muito pra se casar. Mas como a personagem da Fernanda é muito engajada no movimento... Como é que se diz?

Ricardo Linhares - Sociais e LGBT.

Gilberto - Isso, elas se sentem quase na obrigação de se casar. 

Ricardo - A personagem da Fernanda tem uma referência longínqua no Sobral Pinto. Durante a ditadura, ela se tornou notória no Brasil por defender presos políticos. Depois, ela se voltou para causas sociais.

Gilberto - Uma coisa que lembro de ter dito é: ‘se não conseguirmos Fernanda e Nathalia vamos fazer outra coisa. Glória Menezes e não sei quem não servem.’ O que nos interessa é botar aí a grande dupla do teatro e da televisão.

João Ximenes - O principal da história delas é um Romeu e Julieta. Elas são os Capuleto e há os Montéquio. O filho delas, que é o Chay Suede, e a filha do político conservador, que é a Luíza Arraes, vão ser o ‘Romeu e Julieta’ da trama.

Ricardo - O político é o Marcos Palmeira. Ele é corrupto, conservador e homofóbico. É de uma cidade na Baixada Fluminense chamada Jatobá. A filha dele se apaixona pelo filho das lésbicas. A gente deu uma atualizada no ‘Romeu e Julieta’.


Gilberto - Eles são chiques e falam em Romeu e Julieta. Eu não sou chique e penso em Gaiola das Loucas (risos). A Fernanda, quando vendi a ideia pra ela, disse: ‘mas eu não vou ter que me vestir de homem e fingir que sou homem, vou?’ Eu falei: ‘não, Fernanda’. Adoro copiar filme e meu sonho é fazer uma cena do Marcos Palmeira fugindo da imprensa vestido de mulher (risos).

E vai ter beijo?

Gilberto - Eu não faria chupão de casal hétero de 85 anos porque eu acho do maior mau gosto, ainda mais duas senhoras. Elas dão selinho. Se elas fazem sexo ou não, é uma coisa que eu não quero nem pensar.

Ricardo - Elas dão selinho, tá no texto, não a toda hora, mas em momentos de carinho.

João - Sempre que se entra nessa questão de um público com medo de ver afeto entre duas pessoas do mesmo sexo, tenho a sensação vergonhosa de estar num país absolutamente infantilizado.

Ricardo - Nem na Argentina, um país mais careta, isso é discutido. Em horário nobre, na novela, isso é natural.

João - O grande argumento que parte do público dá é: ‘Eu não quero ter que discutir isso com os meus filhos’. Desculpe, se você não quer conversar com seus filhos sobre fatos da vida, você é um péssimo pai.

Ricardo - Os Estados Unidos são um país conservador. Na ABC, canal aberto, em seriado visto pela família toda, homens e mulheres do mesmo sexo se beijam. Em Portugal é natural, menos no Brasil. Mas nós temos consciência de que a novela fala para todo mundo, somos muito cuidadosos, não só com temas gays. Isso vale para falar de direitos de toda ordem, como de cotas raciais: a Paula (Sharon Menezes) é uma advogada negra que ingressou na faculdade pelo sistema de cotas, sofreu bullying e foi excelente aluna. Hoje, tem um cargo de destaque que permite a ela sair da comunidade e alugar um bom apartamento no asfalto.

Mesmo com todos os cuidados, às vezes há reações negativas. Miguel Falabella foi acusado de racismo em ‘Sexo e as Negas’, como ocorreu com Gilberto em 'Pátria Minha' (1994/95).

Gilberto - São reações isoladas, não correspondem à maioria. Em Pátria Minha, o pessoal de movimento negro mais sério estava totalmente a meu favor, percebeu que fiz uma crítica ao racismo. Mas alguns grupos de movimento negro picaretas aproveitaram pra se promover.

No quesito corrupção, não está difícil acompanhar a realidade?

Ricardo - Muito difícil, mas nossa sinopse começou em 2013. O prefeito corrupto vai ter um conluio com a dona da empreiteira, que é a Glória Pires. Essa podridão da Lava Jato já estava na nossa sinopse antes de virar escândalo. 

Novela de Gilberto Braga sempre gera expectativa para o universo dos milionários, mas você não se vê nesse rótulo. Por quê?

Gilberto - Não sei por que me veem assim. Sou de classe média e acho que o que faço melhor é classe média. Meus trabalhos preferidos são, em Anos Rebeldes, a casa do comunista (Geraldo Del Rey), que é aquela bagunça, e em Dancin Days, a casa do Mario Lago. Mas calhou que fiz Água Viva (1980), uns ricos que agradaram, e começaram a me tacar essa etiqueta do escritor dos ricos.

A Globo agora tem Silvio de Abreu no comando das novelas. Como vêm essa escolha?

Gilberto - O novo chefão (Carlos Henrique Schroder, diretor-geral da Globo) foi muito vivo de chamar Silvio de Abreu. Ele gosta muito de novela, faz aquilo com prazer. É um sonho trabalhar com uma pessoa que entende de novela. Ele gosta de televisão, eu não sou de TV.

Como não?

Gilberto - Não, eu gosto de cinema. Vejo TV como quem vai ao cinema: gravo pra ver deitado na cama, é outra relação. 

Mas você nunca fez cinema?

Gilberto - Não, eu não gosto muito de trabalhar. Eu me dei bem em televisão, não vou mudar. 

Como outros veteranos medalhões, também vai dizer que esta é sua última novela?

Gilberto - Não, minha última novela vai ser quando eu morrer porque meu condomínio é muito caro. E tenho apartamento em Nova York, em Paris, os condomínios são caros.

Como vão as reações à reprise de ‘O Dono do Mundo’, no Viva?

Gilberto - Recebo elogios e não entendo. É muito fraca. Errei feio, é negativa demais. Botei os pobres burros demais. Fui fazer uma novela sobre luta de classes em que só os ricos eram inteligentes e isso ofendia o espectador pobre. Eles levavam porrada e não tinham como se defender. 

Se a gente tivesse que resumir ‘Babilônia’ em uma palavra...

João - Ambição. Essas três mulheres, Beatriz (Glória Pires), Inês (Adriana Esteves) e Regina (Camila Pitanga) têm isso. Adriana começa a novela quase deprimida. Ela quer parecer a Glória Pires, mas não consegue. Esse é o grande desafio da Adriana: ela está fazendo uma mulher feia, o que ela não é.

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