Novela 'Alto Astral' mostrará espiritismo pelo viés do humor

Novela 'Alto Astral' mostrará espiritismo pelo viés do humor

Autores falam sobre a relação com patrulha de espectadores

João Fernando, O Estado de S. Paulo

26 de outubro de 2014 | 03h00

 Tocar em temas polêmicos pode ter a mesma eficácia de alcance de público quanto de reclamações. Em tempos em que qualquer pessoa pode compartilhar seus pensamentos via internet e espalhá-los em segundos, a teledramaturgia passou a ser julgada coletivamente no tribunal das redes sociais, causando dor de cabeça e patrulha em torno de seus criadores. Sindicatos e organizações não governamentais são alguns dos grupos que estão cada vez mais de olho para apontar o que não consideram correto em produções de TV. 

Com um pé na comédia e outro no espiritismo, Alto Astral, nova novela das 7 da Globo, prevista para 3 de novembro, vai mexer com uma das doutrinas religiosas mais expressivas do País. Na trama, o protagonista Caíque, vivido por Sérgio Guizé, vai interagir com espíritos que armam situações cômicas e têm momentos descontraídos, como seu guia, Castilho (Marcelo Médici), que faz graça com o fato de ser invisível para os outros.

Segundo o autor, Daniel Ortiz, a ideia não é fazer deboche com a crença alheia. “Em Alto Astral, não abordo doutrina religiosa. Os espíritos são personagens que atuam paralelamente à trama principal que é a história de amor de Caíque e Laura (Nathalia Dill). Os espíritos são retratados pelo viés da ficção, do sobrenatural e não do espiritismo. Por isso, eu acredito que não vá existir rejeição, as pessoas vão entender essa diferença”, defende.


O intérprete do protagonista faz coro. “A gente tem muito respeito. Todo dia, quando chego ao estúdio, agradeço e peço licença. Somos espiritualizados e respeitamos muito, mas o foco da novela não é esse, é a comédia romântica”, alega Guizé. Claudia Raia, que viverá Samantha, uma médium trambiqueira, prefere ignorar as críticas. “A gente não pode ficar refém disso, senão, não faz mais nada. Sempre vai ter alguém para reclamar. Na novela, quando se aborda a espiritualidade, é de maneira séria e leve. Não quero pensar nisso para não sofrer por antecipação.”  

Experiente na relação com o público, o novelista Silvio de Abreu, que supervisiona os textos de Alto Astral e em breve ficará responsável pelas produções de teledramaturgia da Globo, garante que os autores não sofrem veto na hora de incluir temas delicados em obras de ficção. “Todos os aspectos de uma sinopse, polêmicos ou não, são discutidos. Os autores já sabem quais são os seus limites, nada é proibido, mas tudo deve ser feito de modo a não ofender ou denegrir raças, religiões, ou seja lá o que for. Temos liberdade total dentro do bom senso.”

Por meio de sua assessoria de imprensa, a emissora afirmou que não há assuntos proibidos. “Os autores têm autonomia e liberdade absolutas para apresentarem seus projetos, abordando os temas da forma que acharem melhor para contar suas histórias. O que existe desde 2007 é um monitoramento de todas as emissoras de TV, feito pelo Ministério da Justiça por meio do Manual da Classificação Indicativa, e que determina qual o tipo de conteúdo o governo permite que seja exibido em cada faixa horária.”

Silvio acredita que o excesso de patrulha de militâncias e entidades, que às vezes recorrem a órgãos públicos para reclamar, não causam receio entre os autores na hora de criar. “Não sinto. Mesmo porque, hoje, qualquer assunto, polêmico ou não, suscita críticas e reclamações. Quando se coloca uma enfermeira vilã, já vem protesto como se estivéssemos querendo dizer que todas as enfermeiras são assim. O mesmo acontece com médicos, advogados, cabeleireiros, aeromoças e etc.”

Para ele, parte dos telespectadores descontentes leva as produções a sério demais. “Muito desses protestos têm a ver com entidades que só querem ter visibilidade, outros porque não conseguem entender que fazemos obras de ficção e que um profissional desta ou daquela categoria está sendo retratado em uma obra de ficção, não generalizando os outros profissionais da mesma categoria. Acho que o protesto mais engraçado que recebi foi contra o personagem Pascoal, de Reynaldo Gianecchini em Belíssima (2006). Uma associação de mecânicos e borracheiros achava que estávamos denegrindo a profissão porque ele falava português errado”, relembra.

Em Alto Astral, espíritos como Bella (Nathalia Costa) chegam a provocar acidentes para promover um encontro do casal principal. A menina também brinca com o fato de poder ultrapassar paredes e árvores. Os exageros, entretanto, não incomodam os seguidores da doutrina. “Se gostamos ou não, não temos nada com isso”, rebate Silvia Cristina Puglia, diretora de divulgação da Federação Espírita do Estado de São Paulo. “É um pouco forçado. A força do pensamento é algo forte. Você pode usar para o bem ou para o mal. Não posso dizer que ela está de acordo com os padrões evangélicos. Essa menina fazer um carro capotar seria um pouco fantasioso e nada que a gente pudesse aplaudir.”

Questões relativas aos negros, abordadas em produções como a série Sexo e as Negas, atraem mais manifestações de entidades. “Vira e mexe, a gente vê em programas e novelas uma imagem muito negativa. Isso não quer dizer que a dramaturgia não possa seguir seu fluxo de fantasia. Só que reforça negativamente esse estereótipo e representação negativa”, analisa Lucia Xavier, coordenadora da ONG Criola, relativa a assuntos da mulher negra.

A ativista critica obras como a série recente de Miguel Falabella e também Subúrbia (2012), que contava a história de uma jovem do interior que ganha destaque como dançarina de funk ao se mudar para o subúrbio carioca. “Não estamos dispostos a compactuar com esse tipo de imagem. Ela aumenta a violência contra as mulheres. Esses estereótipos ajudam o entendimento negativo sobre elas. A gente tenta pedir representação contrária. É lógico que não sou da ideia de que tudo que a gente vê na TV repete, mas acredito numa certa influência que a TV proporciona no meio popular sobre essas coisas. É como veicular um dia um linchamento e, no outro dia, aparecem quatro ou cinco.”

Cristianne Fridman, autora de Vitória, novela da Record em que há um núcleo neonazista e um personagem negro, Paulo Henrique (Silvio Guindane), que renega a própria condição, afirma não considerar as manifestações contra seu trabalho. “A maioria das patrulhas existentes é para preencher espaço. Não têm peso, não dá para levar em consideração e limitar a criação.” 

A novelista não acompanha comentários na internet. “Antigamente, você tinha páginas de novelas com participação de pessoas que realmente assistiam, debatiam. Hoje, parece até que há empresas com perfis falsos para elogiar determinados produtos e criticar outros. A informação está muito poluída”, alega Cristianne, que prefere monitorar com mecanismos da Record. “Caso haja necessidade de complementar com outros relatórios, nós temos estas ferramentas à disposição. Por enquanto, não foi necessário solicitar isto à emissora.”

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