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Nova versão de ‘Party of Five’ ganha tom político

Inspirado na série dos anos 1990, reboot traz a história de cinco irmãos, cujos pais imigrantes são deportados para o México

Marisa Mazria- Katz NYT / CASTAIC (CALIFÓRNIA), O Estado de S. Paulo

07 de janeiro de 2020 | 09h00

As filmagens corriam a toda, e os roteiristas do reboot de Party of Five estavam reunidos no estacionamento de um hotel nos arredores de Los Angeles. As colinas ao redor, escolhidas por lembrarem alguma cidade no norte do México, brilhavam à luz do sol da tarde. Os roteiristas estavam às voltas com uma expressão.

Os mexicanos dizem Wi-Fi ou wee-fee?

“Na Espanha”, explicou um deles, “as pessoas falam wee-fee”.

Depois de alguns murmúrios, outro rebateu: “Não estamos na Espanha!”.

Os roteiristas do programa têm origens diversas e divergentes - com raízes em países de língua espanhola que se estendem da Colômbia ao México -, e ninguém no set conseguiu estabelecer a pronúncia correta. Com pouco tempo de sobra, tomaram uma decisão: filmariam com a palavra dos dois jeitos, garantindo a si mesmos pelo menos uma opção autêntica.

É o tipo de nuance que Party of Five original, sobre uma família branca de cinco irmãos e irmãs que são obrigados a crescer depois da morte dos pais, pode ter inocentemente ignorado quando estreou em 1994. Naquela época, a TV americana brilhava com um verniz de extremo otimismo. Os programas mais populares eram centrados em personagens urbanos misteriosamente ricos - e principalmente brancos. E, como a maioria das artes tradicionais daquele tempo, eram essencialmente desprovidos de política.

Mas, em 2019, políticas governamentais sectárias, como banimento de muçulmanos e separação de famílias, dificultaram a criação de um drama de TV familiar dentro da bolha. Então, quando os criadores de Party of Five decidiram fazer o reboot agora, sentiram que precisavam de uma abordagem diferente.

“Quando você lê na primeira página dos jornais que as crianças estão crescendo sozinhas porque foram tiradas de seus pais, isso é um bom motivo para contarmos essa história mais uma vez”, disse Amy Lippman, criadora da série original e do reboot, em uma entrevista no set em novembro. “Porque está acontecendo de verdade.”

Estimulados pelo desejo de se envolver nessa questão, os criadores optaram por alterar a premissa: no original, que foi ao ar pela Fox durante seis temporadas, os pais dos Salinger morreram em uma colisão de carro com um motorista bêbado. No reboot, que estreia no Freeform nesta quarta, 8, os Salingers serão substituídos pelos Acostas, cinco irmãos e irmãs cujos pais imigrantes são deportados para o México. Mais uma vez, as crianças têm que se virar sozinhas.

Michal Zebede, coprodutora executiva e roteirista da série, descendente de panamenhos e costarriquenhos, argumentou que o momento do reboot faz toda a diferença. “É uma oportunidade para realmente entrar na perspectiva de um grupo de pessoas que foi marginalizado e, muitas vezes, criminalizado neste país, para mostrar que também são pessoas de verdade”, disse.

Party of Five original tinha bastante drama, mas nascia de um impulso diferente. Barrados no Baile, da Fox, que estreou em 1990, era um sucesso monstruoso, e a rede procurava uma série que a complementasse. A Fox queria um programa sobre “crianças que moram sozinhas sem supervisão, festa o tempo todo, woo-hoo!”, disse Lippman. “Dissemos: ‘Não podemos escrever essa série. Tem que ser algo mais profundo’.”

O que Lippman e seu colega de criação, Christopher Keyser, ofereceram foi um programa emocionante e sério, que ganhou o Globo de Ouro de melhor drama de TV em 1996.

A série fervilhava de tramas melodramáticas e cenas de educação pouco ortodoxas, com personagens amados por toda uma geração de telespectadores: o filho mais velho, Charlie (Matthew Fox), tinha 20 e poucos anos, era infantil e mulherengo, mas foi forçado a assumir a responsabilidade pelos irmãos e a tocar o restaurante da família. O segundo filho, Bailey (Scott Wolf), foi a cola que manteve a família unida, até que seu alcoolismo quase a destruiu. Julia (Neve Campbell) tinha uma propensão para os romances malfadados. E a precoce Claudia (Lacey Chabert) viu sua inocência desaparecer quando foi obrigada a lidar com problemas de adultos - como ajudar a criar o irmão mais novo.

As cinco crianças Acosta têm sua própria constelação de lutas - algumas semelhantes às dos Salinger, outras específicas de sua complicada história de imigração. No piloto, seus pais, Javier e Gloria (Bruno Bichir e Fernanda Urrejola), são presos pelos oficiais de Imigração e Fiscalização Aduaneira no restaurante que possuem e administram com sucesso. Ficamos sabendo que, quase um quarto de século antes, o casal atravessou o escaldante deserto mexicano para entrar ilegalmente na Califórnia, trazendo consigo o filho Emilio, ainda no colo.

Depois de fixar residência em Los Angeles, Javier e Gloria têm mais quatro filhos. Todos são cidadãos americanos, mas a situação para Emilio é diferente: ele é um dos cerca de 800 mil imigrantes conhecidos como dreamers (SONHADORES), que vieram para o país quando crianças e receberam proteção temporária e autorizações de trabalho sob o governo Obama, no programa Ação de Adiamento para Chegadas na Infância, DACA, na sigla em inglês. Em setembro de 2017, o presidente Donald Trump anunciou que estava encerrando o programa. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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