Nova série 'Bipolar' questiona o universo policial

Inspirado em fatos reais, o drama psicológico aborda traumas, corrupção e o perigo que ronda a cada dia

Gabriel Perline, O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2014 | 02h00

Em tempos de questionamentos à conduta de policiais, que volta e meia são manchetes por conta de seus posicionamentos controversos, a série Bipolar coloca um pouco mais de lenha nessa fogueira. Com estreia marcada para esta quarta-feira, 23, às 22h30, no canal a cabo Warner, a trama de Edu Felistoque mostra os heróis civis desprovidos de suas armaduras e traz à luz, segundo o autor, a perturbação inerente a estes personagens da vida real.

“Uma das premissas da série é questionar a conduta dos policiais”, disse o diretor ao Estado. “A TV e o cinema nos apresentam o policial americano como herói e quando conhecemos a realidade dos brasileiros dá até medo. Eu já fui salvo por policiais, assim como fui atacado por eles. Então, não há ‘bem’ ou ‘mal’, tudo depende da circunstância. Estou mostrando estes policiais totalmente despreparados, que não são bem treinados e não ganham um bom salário, e se deixam seduzir pelos caminhos mais fáceis que os ajudam a sobreviver.”

A cada semana, dois novos episódios serão exibidos, apresentando um time de oficiais completamente desestabilizado, atormentado e iludido pelo poder da farda, trabalhando na resolução de casos complexos e se aliando a criminosos para montar os quebra-cabeças. 

Entre os protagonistas, a delegada Diana (Sílvia Lourenço) é a mais instável. Há um ano na corporação e sem tato para a função, deixa-se levar pelas lembranças dos erros cometidos pela vida. Já o agente Carlão (Rodrigo Brassoloto) sofre com os flashbacks de seu passado atrás das grades e tira proveito de seu cargo para ‘dar o troco’ em seus inimigos.

“As histórias e os perfis destes personagens são reais. Conheci estas pessoas e suas histórias ao longo dos anos, durante meu trabalho de documentarista”, afirmou Felistoque. “E eu tenho um problema sério de não conseguir me sentir bem trabalhando com fatos inventados. Fico mais à vontade de saber que tudo o que estou criando é pautado em fatos reais.”

E parte do perfil de Diana é inspirado em uma ex-namorada de Edu Felistoque, que se sentia poderosa ao ter um revólver nas mãos. “Nesse relacionamento, que durou apenas oito meses, combinamos de não contar um ao outro o que cada um fazia profissionalmente. Mas o comportamento explosivo dela me assustava, até que descobri que ela era delegada. Certo dia, em um bar, ela sacou uma arma da bolsa e deu dois tiros no teto, tudo porque ela queria silêncio para poder conversar. Fiquei descontrolado e pedi desculpas ao dono do bar, que minimizou o caso e me falou da fama da ‘delegadinha’”, disse.

Além das personalidades dúbias dos personagens, Bipolar chama a atenção por seu estilo cinematográfico. Com diálogos curtos e muitas cenas sem falas, Felistoque preferiu explorar as emoções em vez de verbalizar seus sentimentos. “Eu não queria verborragia. Gostaria que o silêncio fosse aterrorizador e de mostrar fotograficamente o sofrimento. Me pareceu mais inquietante”, afirmou o diretor, que está pronto para ouvir as críticas, principalmente dos oficiais da corporação. “Corro o risco de os policiais não se identificarem, mas sei que muitos vão ver um pouco de si nesta série. Também sei que existe o sabor da farda e alguns não vão admitir que suas vidas sejam assim. É pautado na realidade”, garante ainda Felistoque.

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