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Nova globeleza tem um vestido com menos rebolado

Mudança no visual da musa do carnaval da TV Globo pode ser atribuída a fase mais conservadora da sociedade

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2017 | 05h00

Todo carnaval é assim: antes da festa, vêm as polêmicas. Desde o dia 8, a 50 dias da folia, surgiu a primeira delas. A Globeleza, musa do carnaval da TV Globo, emissora detentora dos direitos de exibição dos desfiles das escolas de samba do Rio, o principal do País, passou a sambar vestida, e não mais com o corpo nu, pintado com purpurina.

Erika Moura, a atual Globeleza, usa roupas que remetem a manifestações culturais Brasil afora, e tem performance menos sensual do que as de outros anos.

Houve comemoração por parte de mulheres que se sentiam aviltadas com o que consideravam “objetificação do corpo feminino”. Houve quem considerasse a decisão da Globo um reflexo de uma onda conservadora no País. Ela estaria presente na eleição de políticos ligados a religiões – no Rio, o novo prefeito é Marcelo Crivella (PRB), é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus – e na reverberação de pautas como a do Estatuto da Família.

Além de estar fantasiada, este ano Erika economiza no rebolado, e aparece cercada por outros dançarinos, também caracterizados com roupas alusivas à folia de outros Estados – até então, a Globeleza sambava sozinha. A Globo, porém, desconversa sobre as mudanças.

“O carnaval é uma festa popular, vanguardista, inclusiva, contestadora, múltipla. Já há algum tempo, estudamos uma maneira de enriquecer a vinheta com outros ritmos do carnaval brasileiro, representando a riqueza da diversidade dessa festa popular”, diz nota oficial da emissora. “Assim, chegamos a esse formato, que une o já tradicional carnaval de avenida, com símbolos e elementos do frevo, do axé, do maracatu e do bumba meu boi. A boa acolhida do público mostra que fomos no caminho certo. Ampliamos o significado do carnaval Globeleza, uma marca importante da Globo, e o público entrou nesta festa conosco.”

No papel desde 2015, a dançarina paulistana Erika Moura, de 24 anos, responde na mesma linha: “Sou adepta de mudanças. Independentemente de estar com o corpo pintado ou coberto, está valendo, estou fazendo a minha arte. Meu corpo é meu veículo de trabalho. Não me sinta gostosa, me sinto bonita”, contou Erika, que acredita que a vinheta agora tem caráter mais nacional. “Muitas pessoas estão se vendo ali.”

Embalada por um samba de Jorge Aragão e Franco Lattari, hoje na voz do cantor Neguinho da Beija-Flor, a Globeleza foi criada pelo designer Hans Donner. A primeira foi Valéria Valenssa, que ficou no posto de 1993 a 2005, com variações nas pinturas: ora seus seios ficavam totalmente à mostra; ora a cobertura era mais extensa. Invariavelmente, dava entrevistas contando como era ficar 12 horas imóvel para a aplicação da purpurina. Ao jornal carioca Extra, Valéria, hoje com 45 anos e mãe de dois meninos, disse que a mudança seria impensável no passado. “Os tempos são outros.”

Em texto viralizado no Facebook no pré-carnaval de 2016, as feministas negras Stephanie Ribeiro e Djamila Ribeiro criticaram a hipersexualização da mulher negra representada pela Globeleza e pediam o fim da personagem. Este ano, aprovaram a troca. “A verdade nua e crua é que a Globeleza, atualmente, só reforça um lugar fatalista, engessado, preestabelecido para a mulher negra numa sociedade brasileira racista e machista e esse lugar fixo precisa ser rompido, começando com o fim desse símbolo/personagem. Não aceitamos ter nossa identidade e humanidade negadas por quem ainda acredita que nosso único lugar é aquele ligado ao entretenimento via exploração do nosso corpo. (...) Não queremos protagonizar o imaginário do gringo que vem em busca de turismo sexual. Basta!”

A pesquisadora de carnaval Rachel Valença, que acompanha os desfiles desde 1960, credita a mudança na imagem da Globeleza a um aceno ao conservadorismo. “Ela representava a passista de escola de samba e nunca foi vulgar. Na dança, a nudez não é sensualizada nem imoral, é uma forma de expressão corporal. Cobrirem esse corpo é um retrocesso, é moralismo e corresponde a uma fase de conservadorismo da nossa sociedade.”

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