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No fio da navalha

A Rose de 'Cama de Gato' não é louca feito a Bebel. Mas tem seus arroubos, anota Camila Pitanga

Patrícia Villalba, O Estado de S. Paulo

05 de outubro de 2009 | 13h32

Depois de se tornar sensação nacional como a exuberante Bebel de Paraíso Tropical, em 2007, Camila Pitanga volta à TV amanhã com uma personagem muito mais comedida do que a prostituta de batom lilás. Rose, a protagonista de Cama de Gato, nova novela das 6 da Globo, que substitui Paraíso, é uma mãe batalhadora que trabalha como faxineira para sustentar os quatro filhos - e também o ex-marido pilantra, que finge ser doente. Não é por isso, entretanto, que se pode dizer que Rose é o oposto de Bebel. "A novela tem o humor como forte ingrediente, em vários níveis. E a Rose, apesar de trabalhadora e íntegra, não é uma mulher séria e triste", adianta Camila ao Estado. Muito pelo contrário, ela é impulsiva, "fala o que lhe dá na telha."

 

É a primeira protagonista da carreira de Camila, que estreou na TV na minissérie Sex Appeal, em 1993, e desde então interpretou 11 personagens. Antes da estreia de Cama de Gato, diz ela, já deu para sentir o tal "peso da protagonista": "Nunca gravei tanto em toda a minha vida", confessa. Bem-humorada, aproveita para dizer que o ritmo acelerado das gravações da novela não vai afastá-la da apresentação do Som Brasil, programa musical que vai ao ar uma vez por mês.

 

Nesta entrevista, a atriz fala sobre sua nova personagem na novela escrita por Thelma Guedes e Duca Rachid. Como ela, Rose é noveleira convicta, a ponto de batizar os filhos com os nomes de seus atores preferidos - Tarcísio, Glória, Regina e Francisco.

 

Depois de fazer tanto sucesso como Bebel, você se preocupou em distanciar a Rose dela, quando aceitou fazer Cama de Gato?

 

Não. Não me apaixonei pelo personagem pela oposição a Bebel, mas pelo que li na sinopse, que achei muito vibrante. O que me conquistou na Rose foi o humor dela, que já saltava aos olhos nos primeiros capítulos que o Ricardo (Waddington, o diretor de núcleo da novela) me mandou. Aceitei fazer a Rose em função desse novo desafio. A Bebel tem o seu lugar no meu coração para sempre, não a comparo com nenhuma outra personagem.

 

A Rose é, então, uma heroína engraçada? Não é uma construção muito comum.

 

Não é mesmo. O humor é um forte ingrediente da novela, como um todo, tirando a Verônica (Paola Oliveira), que é a vilã, e o Gustavo (Marcos Palmeira), que é o herói. E a novela tem comédia em vários níveis. Tem, por exemplo, o Pedro Paulo Rangel e a Suely Franco (Ferdinando e Julieta), que são um casal louquinho e divertido, e o Ailton Graça, que faz o Tião, o ex-marido cafajeste da Rose. Ele é quase um filho para ela, tremendo safado que se faz passar por doente. Nesse caso, quando os dois estão juntos é uma gag da ingênua sendo ludibriada pelo safado. Ela fica "P" da vida, pega o chinelo para bater nele. Daí, rola um barraco muito divertido! Por ser a protagonista, a Rose tem muito da heroína romântica, mas com um quê a mais. Não é um tom escrachado, mas estou achando muito divertido. Adoro quando tem cena dela dirigindo a Kombi! Mesmo assim, tomo cuidado para não cair na gaiatice, sabe?

 

Sim, afinal, ela é a protagonista. A linha é fina, então.

 

Justamente por estar no fio da navalha, achei um desafio bacana. Ela tem o lado heroína romântica, de uma narrativa mais de folhetim, mas com muita personalidade. Estamos mais acostumados com a menina pobre que se transforma para ficar com o cara rico. Agora é o contrário: ele é que se transforma para entrar no universo dela. A novela propõe uma reflexão sobre como as pessoas podem perder sua essência por causa do dinheiro.

 

Soube que você fez aulas de dança para compor a personagem. Por quê?

 

Ela tem muitas facetas. E dança. Acho que ela deve ter visto a Dança dos Famosos na TV e aprendeu a dançar (risos). Em certo momento, ela fica sabendo que o dono do clube perto da casa dela está procurando uma partner, para o baile que acontece ali uma vez por mês. Como ela está desempregada, aceita dançar, como um bico. A Rose é bem híbrida, não está num tom só, dramático ou cômico. Acho difícil fazer isso, mantendo o eixo e a essência do personagem. Não posso pesar a mão, nem escrachar. Por isso, fico feliz quando consigo dar uma pitada de humor, mesmo nas cenas mais dramáticas.

 

A novela ainda não estreou, mas já deu para sentir alguma diferença em ser protagonista?

 

Olha, deu, porque eu nunca gravei tanto em toda a minha vida! A compensação é que estou muito bem acompanhada, com uma turma bacana. Os bastidores são muito bons. Já havia trabalhado com o Ricardo Waddington em Sex Appeal, meu primeiro trabalho na TV, então está sendo ótimo. O bom relacionamento com a equipe é fundamental, porque trabalha-se muito, muito. Tanto é que eu aproveito para dormir um pouquinho quando as gravações dão uma parada. Ontem mesmo, tirei um cochilo enquanto trocavam a luz de uma cena. É incrível como 20 minutos de sono podem valer tanto.

 

Mesmo assim, não vai deixar de apresentar o Som Brasil?

 

Não mesmo! É um programa que faço com tanto carinho e com tanto prazer.... Quando o Ricardo (Waddington) me convidou para a novela, falei "vem cá, não preciso sair do Som Brasil, né?". Pulei de alegria quando ele disse "claro que não!". Gosto muito de música, sempre digo isso. E, para mim, é uma rara oportunidade de testemunhar um momento especial da música brasileira - adoro! O programa promove um encontro de dois tempos da música brasileira, é um resgate dos clássicos com um olhar para o futuro.

 

Você é filha de ator (Antonio Pitanga) e talvez não tenha tido uma visão da TV como a maioria das crianças. Mas tem algo de noveleira, como a sua personagem na novela?

 

Sim! Vi muita TV, sempre fui muito noveleira. Na minha casa, embora meu pai fosse intelectual, não havia limitações sobre o quanto eu ficava em frente à TV. Ele proporcionava acesso a livros, cinema e teatro, mas não barrava a TV nunca. Hoje em dia, até penso que é bacana você impor um limite para a criança, não deixar ver certas coisas. Mas naquela época, nem havia tanta programação destinada a crianças. Por isso, vi muita novela.

 

Costuma ver também a novela em que está?

 

Sim. Gosto de ver para saber no que dá, qual o resultado depois da música e da edição. Dentro do todo você entende a função dramática do seu personagem, daí pode fazer a diferença.

 

Num remake dos sonhos, qual papel você gostaria de interpretar?

 

Ah, a Maria de Fátima de Vale Tudo! Ia me divertir muito fazendo aqueles cambalachos ao som do Barão Vermelho. Gilberto Braga com Glória Pires, nossa, era muito boa aquela novela!

 

Já parou para pensar no porquê de nós brasileiros sermos tão noveleiros?

 

Rapaz... Não sei, não. Acho que é uma coisa mais inconsciente, um hábito. É igual ao futebol. Uma maneira de abstrair, de dar uma desencanada. Como todo mundo vê, a novela acaba gerando uma discussão ampla sobre determinado assunto. Mas algum sociólogo pode ter alguma reflexão melhor, sei lá.

 

Quando Cama de Gato estrear amanhã, teremos duas protagonistas negras ao mesmo tempo na TV. E há de se notar que tanto a Helena de Viver a Vida (Taís Araújo) quanto a sua Rose são personagens cuja cor da pele da atriz não importa, não é elemento na construção da história. É um momento especial?

 

É um momento muito feliz sim, e com muita naturalidade. O barato é esse, isso aconteceu de forma natural, é uma coincidência. Acho que agora a tendência é isso se tornar cada vez mais comum, e menos surpreendente. Até porque é o espelho da nossa realidade.

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