Ninguém defende as traviatas do subúrbio?

Quando a gente pensa que está livre dos chatos, eles voltam cheios de gás. Agora é alguma entidade protetora dos direitos das enfermeiras que vem a público protestar contra a personagem de Alzira. Como sabe quem acompanha Duas Caras, Alzira - vivida por Flávia Alessandra em ótima forma física - é uma falsa enfermeira, casada e mãe de dois filhos, que passa a noite dançando feito uma qualquer na boate da Portelinha.Até agora nenhuma sociedade protetora das dançarinas de inferninho se manifestou contra a personagem que, em vez de passar o dia dormindo e descansando das refregas noturnas, finge gastá-lo em algum dilapidado hospital do Rio de Janeiro. E como se trata de novela de Aguinaldo Silva, deveria ser um hospital da Baixada Fluminense, o que só aumentaria o tormento da cortesã global. Se fosse de Manoel Carlos, pelo menos, o hospital seria no Leblon (e se fosse de Walcyr, seria algum centro de recuperação espírita).Defendem os revoltosos a idéia de que qualquer pessoa que veja Alzira trocando o uniforme branco por um tapa-sexo vá deduzir que todas as enfermeiras do mundo façam disso uma rotina. Primeiro: é triste, mas nem toda enfermeira pode se dar ao luxo de expor o corpinho daquele jeito. E outra: será ingenuidade de minha parte imaginar que a vida não é bem assim? Será paranóico demais negar ao telespectador o direito de raciocinar? Vamos e venhamos: se alguém tiver idéias libidinosas com qualquer enfermeira a partir da novela de Aguinaldo, o problema está na pessoa que imagina.Negar à pobre Alzira que reforce o orçamento e a libido na função de mulher da vida é cortar o barato da imaginação aguinaldiana. Na verdade, é dar importância demais a algo que não passa de ficção, fazendo um protesto que só ingênuos e fundamentalistas levam adiante. Da mesma maneira que ninguém mais sai batendo em ator que interpreta o vilão, o público também sabe separar o que vê na telinha do que acontece na vida real. Com seu chororô, os reclamantes só chamam a atenção para a novela. E convenhamos: os usuários da rede pública de hospitais, especialmente no Rio, têm tão pouco contato com enfermeiras de verdade que, para eles, a personagem de branco é de mentirinha. A verdadeira mesmo, reconhecível, é a peladona do poste.

Mário Viana, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2007 | 00h54

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.