REUTERS/Mike Blake
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Netflix se endivida para financiar o aumento de assinantes

Os bilhões de dólares que a Netflix tomou emprestados para financiar séries exclusivas ajudaram a companhia a mais que triplicar sua audiência global

Michael Liedtke, AP

18 Outubro 2017 | 10h39

A Netflix mergulha em dívidas em sua incansável busca por mais espectadores, o que deixa a empresa com pouca margem de erro no esforço de construir o maior serviço mundial de vídeos por assinatura. Até agora, o enorme débito da companhia não é uma grande preocupação em Wall Street, uma vez que a estrategía do presidente Reed Hasting tem dado resultado.

Os bilhões de dólares que a Netflix tomou emprestados para financiar séries exclusivas como House of Cards, Stranger Things e The Crown ajudaram a companhia a mais que triplicar sua audiência global nos últimos quatro anos,com 109 milhões de assinantes contabilizados até setembro.

Esse número inclui 5,3 milhões de assinantes que ingressaram no período julho-setembro, de acordo com o relatório trimestral de lucros divulgado nesta segunda-feira. O crescimento ultrapassou as previsões de administradores e analistas e as ações da 

Netflix subiram 1% no pregão eletrônico, com tendência a nova alta na terça-feira. Nos últimos quatro anos, as ações quintuplicaram de valor.

Se o os assinantes continuarem chegando no ritmo atual, a Netflix poderá passar à frente de seu modelo, a HBO,em poucos anos. A HBO começou este ano com 134 milhões de assinantes no mundo. “Estamos indo a 100 milhas/hora em nossa investida mundial”, disse Hastings comentando o último relatório.  Mas o crescimento da captação de assinaturas pode diminuir se a 

Netflix não mantiver o número de suas séries e filmes de sucesso agora que enfrenta mais competidores, incluindo Apple, Amazon, Hulu e YouTube.

Se isso ocorrer, atenção sobre os enormes gastos com programação da Netflix pode aumentar levando a uma fuga de investidores, segundo o analista da CFRA Research Tuna Amobi. “Mas até agora a Netflix vem mantendo um forte aumento do quadro de assinantes”, frisou Amobi.

As dívidas de longo prazo e outras obrigações da Netflix eram de US$ 21,9 bilhões em 30 de setembro, comparados aos US$ 16,8 bilhões do mesmo período do ano passado. Isso inclui US$ 17 bilhões gastos na programção de vídeos, em comparação aos US$ 14,4 bilhões de um ano atrás. A maior parte dos pagamentos está programada para os próximos cinco anos. A companhia prevê gastar de US$ 7 bilhões a US$ 8 bilhões em programação no próximo ano; neste ano, o gasto é calculado em US$ 6 bilhões.

A Netflix, com sede em Los Gatos, Califórnia, vem tomando emprestado para pagar a maior parte das despesas com programação porque não gera ingressos suficientes para arcar sozinha. No último trimestre, a empresa teve mais US$ 465 milhões de “fluxo de caixa negativo”, no jargão contábil.

Segundo a Netflix, no ano o fluxo de caixa negativo poderá ser de US$ 2,5 bilhões, tendência que a direção prevê que continuará pelos próximos muitos anos com a diversificação da origramação de vídeos para a atender aos gostos de 190 países. Com tudo isso, a 

Netflix continua dando lucro, pelos padrões contábeis dos Estados Unidos. No último trimestre, o lucro foi de US$ 130 milhões, num faturamento de US$ 3 bilhões.

A administração parece estar tentando diminuir as perdas financeiras com um aumento das mensalidades entre US$ 1 e US$ 2, antes ainda do finaldo ano, para a maior parte dos 53 milhões de assinantes dos EUA. A elevação dos preços alavancaria o faturamento do próximo ano em US$ 650 milhões, segundo previsão do analista Mark Mahaney, da RBC Capital Markets.

Mas a medida pode ter um efeito negativo se provocar um alto cancelamento de assinaturas, situação que a Netflix já enfrentou ao elevar mensalidades no passado. A maioria dos analistas porém, não crê que isso venha a acontecer desta vez – tese que a 

Netflix apoia com aprevisão do aumento de seu crescimento. A administração conta adicionar 6,3 milhões de assinantes no período outubro-dezembro, algo ligeiramente acima do que preveem os analistas, de acordo com a organização FactSet.

A Netflix há muito argumenta que a tomada de empréstimos faz sentido na busca de uma grande vantagem sobre a concorrência num momento em que cada vez mais pessoas assistem a programas em aparelhos conectados à internet. Mais: a direção da empresa assinala que o total da dívida é pequeno se comparado ao valor de mercado da Netflix, que é de cerca de US$ 90 milhões.

Com uma carteira de ações assim valiosa, a Netflix, em tese, pode vender mais cotas para levantar dinheiro – mais ou menos como as pessoas tomam empréstios com base no valor de suas casas para pagar grandes dívidas. Mas, no entanto, pode ser mais difícil se o valor das ações despencar em meio a preocupações com a dívida.

O analista Michael Pachter, da Wedbush Securities, questiona também o valor no longo prazo da linha de programação da 

Netflix: “De que adianta para você, por exemplo, a primeira temporada de House of Cards, se você já viu a série inteira? Provavelmente, só interessaria a alguém que não assinou a Netflix nos últimos cinco anos”. E isso, segundo Pachter, “quer dizer que a 

Netflix terá virtualmente de se reinventar a cada ano, o que sai caro.”

Tradução de Roberto Muniz

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