Neonazistas tocam o terror em novela da Record

Com estreia marcada para junho 'Vitória' terá um núcleo que atacará negros e nordestinos nas ruas do Rio

João Fernando, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2014 | 02h14

Fazer mal aos outros, mesmo que seja na ficção, tem causado remorso nos atores de Vitória, próxima novela da Record, prevista para estrear em 2 de junho. A trama, escrita por Cristianne Fridman (de Vidas em Jogo), terá um núcleo neonazista, que vai atacar negros, nordestinos e quem mais não se enquadrar no perfil ideal de ser humano dos vilões.

"Não tem sido muito fácil, não. Já gravamos um ataque a um ônibus de nordestinos, tivemos cenas bem racistas, como o atropelamento de um flanelinha negro, e quando acaba eu sempre fico com dor de cabeça. Tenho algumas formas de desligar do personagem e do trabalho, como um banho quente, tomar um chá, e outras técnicas de relaxamento e alongamento, que estão me ajudando bastante. Eu não quero nem pensar no que ainda está por vir", confessa Marcos Pitombo, que interpreta Paulão, um dos cabeças da organização.

A líder no movimento neonazista será a namorada do vilão, Priscila Schiller, uma gaúcha com ideais cruéis, vivida por Juliana Silveira. Ao se mudar para o Rio, onde a história é ambientada, ela levará uma vida dupla. Durante o dia, é a rígida diretora de uma escola. À noite, vai comandar ações para eliminar as minorias sociais. Má, ela não vai poupar nem os alunos. "Ela não gosta de um aluno gordo e faz bullying. O discurso dela é que crianças precisam de disciplina. Quando ela chega a um acampamento da escola, faz aquilo virar um acampamento nazista", conta a atriz, que também sofre no fim das gravações. "Não consigo dormir."

Apesar de a situação parecer estranha para um cenário carioca, os artistas ficaram surpresos ao pesquisar sobre o assunto. "Um ator do nosso elenco deu um depoimento de que tinha sofrido uma situação bem ameaçadora. O Silvio Guindane contou que, durante uma viagem a Paris, no metrô, um grupo de neonazistas começou a encará-lo de uma forma bastante hostil, Quando ele saiu da estação, foi seguido por esse grupo. O Silvio nos contou que nunca tinha passado por nada parecido aqui no nosso país, mas, dessa vez, teve muito medo de que algo ruim de fato acontecesse. A saída que ele encontrou foi entrar num café e só sair muito tempo depois", descreve Pitombo.

Juliana diz que o preconceito dos personagens tem outras manifestações na vida real. "É um assunto que está explodindo, mas não tem essa luz (de estar na novela). Isso começou a pipocar nos estádios de futebol", defende a atriz, citando as ofensas que jogadores estrangeiros ouvem na Europa. "A nossa surpresa não foi que esses grupos de fato existem, e sim o grau de organização que eles têm. Pela internet, os membros se comunicam. Há grupos com mais de mil integrantes. Eles têm até ligação com grupos estrangeiros. Sem falar de partidos de extrema-direita, que não se intitulam neonazistas, mas defendem de forma camuflada esses ideais. Há ainda os que são contra a abolição do sistema de cotas, a criminalização da homofobia", exemplifica Pitombo.

Segundo Juliana Silveira, não há uma razão para que os vilões na novela cometam os crimes. "A autora diz que não há justificativa e resolvi não pirar nessa questão. Eles são psicopatas", opina a atriz, que não sabe o que esperar da repercussão com o público nas ruas. "Atualmente, as pessoas têm tendência a gostar do vilão. Acho que com esses isso não vai acontecer."

Tudo o que sabemos sobre:
NovelaVitóriaTV Record

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.