Nem Chapolin Colorado contava com tanta astúcia

Em entrevista de 2003 ao 'Jornal da Tarde', Roberto Bolaños disse que não queria mais fazer televisão para não cansar seu público

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2014 | 19h52

Ninguém mais contava com a astúcia de Chaves quando ele saiu do barriu e ajeitou o suspensório para abater no Ibope dois noticiários matutinos da Globo: o SPTV 1ª Edição, por 7,3 a 7,2, e o Jornal Hoje, por 9 a 8,5. Isso já era 2011, quando o criador do fenômeno mexicano, Roberto Bolaños, contabilizava 82 anos, seis filhos, doze netos e o amor de sua dona Florinda. Um gigante para crianças de 30 países que já havia passado 43 anos em frente a alguma câmera de TV e escrito roteiros em 63 mil folhas, o equivalente a 2,4 milhões de linhas e 168 milhões de letras. As contas são reais e foram feitas por quem mais teve paciência com Bolaños, a atriz Florinda Meza, dona Florinda, o amor de sua vida.

Quando Bolaños falou comigo, há 10 anos, em uma entrevista para o Jornal da Tarde, ele lançava um livro chamado ‘..Y También Poemas’, uma compilação de versos que escrevia havia 25 anos. Seu sonho também era contar a própria história em uma autobiografia delicada. “Vou respeitar as pessoas. Não serei cínico”, disse. A turma do Chaves não era mais a mesma havia anos, quando Bolaños descobriu que nem todos que o seguiam eram os bons.

Chiquinha, ou María Antonieta de Las Nieves, foi a mágoa que levou para o túmulo. A atriz registrou a personagem criada por ele sem avisá-lo e saiu pela imprensa justificando-se no melhor estilo novela mexicana. “Eu estava muito mal, minha netinha estava doente, perdi as economias de toda a minha vida na bolsa de valores. E, para completar, sou processada”. Ao Jornal da Tarde, Bolaños não escondeu seus sentimentos: “Ela foi minha amiga por muitos anos e eu havia permitido que usasse a personagem Chiquinha em todo o mundo, o que deve ter rendido uma fortuna da qual jamais lhe pedi um centavo. Mas ela quis se apropriar de maneira ilícita dos direitos. O que mais me afetou foi a deslealdade, ela traiu minha confiança.”

Os corredores da mexicana Televisa contavam que Kiko, o Carlos Villagrám, havia tido um caso com Florinda antes de ela se casar com Bolaños. Invenção ou não, o fato é que os dois atores passaram 20 anos sem trocar palavras. A ferida nas três pontas do triângulo amoroso se manteria aberta até que a emissora promoveu um reencontro. Bolaños “Chaves” e Villagrán “Kiko” apertaram as mãos, se abraçaram, foram para suas casas e nunca mais se falaram.

Sobre sua volta à TV, aqui está o que Bolaños pensava em seus últimos anos de vida: “Minha imagem continua muito viva por causa das incansáveis repetições dos programas. Por isso, acho que este não é um momento para fazer televisão. Respeito meu público e não quero que ele se canse com tanto Chaves e Chapolin por toda a parte.” Sua decisão era tão louvável quanto inútil. Assim que sua morte foi anunciada, no início da noite desta sexta-feira, o SBT exibia mais um capítulo de Chaves.

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