NatGeo Wild
No Dia do Elefante, NatGeo Wild apresenta série de documentários sobre os animais NatGeo Wild

NatGeo faz homenagem aos elefantes

No Dia Mundial desses animais, o canal apresenta cinco documentários 

Mariane Morisawa, Especial para O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2020 | 10h00

Quem não ama elefantes? E, mesmo sendo unanimidade, esses gigantes estão ameaçados de desaparecimento. Restam pouco mais de 400.000 na África e menos de 50.000 na Ásia. No Dia Mundial do Elefante, nesta quarta-feira, 12, o canal NatGeo Wild faz uma homenagem a esses animais tão queridos com uma série de programas, começando por “Elefantes: Em Nome da Liberdade”, às 20h30, em que a atriz Ashley Bell vai ao Camboja para documentar o resgate da elefanta Noi Na, usada em passeios para turistas, pela ativista Lek Chailert. Às 21h15, é a hora de “Quase Humanos: A Vida dos Elefantes”, que acompanha três famílias de elefantes pela África. Depois, às 22h, “Elefante Rainha” retrata a jornada de uma elefanta que acaba de assumir o posto de matriarca de seu grupo. Às 22h45, um episódio especial de “Sri Lanka: Um Mundo de Extremos” segue o filhote Loka. E às 23h30, “Mente de Elefante” investiga a inteligência desses bichos. 

Os programas permitem que o espectador conheça mais sobre esses bichos e se apaixone por eles, sem precisar recorrer a práticas que são prejudiciais aos elefantes, como fazer passeios montado neles, comprar pinturas feitas pelos animais ou ver shows protagonizados por eles. O documentário “Elefantes: Em Nome da Liberdade”, por exemplo, mostra como os elefantes asiáticos sofrem em seu adestramento para cumprir essas tarefas para o deleite dos turistas. “Todos nós queremos estar ao lado de ou tirar uma foto com uma espécie como essa porque são animais incríveis”, disse em entrevista ao Estadão o pesquisador mexicano Antonio de la Torre, que tem experiência com elefantes asiáticos. “O mal é que não nos damos conta do que está por trás de tudo isso. Para que esses animais fossem adestrados ou domesticados, tiveram que passar por um processo muito violento, e a maioria foi retirada de suas famílias desde muito pequenos e está em condições muito deploráveis", diz. Sua recomendação é que as pessoas que quiserem estar perto dos elefantes procurem santuários ou locais onde possam ser observados em seu habitat natural.

No caso do elefante asiático, a principal ameaça é justamente a destruição e a fragmentação de seu habitat. Menos de 50 mil animais espalham-se por 13 países diferentes, quase todos densamente povoados. “É por isso que ocorrem tantos conflitos entre humanos e elefantes”, disse De La Torre. Só na Índia, estima-se que cerca de 300 pessoas morram anualmente, provocando retaliação contra os animais. Outro motivo de confronto é a invasão de lavouras, já que os seres humanos estão ocupando cada vez mais as florestas em que eles vivem. “O grande desafio é assegurar a boa convivência entre pessoas e elefantes”, disse o pesquisador. 

Seu trabalho na Ásia consistiu justamente em estudar o movimento dos animais, algo parecido com o que faz no México, acompanhando os trajetos das onças-pintadas. As políticas de gestão costumam transferir elefantes em proximidade com os humanos para uma área natural protegida, o que não é ideal. “Os elefantes acabam voltando aos lugares de cultivo, porque são animais muito sociáveis. Imagine se você fosse retirada de seu núcleo familiar à força e levada a outro lugar. Isso seria muito estressante, assim como é para os elefantes, que vivem em grupos".

Vindo de um país em desenvolvimento, Antonio de la Torre entende que a pobreza é um dos fatores que levam à destruição do habitat natural dos animais. “Muita gente não gosta de dizer isso, mas a conservação precisa andar de mãos dadas com o desenvolvimento das comunidades locais. É preciso aliviar a pobreza e oferecer alternativas.” 

A pandemia da covid-19 é outro fator de preocupação. “Muitas organizações viram seus fundos diminuírem drasticamente”, disse De la Torre. “E é verdade que em alguns lugares houve redução da caça porque os deslocamentos foram limitados, mas aqui no México, por exemplo, ela vem aumentando porque as pessoas procuram uma maneira de sobreviver. Para piorar, os santuários e centros de vida silvestre ficaram sem o dinheiro dos turistas.” Cuidar de elefantes custa dinheiro. Cada um consome cerca de 150 quilos de comida diariamente. Por isso, as doações são mais importantes que nunca.

 

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Como transportar seu elefante durante uma pandemia

O nome da elefante era Mara. Ela tinha cerca de 50 anos, e passou metade da vida em uma jaula empoeirada do zoológico de Palermo, bairro na região central de Buenos Aires

Brooke Jarvis, The New York Times - Life/Style

11 de agosto de 2020 | 10h00

A fronteira entre Argentina e Brasil já tinha sido fechada há dois meses por causa da pandemia do coronavírus quando, no início de maio, um comboio incomum se aproximou do posto de controle em Puerto Iguazú. Eram 15 pessoas, todas elas há dias dormindo pouco, e seis veículos, incluindo um guindaste e um grande caminhão.

Atrás do caminhão vinha uma caixa de transporte especializada. Dentro da caixa havia um elefante.

O nome da elefante era Mara. Ela tinha cerca de 50 anos, e passou metade da vida em uma jaula empoeirada do zoológico de Palermo, bairro na região central de Buenos Aires. O zoológico já foi a peça central dos grandes parques vitorianos da cidade, um símbolo do seu prestígio. Como observou o vice-presidente da Argentina em 1888, não há grande cidade que não tenha um zoológico.

No espírito da época, o espaço dedicado a Mara foi construído para lembrar as ruínas românticas de um templo hindu. Mas, para ela, aquele era um lar difícil, pequeno e tenso, habitado por dois outros elefantes. Nesse caso, elefantes africanos, espécie diferente de Mara, um elefante asiático, e como os dois tipos não se davam bem, os cuidadores evitavam ao máximo que os animais compartilhassem o mesmo espaço apertado — levando-os para lá e para cá e alternando entre as partes interna e externa diariamente.

Mara passava bastante tempo em ambiente interno, mas os elefantes precisam caminhar para fazer a digestão e conservar a saúde dos pés, e passava muito tempo sozinha, embora os elefantes sejam extremamente sociáveis. Com frequência, passava horas balançando a cabeça em círculos, comportamento considerado um indicativo de estresse em elefantes cativos. Os visitantes observaram o mesmo comportamento em um urso polar, Winner, antes da sua morte durante uma onda de calor em 2012. Alguns anos mais tarde, dois leões-marinhos do zoológico morreram em um intervalo de poucos dias.

O público começou a protestar por providências — não apenas para melhorar as condições de Mara, mas de todos os animais, uma população de aproximadamente 2.500 em 2016, que habitava apenas 17 hectares. Um grupo de manifestantes, SinZoo, disse pedir “a liberdade dos prisioneiros de Palermo". A cidade, proprietária do terreno, decidiu intervir e assumir a administração do zoológico, que até então coubera a uma empresa privada.

Mas, de acordo com Tomás Sciolla, que se tornou o novo gerente de preservação e vida silvestre, a essa altura os protestos colocavam uma pergunta que a cidade tinha que levar a sério: seria suficiente melhorar a vida de animais que ainda viveriam em um zoológico? Nossa relação com os animais e o seu papel na sociedade não mudou nada desde 1888?

A cidade decidiu que o terreno deveria ser transformado em um “parque ecológico", onde crianças pudessem aprender a respeito da preservação e animais silvestres passassem por reabilitação, sem permanecer indefinidamente expostos ao público pelo resto da vida. A comissão começou a procurar uma forma de devolver os animais a novos lares em santuários e reservas ambientais. Alguns já estavam velhos ou doentes demais para a viagem, e alguns animais morreram. Mas, conforme a logística era decifrada, muitos outros partiram: três ursos-de-óculos foram levados a um santuário animal no Colorado; a orangotango Sandra foi para o Centro de Hominídeos em Wauchula, Flórida. Já no segundo trimestre deste ano, 860 animais tinham sido transportados. Mara seria a número 861.

A comissão planejou transferi-la para um santuário de elefantes no Brasil, um complexo de 1.130 hectares criado recentemente no estado do Mato Grosso. Mas o transporte de um elefante por 2.730 quilômetros atravessando fronteiras internacionais exige uma grande papelada (o objetivo da burocracia é evitar o contrabando de animais, particularmente de espécies ameaçadas). No caso de Mara, para a obtenção das autorizações era necessário provar onde ela tinha nascido e onde tinha vivido antes de chegar ao zoológico em 1995. Na época, ela foi confiscada do Circo Rodas por causa de maus tratos. Mas por onde o animal tinha passado antes disso?

A atenção da mídia para o caso de Mara resultou no envolvimento do público, e as pessoas contribuíram com informações. A família Tejidor, que operou vários circos no passado, informou ter comprado Mara no início dos anos 1970, com dois outros elefantes, vindos do Tierpark Hagenbeck, um zoológico de Hamburgo, Alemanha. Este zoológico a adquiriu ainda jovem na Índia, onde ela nasceu em cativeiro em um campo de trabalho. Victor Veira Tejidor, cujo avô e tio-avô foram proprietários do circo que a comprou, lembrava de Mara como uma integrante da família, ávida por atenção e afeto.

“É uma criatura muito especial", disse ele. Durante anos, Mara viajou com a família de cidade em cidade pela Argentina, Uruguai e Brasil, apresentando-se para o público. fotos antigas mostram a elefante ainda filhote, com dois homens apoiados em suas costas; outra imagem mostra ela adulta, subindo em um banquinho com um enfeite na cabeça; equilibrada nas patas dianteiras e na tromba dentro de uma tenda vazia.

A família de Veira deixou o ramo do circo em 1980, quando ele tinha 12 anos, e Mara foi vendida ao Circo Rodas.

“Foi aí que as coisas começaram a ficar ruins para ela", disse Sciolla. Mara não “se comportava bem” — “afinal, o que é ‘comportar-se bem’ para um elefante vivendo em cativeiro e obrigado a se apresentar?”

O novo circo contratou o antigo treinador de Mara para fazer com que ela retomasse as apresentações. Mas, possivelmente sentindo-se ameaçada, Mara o matou. “É verdade que os elefantes não esquecem", disse Sciolla. Antes de ser confiscada e levada para viver no zoológico, ela foi encontrada acorrentada em um estacionamento.

Mas as condições de vida no zoológico não eram muito melhores e, passadas duas décadas e meia, Sciolla estava desesperado para tirar Mara de lá. O plano de saída exigiu uma minuciosa coordenação entre diferentes ministérios e dois governos nacionais, mas, finalmente, as peças se encaixaram: Mara seria finalmente transferida para o santuário no Brasil em março.

“E, claro, foi então que teve início a covid-19", disse Sciolla.

A Argentina impôs umas das quarentenas mais rigorosas da América Latina, e o plano original teve de ser abandonado. Mas a janela de oportunidade para o deslocamento de Mara garantida pela documentação estava se fechando rapidamente. Sciolla, que tem uma grande foto de Mara no seu apartamento, viu-se envolvido em uma conversa um tanto surreal com uma série de funcionários do governo.

“Sei que estamos no meio de uma crise", disse-lhes. “Mas temos um elefante para transportar.”

Ele ficou comovido com a disposição das autoridades em ajudar a tornar isso possível.

Com isso, após uma vida longa e complicada, Mara viu-se em uma caixa, em plena pandemia, esperando para atravessar uma fronteira internacional fechada. Apenas quatro dos humanos receberam autorização para cruzar a fronteira com ela e acompanhar a jornada final até o santuário. Mas, depois que o grupo menor passou pela fronteira, Sciolla começou a sentir certo alívio de “toda a pressão que sentimos quando estamos a milhares de quilômetros de casa com um elefante".

Houve um obstáculo final — transportar a elefante exausta para um caminhão capaz de vencer os últimos 65 quilômetros de estrada esburacada — e, finalmente, a caixa chegou a um espaço aberto, cheio de grama e árvores. Sciolla fica emocionado ao lembrar do momento.

“Sentimos que todo o esforço vale a pena quando vemos um animal que passou a maior parte de sua vida fora do seu hábitat natural recuperar o elo com a própria essência e lembrar quem é", disse ele. “Para ela, esse dia demorou muito.”

Mara logo formou laços com outro elefante indiano chamado Rana. A amizade foi tão rápida e intensa que alguns dos presentes se indagaram se os dois animais seriam conhecidos de infância — seria Rana um dos três elefantes comprados de Hamburgo tantos anos atrás? Veira duvida disso, mas ficou comovido ao ver vídeos de Mara explorando seu novo lar depois de tantas décadas viajando.

“É ótimo vê-la em um lugar onde ela deveria estar desde sempre", disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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