Não sou móveis e utensílios

Nesta entrevista ao Estado, Betty Faria fala da rebeldia que pauta a sua vida, carreira e até as idas ao cabeleireiro.

Patrícia Villalba,

01 de março de 2010 | 09h29

A Amália é uma personagem bem diferente das figuras mais famosas que você interpretou. O que te fez aceitar o papel?

Ela é romântica, o que a minha mãe chamava de "um amor e uma cabana", pessoa desprovida de ambição material, tem valores muito bonitos. E é muito bom você fazer um personagem que passa coisas boas num momento em que o mundo anda tão deturpado. Ontem, eu vi o Big Brother Brasil... Tanto tempo perdido com aquele lixo... Uma violência, pessoas brigando, uma coisa horrível. Por isso, eu não gostaria de fazer uma vilã hoje.

Não?

Para quê? Para mostrar as minhas gracinhas de atriz? Não preciso disso. Acho a missão de tocar o coração das pessoas muito mais importante.

Você acredita, então, na função social das novelas?

Sim. E não é pretensão minha achar que o nosso trabalho pode influenciar a vida das pessoas. Tive essa experiência, porque fiz novelas de muito sucesso. Em Pecado Capital (1975), falei muito para a (autora) Janete Clair que a Lucinha tinha de ficar com o Carlão (Francisco Cuoco), que era o cara com pegada, e não com aquele velho do Salviano (Lima Duarte). Mas acabou que mataram o Carlão e a Lucinha ficou mesmo com o Salviano. Um dia, estava na praia e uma mocinha linda veio falando para mim "Você não imagina o quanto a Lucinha me ensinou! Olha ali o meu Salviano", e apontou um sujeito velho e barrigudo. A Lucinha passou o sonho da Cinderela para aquela moça! A Lígia de Água Viva (1980) também influenciou muita gente, dava o exemplo da mulher que se separa do homem e vai procurar a vida. Então, meu amor, a novela tem um poder muito sério.

Ainda tem?

Ainda, não! Vai ter sempre. Novela e corrupção no Brasil sempre vai ter.

Essa mecha grisalha é concessão à personagem?

Há muito tempo tenho vontade de fazer. Mas os cabeleireiros ficam loucos! Meu cabeleireiro no Rio teve um ataque! Percebi que há um preconceito, um machismo... As mulheres precisam vender uma imagem de eternamente jovens. Por isso, estão todas doidas, com as bocas assim (faz bico). É muito doido. Mas os homens, ah, estão umas delícias - Caetano, Richard Gere... Por que eles podem e a gente não? Quer dizer que nunca mais vai chover na minha horta?

Chamou atenção porque você tem uma imagem ligada à beleza e à jovialidade.

Você tem de entender o seguinte: eu sou rebelde. Sou ligada à beleza porque quero ficar uma velhinha bonitinha, arrumadinha. Você diz que sou ligada à beleza. Então, eu te digo que acho essa mecha bonita. E posso ter generosidade para dar uma mecha branca para o meu personagem. Porque a Amália é o tipo de mulher que não pode ir ao cabeleireiro pintar.

Você se junta às atrizes que reclamam da falta de bons papéis para as atrizes maduras?

Não, não e não. A Meryl Streep está aí de prova. Acho que eu sou uma das poucas atrizes da minha idade que tem o campo de trabalho que eu tenho, acho que justamente por eu ser rebelde e ter optado por uma vida de cigana. Há cinco anos trabalho sem parar. Vou fazer a Shirley (Valentine, peça de teatro que ela protagonizou no ano passado) no Rio até o fim do ano. Depois, quero voltar com a Shirley para cá. Daqui a dois anos, faço 70, e vou me dar um musical de presente. Comprei os direitos de Applause, que é em cima do All About Eve (A Malvada). Quem fez foi Lauren Bacall.

A rebeldia pauta a maneira como você escolhe seus papéis?

Agora, cada vez mais. Decidi que só vou trabalhar com quem eu gosto. Com quem me sacaneou, não mais. Dá câncer. Na Globo, tem dois diretores e três autores com quem não trabalho mais. Beleza, fama e dinheiro passam, mas o seu caráter fica. Então, não sou capaz de encontrar alguém que me tratou mal e dizer "oi, queridoooo" só para conseguir um papel.

Mas fica incomodada, por exemplo, com o tamanho do papel que te dão numa novela?

Ah, é horrível! Imagine, você tem a expectativa de que o trabalho vai se desenvolver dali a oito meses de um jeito e ele não se desenvolve. E você fica amarrada ali, à disposição.

É algo desse tipo que fez você deixar a Globo?

Olha, não estou ressentida e não tenho tempo a perder. Acho que quando você fala de coisas que passaram, traz de volta toda aquela energia, e não é legal. Superei bem o que me aconteceu, com a maior classe, e sigo em frente. Por isso, meu funeral vai ser uma parada gay com as bichas cantando a música da Tieta! Não sou móveis e utensílios de nenhuma emissora, e não vou ficar amarrada a lugar nenhum para ter um salário no final do mês. Eu brigo para ter uma mecha de cabelos brancos, imagina por um bom papel.

 

Em 1972...

Não é a primeira vez nem será a última que uma novela é lançada com a promessa de resgatar o romantismo na TV. A diferença - ou o charme - da adaptação que o autor Tiago Santiago lança no SBT amanhã é que Uma Rosa com Amor, a original, é a base das comédias românticas que se tornaram a marca do horário das 7 da Globo, emissora que a levou ao ar em 1972, com Marília Pêra no papel principal. Num clima Betty, La Fea, Uma Rosa com Amor conta a história de uma secretária desiludida com o amor. Atrapalhada, Serafina Rosa é secretária na construtora do francês Claude (Cláudio Lins), que precisa se casar para obter visto de permanência no Brasil. Logo, Rosa aceitará um casamento de aparência com o patrão. É claro que com o tempo os dois se apaixonam de verdade. P.V.

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