'Não sou meu tipo de homem'

Antônio Fagundes volta às novelas amanhã. Em Duas Caras, ele será o líder Juvenal Antena

Renata Gallo, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2007 | 22h20

Ele renega o título de galã, mas, mais uma vez, estréia na tela no papel de um conquistador. Juvenal Antena, novo personagem de Antônio Fagundes em Duas Caras, será um líder comunitário, fundador da Favela Portelinha. "Digamos que ele terá um acesso a um grande número de mulheres", explica. Aos 58 anos, depois de cinco anos fora das novelas, Fagundes diz que estava com saudade do gênero e que não teve como recusar o convite de Aguinaldo Silva após ler as mais de 100 páginas da sinopse do personagem. "A sinopse era quase um romance. E extraordinária", diz.Para o Juvenal, você buscou algo além da sinopse?Costumo dizer que 90% do trabalho do ator é de observação. Até porque seria impossível você compor um personagem em semanas. Ainda mais um personagem com a intensidade do Juvenal. Naturalmente o texto do Aguinaldo já encaminha, eu diria 80%, do que você tem que buscar. Acho que seria disperso demais você buscar em outros lugares. Quantos líderes comunitários existem só no Rio? Então preferi fazer o meu, ele não é baseado em ninguém, ele é baseado no Juvenal Antena do Aguinaldo Silva.Não subiu nenhum morro?Eu, particularmente, sou contra isso. Acho que é um tipo de trabalho inútil. Você vai encontrar no morro um monte de coisa que não tem no texto e um monte de coisa que você tem no texto você não vai ver no morro. E, como você vai ter que seguir o texto, é melhor se concentrar no seu trabalho e criar aquele personagem - não esquecendo que novela é uma obra de ficção, não é um documentário. Subir o morro pode ser muito divertido, mas não vai ajudar em nada.Isso é a regra no seu trabalho?Sim. A não ser que tenha que ter alguma habilidade física que não tenha. As pessoas costumam perguntar quanto tempo me preparei para tal personagem e sempre digo, 58 anos.E com 58 anos encarar uma rotina de TV é mais fácil?Não muda muito. O nervoso da estréia, a ansiedade é a mesma. A espera (entre uma cena e outra) também. A maturidade não te trouxe mais paciência?Não, mas trago um livrinho sempre (está lendo ?Tábula Rasa?, de Steven Pinker). Acho que consegui compensar essa ansiedade pela espera com muita leitura. A época que mais leio é quando eu estou fazendo novela.Duas Caras terá um grande núcleo que irá viver na favela. Você é daqueles que acham que a novela tem função social?Acho que TV é entretenimento e novela é um produto de entretenimento. Se a novela não entreter, não distrair, ela não vai servir ao seu objetivo maior. O que vier além disso é lucro. O que acho é que a teledramaturgia brasileira sempre lucrou muito. Ou seja, não deixou de tocar em assuntos importantes da realidade brasileira e tocou com muita seriedade. Nós já falamos de reforma agrária, homossexualismo, drogas, violência contra a mulher... Temas tabus da sociedade que foram ouvidos por serem através de uma mídia de entretenimento. Talvez não fossem levados tão a sério se fossem colocados dentro de um programa cultural ou especificamente educativo. Através daquela historinha que está sendo contada, a gente consegue paulatinamente abrir para assuntos importantes, o que fez da teledramaturgia brasileira uma coisa que tem um diferencial em relação a todos os outros produtos similares no resto do mundo.E por que acha que só agora essa parcela significativa da sociedade, que vive em favela, está tendo destaque?Acho que sempre houve uma tentativa de se fazer isso. O Carga Pesada mesmo fez isso por cinco anos com muita categoria, sem nunca deixar de ser entretenimento. Acho que o que diferencia essa novela é que o Aguinaldo resolveu aprofundar o tema, mostrar a formação de uma favela a partir de um terreno baldio, a comunidade sendo formada e crescendo com leis próprias e problemáticas diferenciadas.Será o líder da comunidade. Como anda seu lado militante?(risos) Nunca fui militante, quer dizer, nunca tive carteirinha. Vamos dizer que sou um observador atento.Mas você já se expôs...Tive um momento da minha vida que eu achei que era importante contribuir com algumas coisas. Hoje em dia eu não sei se essa contribuição é válida. Acho que quando você ajuda a eleger alguém você deveria ter o mesmo espaço para dizer depois sobre as coisas que você não concorda. E isso não acontece. É como se você tivesse dado um cheque em branco para pessoas que não merecem. Hoje acho que se meu trabalho conseguir tocar em alguns problemas da realidade brasileira já estou dando uma grande contribuição.Você disse que raramente regrava uma cena...Bom, no que depender de mim eu já gravo no ensaio (risos). Acho que se você consegue estabelecer um clima de concentração, sem ser estressante, a cena sai de primeira.Você está falando de companheiros experientes...Acho que se você tem um grupo experiente e coloca ao lado dele atores sem tanta experiência eles vão se esforçar dez vezes mais para, pelo menos, não atrapalhar (risos).O seu personagem será um conquistador?Vamos dizer que ele terá acesso a um número grande de mulheres (risos).E você nega o título de galã...A história diz que o galã era o namorado da mocinha. E o namorado da mocinha tinha que ser bonito. Então, o título de galã ficou como uma coisa pejorativa, o cara que era bonito e mau ator. Gosto de me imaginar como um cara feio e bom ator. Mesmo porque não me acho um caro bonito, não sou meu tipo de homem (risos).E qual é o seu tipo?Ah, um Brad Pitt.Se este rótulo não lhe cabe não é contra-senso aceitar o papel de homem conquistador?Não, porque é um trabalho de ator. Se não me considero bonito, mas consigo convencer que conquisto aquela mulher que é linda, eu sou um bom ator, não sou? Mas acho que não fiz nunca um personagem que tivesse essa característica única.Você se acha o bom partido que proclamam por ai?Proclamam por aí? Ah, que bom (risos)! Os títulos são sempre bem-vindos, eu agradeço. A minha filha mais velha, de 26 anos, toda vez que lê uma notícia dessas me liga e diz: ?Que povo bom, hein, meu pai??

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